Na arena de Place Bell em Laval, Quebec, havia uma fila serpenteando pelo corredor do primeiro andar. Seguranças observavam de seu posto na entrada do local para ver o que estava acontecendo. A ponta da fila, a causa de toda a comoção, era uma única pessoa com uma bebida na mão.
Niclas “Pengu” Mouritzen, da G2 Esports, queria apenas pegar uma Coca-Cola enquanto sua equipe esperava para disputar o mundial de Rainbow Six Siege, o Six Invitational. Ele não tinha percebido o quanto era famoso no maior evento do ano. Fãs de todo o mundo correram até ele para dar “oi” antes de pedir mais um segundo de seu tempo para uma foto. Em toda oportunidade que o dinamarquês de 21 anos tinha para escapar, outro fã pedia por uma foto.
“Só mais três!”, ele gritou para o público, esperando controlar a situação caótica.
Um pai e uma filha se aproximaram de Pengu, esperando cumprimentá-lo e tirar uma foto com sorrisos de orelha a orelha. Primeiro o pai, depois a filha. Quando Pengu chegou ao “três”, ele cedeu, incapaz de dizer não aos fãs japoneses que esperavam para conhecer seu herói. “Espere, só mais um”, explicou Pengu à multidão. Então outro. E outro. O ziguezague de fãs continuava a crescer.
“Eu não esperava ir pegar uma Coca e ser parado por tantas pessoas”, disse Pengu, finalmente desapontando o público ao prometer que voltaria mais tarde para dar autógrafos. “E mais importante, é incrível ao mesmo tempo. Os fãs estão sempre presentes. Há três anos, quando começamos [no Siege], não havia nada disso. Éramos nós, os jogadores, e os funcionários eram a audiência gritando ‘Uhu, conseguimos!’. Agora temos fãs. É loucura”.
Às vezes tímido demais para pedir por uma foto, Pengu se reconhece em seus novos fãs. Antes de se tornar bicampeão mundial de Rainbow Six, ele era um fã em sua casa, na Dinamarca, quando assistia o competitivo de League of Legends e sonhava em jogar no palco com seus grandes heróis. Ele queria seguir os passos de um de seus ídolos: o conterrâneo Søren “Bjergsen” Bjerg, o jovem fenômeno que despontou na Europa antes de se tornar o rosto de uma das maiores marcas de esports do mundo, a Team SoloMid. Cinco anos depois, Bjergsen já foi diversas vezes o MVP em sua liga e é reconhecido em todo o mundo.
Pengu se via como o próximo grande jogador de League of Legends a sair da Dinamarca. Apesar de subir nos rankings online e ter chegado próximo de uma oportunidade, a chance nunca veio. Sem querer desistir de seu sonho nos esports, ele mudou para outro MOBA - Heroes of the Storm -, acreditando que este poderia ser seu caminho para se tornar um jogador profissional de videogames. Infelizmente, assim como aconteceu com League of Legends, a chance não veio.
No fim, Pengu era apenas mais um adolescente com grandes sonhos e que falhou no salto de se tornar um jogador muito bom, talvez o melhor que os amigos conhecessem, para se tornar um jogador profissional. Nem todo mundo pode ser o Bjergsen. Dos milhões de estudantes do colegial de todo mundo que amam jogar videogames (e que, por algum mero segundo, já pensaram em jogar profissionalmente), apenas um ou dois talentos especiais realmente conseguem fazer esse pulo para o mundo profissional.
“O engraçado é que há quatro anos, eu estava na mesma sala da escola que o Wunder, da G2”, lembra Pengu.
Martin “Wunder”" Hansen, 20, é um desses talentos especiais que conseguiu sair do círculo online para a fama internacional no League of Legends. Em seus três anos de carreira, Wunder foi duas vezes para o Mundial do jogo, com sua participação em 2018 terminando no Top 4 com a G2 Esports.
“Agora eu jogo Siege pela mesma organização. Quatro anos atrás, nós estávamos na mesma sala de aula. Que loucura, né?”, pergunta.
Por fim, o jogo que mudou a vida dele para sempre foi outro. Rainbow Six Siege, um jogo de tiro em primeira pessoa com um sistema de seleção de personagens parecido ao de um MOBA, lançado em 2015. Dois meses depois, Pengu realizou seu sonho ao ser contratado pela PENTA E-Sports. Alguns meses depois, ele venceu seu primeiro campeonato, subindo ao topo do pódio com a PENTA nas finais da Pro League em Cologne, Alemanha.
O prêmio era de US$ 25 mil, mas a maior recompensa era a confirmação de que anos de sonhos finalmente haviam se tornado realidade. Ninguém poderia dizer novamente para Pengu que ele não era bom o suficiente para ser jogador profissional. Ele era um campeão.
Agora Pengu está no palco do Place Ball, na frente de uma multidão de fãs em busca de um autógrafo. O Six Invitational terminou, e a torcida está vibrando quando Pengu levanta o troféu do torneio, uma marreta. Pelo segundo ano consecutivo, Pengu venceu o mundial. Se ele tivesse se tornado um jogador profissional de League of Legends ou Heroes of the Storm, talvez nunca tivesse se tornado um campeão mundial. Mas por conta de suas falhas passadas, gelo seco e confete se uniam para comemorar a vitória de mais um título.
