O time de CS:GO do MIBR encerrou 2019 surpreendendo a torcida ao trocar o jogador lucas1 pelo argentino meyern, revelação na Sharks. A contratação foi mais uma das mudanças promovidas no elenco desde o retorno da tag, em 2018.
No último domingo (5), o MIBR promoveu um encontro com os fãs na One Academy, em São Paulo, em que o time recém-reformulado teve contato presencial com a torcida. Em entrevista ao ESPN Esports Brasil, o jogador Fer, veterano do time e do cenário, comentou a chegada de meyern e as possibilidades caso o argentino não fosse o escolhido.
Fer revelou que, antes de decidirem pelo nome de meyern, ele e os companheiros olharam para o cenário brasileiro, mas criticou os contratos assinados em território nacional. "No Brasil, está muito difícil achar jogador atualmente”, opina o rifler. “Ele [o jogador] ingressa numa organização e, mesmo nunca tendo jogado um campeonato internacional na vida e tendo talento para jogar em qualquer time, já está valendo US$ 500 mil, US$ 1 milhão. Valor que ninguém jamais vai pagar na vida", crava.
BUSCA NO BRASIL
O jogador comentou que, em sua visão, existem “coisas absurdas” acontecendo no Brasil. “Um jogador que acabou de entrar numa equipe, tem 16 anos, nunca saiu do Brasil e custa US$ 500 mil. Ele não vale isso”, exemplifica. “Algumas organizações estão matando o talento de alguns, a oportunidade que possuem de jogar num time maior, porque querem dinheiro”, diz.
“O cara faz uma organização aqui, tem um time no qual paga uma mixaria de salário e, quando o jogador tem uma grande oportunidade, quer vender o jogador por 500 mil. Isso é muito injusto e no Brasil acontece em algumas organizações, com alguns jogadores", opina Fer.
O veterano deixou claro que o MIBR estava a procura de um quinto jogador brasileiro, mas justificou a escolha de meyern. “[Um brasileiro] faz mais sentido pra gente, mas depois que vimos que não tinha muito o que fazer, falamos: ‘Mano (sic), tem um jogador argentino que é muito bom, tem um buyout justo e ninguém está abusando dele. Ele tem talento, vamos apostar nele”, esclareceu.
Fer comenta a escolha do argentino demonstrando confiança em seu trabalho. “O meyern é um jogador argentino dentro do MIBR e, pra a gente, é um jogador bom. Tem uma mira boa e um talento absurdo. Ele tem tudo para ser um dos melhores do mundo, basta trabalharmos juntos, pegar aquela constância, confiança para melhorar nossa performance”, completa.
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O jogador mostra entusiasmo sobre o futuro não só da equipe, como também do novo companheiro. "O time está com uma combinação boa. Temos jogadores experientes e o garoto [meyern] tem talento. Ele é uma aposta, sendo um cara que está super a fim de jogar. Ele vai nos puxar para jogar mais. Ele passa o dia todo jogando e aí você vai ver isso e vai dormir? Você não fica cansado, vai lá e joga com ele. É um cara que vai nos puxar", afirma.
Questionado pela reportagem sobre quais foram os outros alvos do MIBR para o lugar de lucas1, Fer não citou nomes, mas disse que o time olhou para jogadores da Furia e da Red Canids. “Chegamos a olhar para a Team oNe na época, e tinha gente da própria Sharks que também vínhamos analisando”, diz.
PROBLEMAS E SOLUÇÕES
Fer avalia que o cenário brasileiro está se desenvolvendo e revelando talentos por conta dos “vários campeonatos” e chances para que o jogador mostre seu jogo, mas critica a postura de organizações, sem citar nomes. “Algumas oportunidades estão sendo desperdiçadas porque organizações estão querendo fazer a vida com a venda de um jogador. Não pensam muito no jogador”, disserta.
A realidade no Brasil melhoraria, na opinião do jogador, se os contratos fossem menos abusivos e se os atletas recorressem, frequentemente, à assistência jurídica adequada. “Tem jogadores que não possuem um advogado por trás. Existem contratos com muitas pegadinhas no Brasil, e coisas que não são tão profissionais quanto lá fora”, afirma.
"Lógico que eu entendo o lado dos clubes”, analisa, “que querem ganhar o máximo de dinheiro possível. Mas eles devem ser mais profissionais e mesmo abusivos. Já tive acesso a contrato de jogadores que falei 'meu deus do céu'. São coisas que não existem, e que as organizações sabem que não existem, mas mesmo assim fazem", aponta o rifler.
Fer usa como exemplo os jogadores da Furia, que, na metade de 2019, renovaram o vínculo com a organização por cinco anos. “Talvez, se não fosse por esse contrato, que eu considero abusivo, eles não teriam ido para fora. Ao mesmo tempo que eles estão ‘presos’, tiveram a oportunidade [de competir fora do País]”, pondera.
INCONSTÂNCIA NA ESCALAÇÃO
A mudança de lucas1 por meyern foi a quarta troca na escalação em 2019. A inconstância rendeu ao time comparações com times de futebol, que, muitas vezes, trabalham com imediatismo e mudanças pontuais de nomes como soluções de problemas.
Fer rejeita a analogia, mas afirma entender o lado dos torcedores quando associam as situações. "É muito fácil comentar uma coisa quando não está vivendo aquilo”, crava. “Não nos importamos muito com os comentários de fora, porque a torcida não sabe o que a gente está vivendo dentro do time. (...) Trocar a line é sempre a última opção. A pior coisa que tem é fazer mudança, mas as vezes é necessário. Não tem o que fazer", justifica o jogador.
Para deixar o pensamento mais claro, o jogador lembrou de 2017, quando a equipe ainda vestia a camisa do SK Gaming e felps saiu para a entrada de boltz. "Tivemos o felps naquela época em que ganhamos vários campeonatos. Foi um sucesso absurdo, e você se pergunta como tiramos ele se o time estava funcionando. Mas você não sabe como o felps estava se sentindo dentro da equipe. Quando aconteceu essa mudança, ganhamos três torneios seguidos, que foram Epicenter, Blast e a Pro League", resgata.
DE VOLTA AO MANTO SAGRADO PRETO!#SomosMIBR #NewJersey2020 pic.twitter.com/RGQsiYjulP
— MIBR (@mibr) January 5, 2020
"Às vezes, um jogador está desconexo com as ideias da equipe, e acaba não funcionando”, explica. “O próprio jogador não está se sentindo bem com aquilo que está fazendo, começa a performar mal porque não está confortável e, se isso acontece, não interessa se está no melhor time do mundo, [ele] tem que buscar a felicidade", complementou.
Fer explicou que não vê o MIBR sendo comparado com um time de futebol porque as realidades das duas modalidades são totalmente diferentes. "O CS é um pouco injusto, porque tem muitos campeonatos. No futebol não é assim”, aponta.
“Quando ganhamos o primeiro Major, no final de semana seguinte tivemos outro campeonato. Então, saímos do Major para outro campeonato e você não tem tempo para se sentir campeão. No CS você é campeão hoje e amanhã você pode perder, e tudo o que você fez não vale mais nada. É um pouco complicado”, esclarece.
