No cenário de esports, é comum que jogadores profissionais dediquem uma parte de seu tempo a transmissões ao vivo e canais no youtube, em que podem interagir com o público e criar conteúdo sem perder o foco nos títulos. O mineiro Thiago “Calango” Campos fez o caminho inverso — reconhecido por suas transmissões, o streamer viu no meio competitivo uma reviravolta interessante em sua carreira.
Acumulando mais de um milhão e meio de inscritos em seu canal no YouTube e beirando os 600 mil seguidores entre suas plataformas de streaming, Calango anunciou em fevereiro sua entrada na W7M Gaming como profissional de Fortnite. O título é o carro-chefe de suas transmissões desde o início de 2018, quando começou na Twitch.
A notícia não foi inesperada por quem já acompanhava o influenciador. No último mês de dezembro, Calango disputou uma partida do battle royale na Go4Gaming, evento beneficente com foco no público gamer, com outros nove convidados, que juntaram-se a 90 fãs no jogo. O streamer foi o último no palco a ser eliminado na partida, vencendo o desafio entre as figuras públicas.
De acordo com Calango, a experiência foi o divisor de águas para que a carreira de proplayer se mostrasse um desafio que valia a pena. “Eu percebi ali que era o que eu realmente queria, porque tive uma energia muito boa em volta de mim”, contou o jogador em entrevista ao ESPN Esports Brasil. “Cada pessoa que eu matava no jogo fazia com que um monte de gente gritasse. A energia me deu uma sensação diferente, que me fez querer entrar de cabeça nisso.”
A criação de conteúdo no youtube e as streams
Familiarizado com os jogos desde criança, o jogador conta que iniciou a carreira de criador de conteúdo como distração. “Eu tava meio no tédio quando comecei. Queria distrair minha cabeça de alguns problemas na minha vida, na época. Acabei juntando os games com a criação de conteúdo [para o YouTube] e o pessoal acabou gostando, felizmente”, relata.
Figura recorrente no setor gamer do YouTube, Calango engatou no Fortnite ao mesmo tempo em que passou a se dedicar nas transmissões ao vivo, descritas por ele como um novo desafio. Surpreendendo positivamente o jogador pela fluidez e proximidade com o público, a atividade ganhou espaço em sua agenda e tornou-se, aos poucos, prioridade.
“Na live, parece que você passa horas fazendo aquilo e não vê o tempo passar, porque é uma interação muito boa. É jogar com um monte de amigos seus em volta, conversando, trocando ideia. Eu não sabia bem o que esperar quando comecei, mas quando cheguei, vi que era só algo muito mais legal do que o que eu estava fazendo antes”, confessa.
Querido por seu público, a relação de Calango com os seguidores mostra-se especial quando ele recusa a nomenclatura de fãs. “Não sei se é fã, não, é mais amigo, mesmo”, resmunga o streamer. “Não gosto de falar fã, porque sou só um idiota que joga videogame. Não sou nada de mais. Tento ter uma relação próxima com todo mundo, e a live que eu faço deixa a gente bem mais próximo, a ponto de eu saber o nome de todo mundo”, compartilha.
A investida no competitivo
Foi a possibilidade de contato com os fãs que levou o jogador ao evento que fez com que Calango tivesse vontade de competir. “[A showmatch na Go4Gaming] foi o que me deu a sensação de estar no competitivo e me destacar”, relata. “Foi o que me fez querer investir nisso.”
Calango cita estrelas do CS:GO brasileiro como referências para sua entrada no cenário profissional de esports. “Eu tinha vontade de competir desde que eu assistia o FalleN e o Cold fazendo clutch”, confessa. Familiarizado com o cenário do FPS, o jogador de Fortnite liga a admiração pelos atuais jogadores do MIBR à sua competitividade própria, característica comum de atletas profissionais. “Desde criança, eu sou competitivo em tudo na minha vida. Não seria diferente nos jogos”, afirma.
De acordo com o profissional, propostas para que ele representasse uma equipe foram feitas no início de sua trajetória no Fortnite, mas ele recusou por vontade de focar em sua carreira como streamer. “Depois do evento, ficou claro que eu queria o competitivo”, destaca. Calango então procurou organizações e anunciou publicamente que queria seguir como profissional — o que resultou em um convite quase imediato da W7M Gaming.
“Nem deu tempo de outras organizações me fazerem propostas”, conta. “A W7M já era uma referência pra mim no Fortnite, já que eu conhecia o BlackoutZ e o drakoNz. Treinar com os melhores era o meu foco, então quando eu recebi a proposta dos melhores, eu aceitei”, conta.