O que era US$ 25 mil dois anos atrás agora se tornou US$ 800 mil com o sucesso de Rainbow Six, que continua a crescer. Pengu, e o resto da G2, estão no centro disso tudo.
“Pengu é considerado por muitos o melhor jogador do mundo até agora”, disse Parker “Interro” Mackay, comentarista da ESL e uma das principais vozes da transmissão do Six Invitational. “Essa certamente também é minha opinião. Acho que ele joga bem em todas as posições. Ele consegue jogar com um grande número de operadores. Ele é bom em todas as formas que você deseja utilizá-lo, e tem qualidades de liderança também. É calmo sob pressão, tem ótima mira… Ele é o ‘pacote completo’ quando falamos de Siege”.
Tais ‘qualidades de liderança’ não foram naturais para Pengu. Apesar de ter conquistado o grande objetivo final de se tornar um jogador profissional, foi apenas recentemente que ele encontrou o equilíbrio entre o que significa ser “Pengu” e o que significa ser Niclas, a pessoa que ele era antes de todos desejarem seu autógrafo em um pedaço de papel.
É a mesma dificuldade que todos os jogadores profissionais precisam encarar em algum ponto da carreira. Ao contrário dos esportes tradicionais, nos quais atletas como LeBron James, Patrick Mahomes e Bryce Harper já eram populares na escola e estavam em treinamento para se tornarem as superestrelas que são hoje, as estrelas atuais dos esportes eletrônicos nunca foram preparadas para o momento de fama. A maioria era o aluno que ficava no fundo da sala e usava o videogame como válvula de escape para esquecer dos problemas do mundo real. E quando eles se tornam estrelas no mundo virtual, tudo parece virar de cabeça para baixo.
Para um jogador, o apelido pode ser mais do que um nome bobo que escolheram por achar que parecia legal. Pode ser uma máscara. Pode ser um escudo para se proteger contra a realidade da vida. Para Pengu, nada importava, a não ser ganhar. Ele não precisava ser um exemplo. Um ou dois anos atrás, ele era apenas mais uma garoto da Dinamarca jogando no computador para passar o tempo com o esports de fundo, com os jogadores profissionais a anos-luz de distância.
“Nossa persona online é o que nós decidimos que ela seja”, diz Pengu. “Acho que é por isso que as mídias sociais e as personalidades online são importantes, no geral, porque podemos escolher quais características queremos ter. Seremos legais? Seremos tímidos? Que tipo de gíria você quer usar? Que tipo de linguagem? Mas, na vida real, você não pode esconder quem você é. Não de verdade. Você pode tentar. Online, eu era um jogador super try-hard e arrogante de Siege. Na vida real, eu sou um nerd magrelo da Dinamarca que não tem amigos”.
“Mas, agora, sinto que misturei tudo. Peguei as boas experiências da vida real e as boas experiências online e misturei tudo para criar essa pessoa confortável. Estou num ponto onde sinto que Niclas, além de também ser Pengu”, continuou o jogador.
Essas máscaras e personas são o motivo da popularidade dos esports. Em esportes tradicionais, é difícil se identificar com o atleta que você vê na tela. Mas no competitivo de videogames, já há uma afinidade com uma persona e o modo como os jogadores fazem essa conexão com o mundo online. Os fãs podem assistir Pengu jogando em uma transmissão, segui-lo nas redes sociais e sentir, como quando o encontraram perto do estande de bebidas do Six Invitational, que o conhecem.
Eles acompanharam as dificuldades dele em tempo real. Apesar de ter uma habilidade inegável no jogo que ama, Pengu, magrelo e com um sorriso quase infantil no rosto, não parece nada diferente dos outros fãs no Six Invitational. São todos nerds que amam o Siege. Ele só é um dos melhores a jogá-lo.
“O Pengu joga tanto que ele é praticamente uma biblioteca de estratégias”, afirmou Joonas “jNSzki” Savolainen, um dos companheiros de equipe de Pengu na G2 Esports. “Você pode perguntar qualquer coisa sobre [Siege], e ele vai saber a resposta. É muito bom ele ter tanto conhecimento, e temos diferentes pensadores no time. Eu venho do [Counter-Strike: Global Offensive] e Call of Duty 4, então jogo de forma mais direta se comparado com Fabian ou Pengu, que querem entrar mais no meta e tudo mais”.
Siege é um título que une jogadores de diferentes estilos da cultura dos videogames. Alguns, como jNSzki, vieram do mundo dos jogos de tiro em primeira pessoa, nos quais a mira e um dedo rápido são o caminho para a glória. Para Pengu, que sonhou em vencer Lee "Faker" Sang-hyeok na final de um mundial de League of Legends, a estratégia, a variedade de personagens e as complexidades de como uma partida pode ser vencida são os atrativos deste jogo que está em constante evolução.
“Rainbow Six Siege é basicamente minha vida”, crava Pengu. “Me sinto meio culpado, mas parece que gosto mais de Siege do que da minha mãe, o que é algo terrível de se dizer agora. Mas o Siege é uma parte muito, muito grande da minha vida”.
Seja como Pengu ou Niclas, não há incertezas sobre seu futuro. O Rainbow Six Siege entrou na vida de Pengu na hora certa, e com dois mundiais conquistados, ele não tem planos de parar tão cedo.
Para onde o Siege for, Pengu vai junto, com a certeza de uma fila de fãs na cola.
