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Apagando o fantasma da T Show: Duds conta a história de superação da Redemption

Igor "DudsTheBoy" Lima, atirador brasileiro no League of Legends. Riot Games

“E apesar de ter melhorado nesta série, a T Show termina o CBLoL com 14 derrotas em 14 jogos. Faz uma campanha que nunca antes havia acontecido, perderam todos os jogos”.

As palavras do narrador Toboco ao final da série entre Red Canids e T Show eram a sentença de todos os problemas que os levaram até ali. Sentado no andar de cima e atirador reserva para aquela partida, DudsTheBoy soltou o respiro final. Claro que estava chateado, mas depois de tudo o que havia acontecido com a equipe, o resultado dificilmente seria diferente naquela Etapa.

Difícil mesmo foi ver Krastyel e Céos, dois de seus melhores amigos e leais companheiros, entrarem cabisbaixos na sala da equipe. Logo eles, que superaram até mesmo fome e falta de dinheiro para estarem ali.

“Conheci o Dezenove (Técnico), Nyu (Topo), Ferchu (Caçador), Krastyel (Meio) e o Céos (Suporte) há muito tempo atrás, mas foi somente em 2016 que formamos a nossa primeira equipe juntos”, me conta Duds após uma longínqua primeira semana do CBLoL 2019. Impressionante como quanta coisa pode acontecer em um espaço de três anos.

“Não existia projeto algum, só éramos seis caras que gostavam muito uns dos outros. Tinha muita lealdade entre cada um ali dentro”, diz. Jogando com o nome de SND (Sob Nova Direção), os seis conseguiram conquistar uma vaga para a Primeira Etapa do Circuito Desafiante 2017, que seria a quinta disputa de DudsTheBoy do campeonato. Não tardou para o meme do “Rei do Circuitão” surgir – e assombrar – o atirador.

Para todos, era uma piada engraçada. Para Duds, o fazia lembrar que sua carreira até então estava estagnada. “O meme basicamente significava que jogadores chegavam, saiam e eu continuava lá no Desafiante”, explica.

O atirador carioca prometeu a si mesmo que naquela Etapa daria um basta na piada que o perseguia. “Tive muito na minha cabeça naquela época que o meu grande objetivo não era nem subir para o CBLoL, e sim provar pra todo mundo que eu conseguia sair do Desafiante”, lembra. Mas Duds também sabia que não conseguiria fazer aquilo atuando numa organização que os próprios jogadores tocavam.

Conhecidos de longa data de Duds, os donos da T Show ofereceram um salário básico para a equipe, além do principal que era uma gaming house em Curitiba. Já não existia possibilidade de almejar alto jogando de sua própria casa. Após conversarem, os jogadores decidiram procurar outras opções melhores, mas após algum tempo sem respostas e esbarrando em falsas promessas, inevitavelmente tiveram que voltar à T Show.

“E aí nos disseram que estavam com problemas financeiros e não conseguiriam mais nos pagar salários, somente a gaming house”, disse Duds. O atirador havia recebido propostas para jogar no LAS com salários maiores do que jamais ganharia no Desafiante brasileiro, mas, no final, “ou parava de jogar, ou ia pro LAS, ou aceitava um desafio que eu tinha certeza que seria complicado, mas que estaria com meus companheiros e que apagaria de vez a imagem de Rei do Circuitão da minha cabeça”.

Unidos, cada um com o seu próprio desafio pessoal, os seis integrantes voaram para Curitiba com sangue nos olhos. A rotina, dividida em três blocos de 3h era incessante, não paravam nem aos finais de semana e nem mesmo em feriados, como o Carnaval. Tudo para provarem para si mesmos que não perderiam o Circuitão.

Mas os empecilhos não tardaram a começar. “Tivemos muitos problemas. Às vezes a empregada não ia para a GH, e ficávamos sem comida. Aí o Krastyel, o Céos e os outros pediam dinheiro para as suas famílias, só para conseguirmos comprar algo para comer. Tinha vezes que a organização chegava e entregava na nossa mão uma nota de 50 reais para alimentar os seis, e para nós era o máximo! Era uma grana que a gente pensava ‘estouramos, vamos comprar algo diferente!’, corríamos para o supermercado e pegávamos hambúrgueres de fritar. Lembro também o dia em que o Krastyel conseguiu um dinheiro e comprou Coca-Cola pra todo mundo, e geral ria de felicidade”.

