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Contas 'smurfs' são prejudiciais para os jogos online? Jogadores e desenvolvedoras comentam

Contas smurfs, ou alternativas, são outra polêmica do mundo dos jogos online e dos esportes eletrônicos. Soumil Kumar/Pexels

Era uma vez um jogador novato que decidiu se arriscar nas partidas ranqueadas de um novo game. Eis que ele se depara com um companheiro de equipe - ou um adversário - que demonstra estar em um nível muito acima dos outros mesmo sendo do mesmo elo. E pior: além de estragar o jogo por ser muito melhor, tal pessoa ainda está brigando com outros jogadores por estes serem “ruins”.

Esta não é uma cena incomum no universo dos jogos online e normalmente é consequência do fenômeno das contas secundárias. Tais contas também são conhecidas como “smurfs”, um termo originado da ideia dos jogadores Geoff Fraizer e Greg Boyko, uma dupla famosa em Warcraft III: Tides of Darkness. Na época, os dois eram tão bons no jogo que muitas pessoas fugiam de possíveis combates, então decidiram criar contas alternativas com os nomes de PapaSmurf e Smurfette para não espantar possíveis adversários.

O termo, assim como a ideia, pegou. Hoje em dia, milhares de jogadores de diferentes títulos - até mesmo os pagos - possuem mais de uma conta por motivos que vão desde “jogar com amigos de nível mais baixo” até “teste de estratégias diferentes”. A prática, no entanto, costuma dividir a opinião da comunidade.

Enquanto contas smurfs costumam ser úteis para jogadores profissionais, elas podem ser armas letais para a experiência de uma partida nas mãos de jogadores tóxicos. Para debater mais sobre este assunto polêmico, o ESPN Esports Brasil conversou com jogadores, casters e até desenvolvedoras.

Entre alguns dos defensores está MKing, jogador de Rainbow Six pela Immortals. Para ele, contas alternativas são úteis para quando um profissional quer jogar somente para se divertir e sem estresse. “Algumas pessoas quando sabem que tem um jogador profissional do outro lado levam a partida muito mais a sério só por querer vencer aquele jogador”, afirma. “Tenho inclusive uma [outra] conta só para jogar com o pessoal da minha stream”.

O streamer Itoka tem uma opinião parecida. “Para quem joga em alto nível e disputa várias partidas por dia, seja para criar conteúdo ou treinando para competitivo, chega um momento em que a pessoa fica sobrecarregada de tanta toxicidade e frustrações. A smurf é um lugar onde você pode jogar uma ranqueada sem medo de ser feliz”, explica.

Ambos, no entanto, sabem do lado negativo de contas alternativas nas mãos erradas. São casos de pessoas utilizando [as contas] para xingar, trollar, usar hack, fingir que são jogadores profissionais, e isso acaba ficando chato ou estragando o jogo”, diz MKing. “Mas como eu disse, muita gente quer uma conta smurf só para jogar e ‘upar’ a conta do zero novamente, levar de uma patente ‘inicial’ até o diamante. Esse é o meu caso e de muitas pessoas que somente querem jogar o jogo tranquilamente”.

“Tem suas duas vertentes”, comenta Itoka. “De um lado, é bom para quem está em um nível baixo e quer aprender com alguém melhor que ele. Do outro, é ruim por conta da conduta de caras que não têm muita educação com os mais novatos e acabam estragando a experiência dos jogadores que ali estão”.

Técnico da equipe de League of Legends da paiN Gaming, Djoko diz ter uma “opinião dividida” sobre contas smurfs. “Definitivamente é algo ruim para o sistema de ligas e para as ranqueadas: smurfs desbalanceiam partidas em todos os elos e complicam bastante o funcionamento do tier Challenger, já que jogadores podem ocupar múltiplas posições com diversas contas, tirando recompensa e visibilidade de outras pessoas”, aponta.

“No entanto, do ponto de vista competitivo, as smurfs são a maneira mais confiável e funcional de treinar um pick novo de forma ‘escondida’ (quando a smurf for desconhecida) de outros times”, completa. “Nos elos mais altos, as filas são mais demoradas, e aprender um novo pick pode prejudicar as partidas nesse tier. Dessa forma, são um mal necessário para grande parte dos jogadores profissionais”.

Já quem é contra a prática de contas alternativas também têm argumentos fortes. “Geralmente, elas atrapalham o aprendizado de um jogador e, mais importante, tira o sentido do sistema de elos”, afirma a streamer Thaiga.

Para ela, “ou proíbe de vez, ou deixa organizado”. “Por exemplo: criar a conta assumindo que ela seja uma smurf. A conta fica sinalizada caso caia com contas normais, mas colocar para que elas caiam em filas com outras smurfs”, sugere. “E punições pequenas para contas smurfs não sinalizadas. Não sei como provariam isso, mas só imaginando um mundo ideal mesmo”.

O narrador Bida tem uma posição ainda mais forte que à de Thaiga. “Smurfs são tão prejudiciais quanto hackers. Ambas tiram a graça da partida”, crava. “O rankeamento do jogador é dado para que as partidas sejam equilibradas. Se um jogador está na patente errada, o jogo será completamente desbalanceado"..

Uma possível solução para o problema, segundo Bida, seria que a conta de um jogo fosse ligada a dados como RG ou CPF do jogador, como é o caso da Coreia do Sul e China que possuem leis que obrigam as pessoas usar documentos para jogar qualquer game online. “Idealmente todas as contas seriam ligadas aos registros brasileiros de um usuário, e assim cada um só poderia ter uma conta vitalícia. Mas não acredito que seja um método prático e/ou viável atualmente”, comenta.

Ele continua: “Não acho que exista, atualmente, uma maneira de lidar com essa situação. Poderiam ser removidas as smurfs de streamers/youtubers, mas se um usuário aleatório decidir criar sua conta smurf, não seria possível provar que era ele mesmo”.

No caso do Counter-Strike: Global Offensive, jogo ao qual Bida é mais ligado, o narrador explica que muitos jogadores criam contas alternativas para jogar com amigos. “Como não existe um matchmaking competitivo sem rankeamento, [os jogadores] são forçados a isso. Talvez criar um competitivo sem rank pudesse ajudar”, cogita.

Mas e qual é a opinião (ou regras) das desenvolvedoras?

Em resposta ao ESPN Esports Brasil, a Riot Games comunicou que “a criação de contas smurf é uma prática comum no universo dos jogos multiplayer. Os perfis secundários permitem que jogadores de elos mais altos testem estratégias variadas ou que jogadores de elos diferentes (novatos e mais experientes) possam jogar juntos”.

A desenvolvedora revela que as contas alternativas não estão entre as principais reclamações dos jogadores brasileiros de League of Legends, mas não nega os pontos negativos de tais contas. Ela também explicou que está desenvolvendo novas tecnologias para diminuir “o impacto das contas smurfs na experiência dos novos jogadores” ao utilizar “um sistema capaz de identificar o nível de habilidade de um jogador” e “reunir em uma partida jogadores de habilidades similares”.

Por sua vez, a Ubisoft, responsável por Rainbow Six, apenas comunicou que “não permite o uso de mais de uma conta por usuário, como especificado nos Termos de Uso do jogo, e se reserva o direito de fechar contas adicionais”.