O antigo elenco de Rainbow Six Siege da Team oNe entrou na Justiça contra a organização para reconhecer direitos trabalhistas após supostas infrações cometidas pela empresa. O ESPN Esports Brasil teve acesso a um dos processos protocolados, que pede em torno de 80 mil reais, incluindo salários atrasados, FGTS, premiações não pagas, indenização por danos morais entre outros fatores. Somando todos os processos, a ação movida pelo elenco chega a quase R$ 500 mil.
O caso corre na 48ª Vara do Trabalho de São Paulo e, de acordo com o documento obtido pela reportagem, se aplica para os jogadores Reduct, LuKid, Faallz e SKadinha, além do técnico Budega e do analista Vivass - no caso de FelipoX, que tem contrato com a Team oNe desde outubro do ano passado, os valores são diferentes. A ação é por rescisão indireta, ou seja, o empregado entra com um pedido de demissão por conta de descumprimento da lei ou então do contrato trabalhista.
O valor pedido nos processos de cada jogador é de R$ 78.593,40. Para chegar nessa soma é pedido valores de salário, premiações, multa contratual, FGTS, danos morais e honorários advocatícios. A ação judicial contempla dois contratos celebrados: o primeiro firmado em 1º de dezembro de 2018 e que se estendia até 19 de novembro de 2019; e o novo acordo que foi firmado em 18 de junho daquele mesmo ano, logo após a campanha invicta dos Golden Boys no título da nona temporada da Challenger League.
Esse novo acordo se estenderia até 31 de dezembro de 2020 e permaneceu em vigência até a data do ajuizamento da reclamação trabalhista, colocada em processo e devidamente protocolada na última quarta-feira (15).
O elenco havia anunciado a saída da organização na última quinta-feira (16), dois dias depois do término da Pro League LATAM e apenas um após a entrada na Justiça, mas, em nota, o coach Budega alertara que o elenco tinha sido orientado pelo advogado a não dar detalhes sobre o desligamento da line-up.
OS VALORES
Na ação de cada jogador são exigidos R$ 24.111,00 em salários. Quando o contrato entre as partes havia sido firmado, ficou acordado que a line-up receberia sempre no dia 10 do mês, mas a petição mostra que ocorreram atrasos nos pagamentos entre os meses de fevereiro e junho de 2019. O salário para os jogadores era de R$ 500,00 na ocasião, sendo que as despesas da casa, como aluguel, contas de luz e telefone, além da alimentação, eram bancadas pela organização.
Quando o novo contrato foi firmado, os ganhos passaram a ser de R$ 4,5 mil, sendo que R$ 4 mil eram de salário em si e os outros R$ 500,00 referentes aos serviços prestados com streaming. As despesas, poém, ficaram sob obrigação do elenco. Ainda assim, os atrasos se repetiram entre novembro e janeiro (2020).
Também houve pagamentos parcelados nos meses de agosto, setembro e fevereiro, segundo a ação judicial. Para o valor de agosto, inicialmente foram pagos R$ 500,00 em 11 de setembro, depois mais R$ 500,00 em 23 do mesmo mês e, por fim, o restante do valor foi completado apenas no dia 10 de outubro. Sobre fevereiro, o pagamento ocorreu em quatro parcelas: R$ 300,00 em 18 de março; R$ 500,00 em 20 de março; mais R$ 500,00 em 26 de março e o restante foi completado no dia 6 de abril.
Por fim, os vencimentos pelo mês de março de 2020, segundo exposto no processo, não tinha data de previsão para ser enviado pela Team oNe - o que se manteve até o dia do documento protocolado.
Esses atrasos eram questionados pela line-up. A justificativa era de que sempre tinha acontecido alguma situação extraordinária para o atraso e que não iria mais se repetir. As respostas, como consta na defesa, eram demoradas nos contatos por mensagens no WhatsApp.