Vítimas da própria inocência, da má administração ou de fato de um cenário sem investimento?

Toda essa vivência mostrava diariamente o quanto aqueles seis amigos tinham força de vontade para fazer algo realmente mágico acontecer, porque não tinham motivação externa alguma. Tirando os seis que estavam ali naquela situação, mais ninguém entendia o que estavam passando, e também o quanto queriam que desse certo.

“Me dá agonia. Jogadores que estão no CBLoL há muito tempo não tem mais motivação ou um nível de habilidade bom, e ainda assim estão lá, só tentando sobreviver e terminar no meio de tabela pra conseguir jogar a Etapa seguinte. Some isso a organizações e times que continuam deixando o cara ali, ou que contratam pessoas nessa situação talvez só por marketing, ou enfim. E quando você tem quatro caras que estão comendo o jogo noite e dia e uma peça solta, as coisas não funcionam”.

E é aí que voltamos para a T Show.

O Desafiante foi muito disputado. “O mais difícil, provavelmente até esse de 2019, que promete muita coisa”, diz Duds. A equipe tropeçou na fase regular, que segundo o atirador sempre foi uma deficiência deles, mas cresceram durante a fase eliminatória.

“Tínhamos muitos problemas de pool. Todos sabiam jogar com poucos campeões, e estávamos tendo muitos problemas de draft com isso, então cada um pegou como um desafio pessoal melhorar nessa área. Ainda assim, existiam equipes com um macro melhor do que o nosso, como a PRG, então sabíamos que teríamos que ganhar desses caras no dedo, acabar com o jogo logo cedo, e foi isso que aconteceu na Semifinal contra a PRG e na final, contra a Genesis”.

Ansioso, o Atirador fala com paixão sobre cada uma das equipes, seus pontos fortes e fracos, cada detalhe dos jogos e das escolhas, e lembra quando, após a conquista do Desafiante e finalmente ter se livrado do meme de “Rei do Circuitão”, se emocionou na maior surpresa de todas.

“Um abraço do meu pai, que disse: ‘Agora eu entendi, meu filho. Seja feliz’”, lembra o atirador.

Duds desabou em lágrimas.

Contrários à profissão do filho nascida de sua paixão, os pais de Duds foram contra sua aposta em virar jogador profissional. Quando começou a receber salário, na Jayob em 2015, ficaram um pouco mais tranquilos, mas ainda contra a escolha do filho. “Eles não sabiam, por exemplo, que eu fiquei aquele tempo todo na T Show sem receber salário e juntando migalhas com aqueles cinco caras pra ter algo legal para colocarmos na mesa”, diz o atirador, num tom meio culpado e meio rindo.

EL DORADO, UM DESAFIO MAIOR DO QUE O ESPERADO

O que é chegar à elite nacional?

O quanto significava a superação de todos os problemas em meio à batalha pela vaga?

Quão forte você precisa ser para lutar contra tudo e todos?

Pelo que você realmente está disposto a passar?

A chegada no CBLoL parecia ser o encontro com a terra prometida. El Dorado.

Os melhores jogadores do país, algumas das organizações mais consagradas do cenário de eSports. Maiores investimentos e infraestrutura. Proximidade com a Riot e regras mais rígidas. Após tudo o que passaram no Desafiante, os seis jogadores da T Show acreditavam que o pior já havia passado.

Mas crer não é poder, e tudo começou com o próprio elenco. Pelas regras do CBLoL, precisariam inscrever no mínimo sete jogadores. No entanto, ainda sem dinheiro, a organização não conseguia acordos com jogadores e equipes para transferências.

“Do nada, um dia eles mandam as fotos das novas camisas da equipe para a gente e tinha um arquivo chamado ‘Danagorn.jpeg’”, conta Duds, com o mesmo rosto de incredulidade que imagino ter tido quase dois anos atrás. Eu ri, mas com respeito. Outro integrante, Theusma, foi contratado para dividir posição com Duds e motivá-lo a desempenhar bem.

