No último sábado (13), a INTZ levou o time do Flamengo à exaustão ao estender a melhor de cinco da final do Campeonato Brasileiro de League of Legends (CBLoL) até o último jogo possível. Os intrépidos orquestraram boas jogadas e venceram a partida, levando o título e a vaga no primeiro torneio internacional do ano.
Antes do início da série, a possibilidade do Flamengo eSports não vencer o CBLoL era pouco cogitada. A discussão não era sobre a série final, e sim se o time representaria bem o Brasil no Mid Season Invitational. O sofrimento na melhor de cinco da equipe que venceu 20 partidas e perdeu apenas uma na fase de pontos era estranho aos olhos da torcida, e a derrota surpreendeu até aos especialistas, que olhavam incrédulos enquanto os cinco jogadores da INTZ derrubavam o Nexus rubro-negro.
Pra ser honesta, eu não estava realmente surpresa.
Os intrépidos chegaram ao CBLoL 2019 com a alcunha auto-intitulada de INTZ Army, em referência a um exército. Ao final da Superliga ABCDE 2018, torneio de pré-temporada que inclusive teve os intrépidos como campeões, a INTZ contava com 10 jogadores em sua escalação oficial para o CBLoL, além de outros cinco em treinamento em seu quartel-general.
Três fortes jogadores surgiram como adições ao elenco de 2018. Lynx dividiria posição com Tay no topo, e o suporte BocaJR, destaque do Santos eSports, seria reserva de Redbert. Quase como carta na manga, o atirador multicampeão latino WhiteLotus vinha para suprir a ausência de Absolut, dividindo a posição com Mills, revelação do final de 2018.
O título na Superliga foi um respiro de paz para os intrépidos após uma temporada de desempenho pífio no CBLoL — mas, na prática, não significava tanta coisa. A INTZ conquistou o mesmo título em 2017, e finalizou o CBLoL 2018 em sexto lugar nas duas etapas. Pela primeira vez em sua história, o clube lutou para não cair.
Em algum momento da campanha desesperadora dos intrépidos na oitava temporada, o caçador Shini me disse em entrevista que, talvez, a falta de reservas tivesse sido um fator importante para que a INTZ não tivesse conseguido impor seu jogo e se sobressair sobre seus adversários.
Quando o exército de dez jogadores foi anunciado, eu tive certeza que esse time daria trabalho.
A INTZ chegou no CBLoL 2019 com sua armada que, mesmo individualmente, tinha potencial para se destacar no campeonato. Tay, Shini, Envy, Whitelotus e Redbert já eram nomes consolidados no cenário. Lynx, Sephis, Hauz, Mills e BocaJR eram promessas consistentes que provaram seu valor durante a Superliga 2018, subindo ao palco em momentos específicos e garantindo vitórias importantes na campanha para o título.
Mas a vitória da INTZ na final do CBLoL não aconteceu por conta dos nomes, da rivalidade ou da força individual dos jogadores. Ela aconteceu por conta da unidade entre os dez inscritos, que não se restringiram entre Time A e Time B em momento algum.
A estratégia de 10-man-roster não é nova, muito menos a utilização de jogadores reserva em esports — mas eu acredito que o potencial e a força dessas táticas não estejam devidamente claras ao público. Quando bem utilizado, um jogador reserva não é apenas uma peça específica para uma determinada situação, ou como nome para preencher tabela na lista de convocados, e sim parte de uma extensa preparação e de uma série de estratégias.
Quando há um time reserva em uma organização, a possibilidade de treinos internos é posta à mesa — e quanto mais forte esse time for, mais consistentes serão os resultados. Esse tipo de treino pode ser utilizado para experimentar táticas específicas ou novas composições, com a vantagem de que nenhuma dessas informações chegará aos times adversários.
Esse, no entanto, não é meu fator preferido neste tipo de estratégia. Na coletiva de imprensa após a final do CBLoL, o mid laner Envy respondia a uma questão referente à crescente impressionante de seu desempenho ao longo do campeonato e, especificamente, na grande final.
“Como eu sabia que tinha sempre um cara na minha cola, que era muito bom também, que queria muito a minha vaga e que não parava nunca de treinar, eu realmente dei meu 300%. E eu sabia que se eu não me esforçasse todo dia ele ia pegar meu lugar. Não tem essa de ‘ah, tal pessoa é mais experiente e tem nome.’ Você é ‘trocável’”, comentou Envy, MVP da INTZ nas três partidas em que o time venceu na final.
O ‘cara que queria muito a vaga’ era Hauz, mid laner que fez sua estreia no palco na Superliga — mas que brincou no Rift em sua estreia oficial, na 9ª semana do CBLoL, e cravou o lugar de seu time nas semifinais. O novato de dezessete anos foi MVP em sua série de estreia contra a Vivo Keyd de tockers, um dos principais nomes do cenário profissional, criando jogadas com confiança de veterano com sua LeBlanc.