Ainda segundo a defesa, o elenco não recebeu os valores referentes a premiação de três competições. Os ex-Golden Boys têm direito cada a R$ 16.991,09 em função dos resultados obtidos por ESL Challenger League LATAM Season 9, da Série B do Brasileirão de Rainbow Six Siege 2019 e da ESL Pro League LATAM Season 10. O valor está corrigido com os devidos descontos.
Por danos morais, o elenco exige R$ 22.500,00 por integrante. Segundo consta no documento, os jogadores e a comissão técnica se reuniram com Kakavel, CEO da Team oNe, em dezembro do ano passado para expor “insatisfação sobre suas condições de trabalho, formalizando mais uma vez os problemas de atraso salarial, conexão de internet, comunicação precária entre empregador e empregado, uniformes atrasados e diversos outros problemas”.
Mas, de acordo com o alegado na ação judicial, Kakavel respondeu que se o elenco não estivesse satisfeito com as condições de trabalho, “o que deviam fazer era só pagar a multa rescisória de R$ 81.000,00 por jogador e procurar outra organização”. O valor da multa rescisória, segundo a defesa, consta na Cláusula 11.4 do Doc. 03.2 – Pág. 15 do contrato firmado entre ambas as partes.
CONDIÇÕES DE TRABALHOS
O elenco relata no documento que sempre teve problemas com as condições de trabalho. Durante o período do primeiro contrato firmado, o elenco de R6 tinha como ambiente de trabalho “uma garagem fechada e cheia de mofo”.
À essa altura, a casa localizada no centro da cidade de São Paulo contava ao todo com 16 pessoas: sete da line-up de R6, dois managers, a dupla de sérvios klowny e Ryuzaki da equipe de League of Legends, além do time feminino de Counter-Strike: Global Offensive.
A line-up também reclamou na ação judicial sobre as condições de alimentação providenciada e o seu custeio, alegando que a Team oNe "jamais providenciou alimentação suficiente", seja nos treinos diários ou então nos campeonatos. Motivo pelo qual precisavam pagar do próprio bolso.
A um mês antes de a Team oNe adotar o sistema de gaming office, no complexo da organização localizado no Shopping D, o elenco deixou a garagem da GH para trabalhar na sala de casa. Posteriormente, a GH ficou só com os jogadores de R6, mas, de acordo com o processo, Kakavel estabeleceu que o elenco dividisse entre si todas as despesas.
Mas no gaming office, entretanto, as condições de trabalho seguiram longe das ideias segundo a defesa apresentada. A principal reclamação foi por conta da conexão lenta, o que prejudicou o desempenho da equipe em algumas rodadas ou o que atrasou a entrada do time no servidor em partidas válidas pela 10ª temporada da Pro League LATAM. Inclusive, pela quinta rodada, os ex-Golden Boys foram punidos pela ESL exatamente por conta de atraso.
Os problemas frequentes e constatados na ação judicial levaram a saída de SKadinha, em decisão tomada pelo jogador no início de outubro de 2019. A confirmação do desligamento ocorreu em novembro.
ACORDO
Em nota, a Team oNe afirmou que não irá se pronunciar oficialmente sobre a situação e que também ainda não foi notificada de nenhuma reclamação trabalhista. A organização tenta um acordo para a permanência do elenco.
[Comunicado Oficial] pic.twitter.com/iPM3Y18MM8
— Team oNe eSports (de 🏡) (@teamoneesports) April 18, 2020
A Ubisoft já havia se pronunciado sobre a saída do elenco da Team oNe. Como já havia sido antecipado pelo
COMUNICADO OFICIAL
— Rainbow Six Esports Brasil (@rainbow6br) April 17, 2020
Sobre a saída da line-up da @teamoneesports. pic.twitter.com/bIBDrNIbU7
Ainda assim, a empresa alegou que, caso a line-up seja contratada por uma nova organização, esta “deve atender a diretrizes da desenvolvedora, provendo estabilidade financeira, estrutura e condições necessárias para que os atletas continuem desempenhando o seu trabalho no mais alto nível de forma segura e confortável em todos os âmbitos.”