A seriedade na abordagem da nova carreira é claro quando Calango afirma que sua gameplay não está no nível do competitivo de Fortnite — mas que tem como maior foco treinar até alcançar os melhores em desempenho. “Eu deixei bem claro na hora que eles falaram comigo. Disse mais de duas vezes que eu não estava no nível, mas que tô disposto a treinar, porque tenho muita vontade.”
“Pedi para que eles falassem com meus atuais companheiros de equipe, o BlackoutZ, o drakoNz, Vero e o PF, sobre eles terem alguém no time que está em treinamento. Minha preocupação foi essa, treinar sem deixar minha equipe perder o ritmo. Eles investiram mesmo assim, então tô treinando pra chegar no nível”, completa.
A nova rotina como profissional
Estreante na vida de pro player, Calango mostra-se dedicado em entender a rotina de treinos e comprometido com a evolução. “Eu tô treinando sempre que posso, no meu tempo livre, tento também durante minha live. Tô bem focado, principalmente nesses primeiros dias, pra ver se consigo um progresso”, comenta.
Comprometido também com suas transmissões e com quem o acompanha, o streamer conta que não pretende deixar o público em segundo plano na nova trajetória. “Minhas streams são meu foco principal, não penso em deixar minha stream de lado tão cedo. É uma coisa que me faz feliz, algo que me faz bem e que eu acho que faço bem, então se eu puder treinar enquanto faço stream, pra mim tá mais do que perfeito. O pessoal gosta de ver meu progresso e de me ver jogar. Conciliar os dois não é tão difícil, porque eu posso fazer live enquanto eu treino”, afirma.
Na maioria dos outros esports, os treinos são fechados e os jogos entre times diferentes com propósito de evolução são extremamente sigilosos — o que coloca o Fortnite na contramão, pela frequência de treinos casualmente mostrados ao público em transmissões. De acordo com Calango, no entanto, isso é feito com o cuidado de não entregar aos adversários as táticas da equipe, e sim apenas o estilo de jogo.
“Querendo ou não, eles vão ver a gente jogando e vão ter uma noção de como a gente joga. Mas nossas táticas são trabalhadas por fora, já estamos montando algumas que vamos usar apenas em campeonato, pra que a gente traga pelo menos um título”, diz.
Calango ainda cita com carinho sua dupla, Nicolas “Nicks” Polonio, em seu processo de evolução e rotina de treinos. “Ele tá me ajudando muito a treinar”, conta. “O Nicks foi escolhido pra mim por ser o mais didático entre os jogadores, em nenhum momento ele se mostrou indisposto em me ajudar. Direto ele me chama pra jogar e a gente joga junto até fora de live, e ele sempre tenta me passar dicas de como melhorar.”
“Por ser menor de idade, ele não pode jogar campeonatos oficiais ainda, então se aparecer algo, ainda tem as outras duas duplas. O Nicks é bastante atencioso comigo e tem o mesmo senso de humor que eu. A gente combina bastante. Se eu estivesse com outra pessoa, não seria tão legal quanto está sendo”, assume o jogador.
A função de porta-voz do cenário de Fortnite
O influenciador reconhece que, em um cenário profissional emergente como o de Fortnite, seu papel excede o de jogador e ele torna-se, também, uma forte figura pública no desenvolvimento do meio. “Eu entrei também com o foco de divulgar o cenário no Brasil. Acho que é importante espalhar para despertar o interesse de novos jogadores e pra outras empresas verem e investirem no nosso cenário, que é bacana e merece ser expandidos. Eu não quero só jogar pelo Brasil, mas também expandir o cenário brasileiro”, afirma.
“Eu mesmo penso em organizar alguns campeonatos, tá nos meus projetos pra 2019”, conta Calango, dissertando sobre como sua entrada no cenário pode implicar na criação de novos campeonatos no Brasil. “Acho que [a imagem] pode trazer visibilidade de outras empresas pro cenário, empresas que já estavam de olho em mim podem acabar entrando no competitivo por isso. Quero trazer muita visibilidade para o cenário e conseguir me dar bem nele, principalmente.”
Sobre conciliar a vida de profissional com a de figura pública, o jogador conta que, no momento, o foco é em ser o melhor para seu time. “Nesse primeiro momento, tô treinando muito pra evoluir como pro player. Mas quando eu chegar no nível que eu quero, vou só fazer minha live e tentar conciliar os dois o mais equilibrado possível”, conta.
A escalação de Fortnite da W7M Gaming prossegue em preparação constante, mas ainda não tem previsão de quando representará sua equipe nos palcos competitivos. “Ainda estamos esperando oportunidades”, conta Calango. “[Quando surgir,] eu espero ter uma boa performance, mostrar progresso para o pessoal que confiou em mim. Vou dar meu melhor e fazer de tudo pra trazer o título para a W7M”, finaliza.