Meu ponto preferido da estratégia de 10-man-roster é o aprendizado mútuo propiciado pela divisão de posição. Será que Lynx evoluiria o que evoluiu como jogador em duas etapas se não convivesse diariamente com a experiência de Tay? Será que Tay prosseguiria constante na posição se não tivesse as avaliações e lições de Lynx?
Será que Hauz teria essa confiança se Envy não assumisse, mesmo que indiretamente, o papel de rival e tutor?
É importante ressaltar também que não é apenas sobre rivalidade, e principalmente sobre lições mútuas. A importância de um reserva ultrapassa as possibilidades que ele tem de subir ao palco. Sua verdadeira função é apresentada na sala de treinos — e quando o conhecimento e a habilidade de um time é focada no coletivo e descolada do talento individual, é muito mais difícil pará-lo.
Após a conquista do título, Whitelotus pediu através de sua conta no Twitter que os fãs não digam que ele foi campeão de toda a América Latina. “Eu não fiz nada e estariam tirando o mérito de outras pessoas. Isso até me deixa envergonhado”, comentou, sendo refutado horas depois por Shini.
só vi esse seu tweet agora mati e perdao mas sou obrigado a discordar de voce... talvez nao tenha sido no nivel de participacao que voce queria mas voce é sim campeao desse split do cblol e é sim campeao de toda a america latina, voce e todos os reservas que passaram dias conosco
— Diogo Rogê (@Shinimon14) 15 de abril de 2019
“Você é sim campeão desse split do CBLoL e é sim campeão de toda a América Latina”, cravou o caçador. “Você e todos os reservas que passaram dias conosco.” Shini sintetiza em poucos tweets as semanas de treino em que Whitelotus foi fundamental à INTZ, assim como os outros reservas. O título é dos dez jogadores — assim como, em um gramado de futebol, o mérito é dos 22 jogadores, independente de quem esteve em campo no dia da decisão.
Mas essas engrenagens não funcionam sozinhas.
Citei a questão da unidade algumas vezes. Sem unidade, nível de habilidade equiparado, objetivo comum, organização e maestria na gestão desses talentos, dez jogadores dificilmente deixarão a individualidade para se transformar em um time vencedor. É irônico que a peça responsável por orquestrar a escalação da INTZ rumo à vitória seja conhecida justamente pelo nome de “Maestro”.
Lucas Pierre trabalha com a INTZ desde 2017, em que foi técnico assistente de Peter Dun, considerado por muitos (e por mim mesma) um dos melhores que já passou pelo Brasil. Em 2018, Maestro conquistou o voto de confiança da organização e assumiu a titularidade, entrando como head coach.
Mesmo com o insucesso em 2018, Maestro assumiu a responsabilidade de treinar o recém-formado exército intrépido. Ele, os assistentes ONMETA e jUc e outras peças da comissão técnica da INTZ abraçaram os talentos de sua escalação e levaram os dez jogadores ao topo, juntos. Não é trabalho de um ou de outro. É trabalho de uma INTZ cada vez mais consolidada enquanto lapidaria de talentos e quartel general de vencedores.
A final do CBLoL era parelha. Dois times excelentes disputando o título e a vaga brasileira para o MSI, 10 jogadores extremamente competentes brigando no palco do CBLoL. Talvez, como foi muito apontado, o Flamengo fosse superior em desempenho. Eu não sei se acredito nisso, pra ser honesta — até porque, né? O título é da INTZ.
Para mim, quem realmente se destacou nessa final e agiu dois, três passos a frente de seu adversário foi Natália Zakalski, psicóloga dos intrépidos. Pupila de Claudio Godoi, que fez parte da equipe por anos e deixou-a para dedicar-se integralmente à Team Liquid, a profissional mostrou na raça o quanto a preparação psicológica é fundamental a um atleta de esporte eletrônico.
O Flamengo jantou a INTZ no primeiro jogo da série. A INTZ jantou o Flamengo no segundo. Disputas longas são cansativas. A INTZ manteve o desempenho ao longo da grande final, que foi levada à situação limite do quinto jogo — talvez até tenha crescido em gameplay. O Flamengo não fez o mesmo, e era difícil reconhecer na série decisiva o rubro-negro dominante ao longo do campeonato.
Eu não fiquei surpresa com a vitória da INTZ por ter convicção de que o exército criado pelo clube nesta temporada — desde os dez jogadores até a comissão técnica, toda a equipe que faz o preparo físico e mental do time e a administração — é absolutamente competente. Eu também não ficaria surpresa se o Flamengo vencesse, e acredito que o nível equiparado e altíssimo dos dois times seja um bom sinal para a nossa região.
Antes da final, cravei entre alguns colegas que pediam minha opinião que, talvez, o Flamengo não fosse o melhor representante brasileiro no cenário internacional. Caso só um reserva possa ser levado (e aqui aponto a questão de ser levado, e não necessariamente utilizado) para o MSI, como aconteceu em outras edições, a INTZ pode sim estar em desvantagem. Mas, no cenário ideal em que toda a INTZ Army possa representar nossa região, eu acredito em bons resultados.