Tudo parecia correr bem, até um dia antes das inscrições terminarem. Pegando todos de surpresa, Nyu foi banido por fazer elo job.

“Nunca ficamos bravos com ele porque ele teve muitos problemas pessoais, a única coisa que sentimos (e depois falamos pra ele) é que ele poderia ter se aberto conosco quando chegou nessa situação. Sempre tínhamos dado um jeito de fazer as coisas acontecerem, e talvez pudéssemos ter ajudado ele”, diz o atirador. Na verdade, aquilo só fez os garotos se aproximarem mais ainda.

Mas isso não diminuiu o problema: tinham 24h para arranjar um novo topo – e lembrem-se, sem dinheiro para contratar jogadores de outras equipes. “Literalmente abrimos o ranking da solo queue e começamos a convidar a galera a partir do mais alto”. Para o espanto deles, todos estavam recusando a proposta. Com salário? Jogando no CBLoL? Nada parecia ser o suficiente pra convencerem os jogadores da SoloQ. “Caras que até hoje eu vejo que estão tentando entrar no competitivo”, comenta Duds.

Até que Ferchu chegou com o nome do b4dd. “Ninguém conhecia ele, nem mesmo o Ferchu”, revela o atirador. Mas o tempo era curto e tinham que agir. Caso desse ruim, teriam que corrigir ao vivo.

Inscrições feitas, era a vez de se mudarem para a gaming house em São Paulo, onde precisavam estar para a disputa do CBLoL. “Apesar de termos problemas com o investimento deles, uma coisa em Curitiba eles nunca deixaram faltar: tudo pra gente jogar”, Duds deixa claro. “Tínhamos computadores melhores que os do CBLoL, os melhores teclados, mouses e headsets, etc. A gente enfrentava umas barras como time, e eles como organização, mas todos tentavam segurar as pontas do jeito que dava”.

Por isso, foi uma surpresa para os jogadores quando foram para a nova casa faltando uma semana para o começo da Segunda Etapa 2017, e ao chegar lá se deparam com falta de energia e computadores. Tudo estaria certo para o dia seguinte, segundo a organização.

Luz, ok.

Computadores, o…

Não está faltando alguns computadores?

“Foram roubados no caminho”, foi a resposta da organização. Com sete jogadores, a equipe ficou com três computadores e dois notebooks emprestados, que se tornavam inutilizáveis após duas partidas. “Além disso, alguns jogadores pegavam os computadores que funcionavam e ficavam vendo séries enquanto outros queriam jogar, mas alegavam que ‘chegaram antes’. Começamos a brigar”, diz Duds. Aquele sentimento individualista sempre esteve em todos, mas nunca antes ele havia ultrapassado o coletivo.

Diferentemente daquele período com problemas em Curitiba, os jogadores pareciam diferentes. Suas motivações estavam erradas. Suas mentalidades eram outras. O CBLoL mal havia começado e já se mostrava uma montanha muito mais alta para se escalar do que era previsto.

Para tentar mudar o panorama ao menos dentro de jogo, a equipe acertou uma rotina de treino com os reservas. Danagorn jogaria quando Duds jogasse, e Ferchu assumiria com Theusma quando fossem escolhidos. Mas não seria tão fácil assim, né?

“Quando chegou a hora pra inscrição da primeira semana, esqueceram de mandar e foi o padrão: eu com Ferchu, e não tínhamos treinado juntos. Na semana seguinte trocaram. Errado de novo. Theusma com Danagorn. Perdemos mais uma série”.

“Quê?!”, arregalei os olhos para Duds, que me contava com uma naturalidade ímpar. “Eu olhava ao meu redor e a única resposta que chegava na minha cabeça era que eles estavam fazendo aquilo de propósito. Encurralei o Dezenove (Técnico) uma hora e perguntei ‘O que é que você fazendo, cara?’, mas ninguém tinha uma resposta concreta”, lembra.

No topo, b4dd não poderia ser culpado de cair de paraquedas numa equipe com diversos problemas, mas foi a sua atitude que o afastou dos companheiros de equipe e piorou ainda mais sua performance.

“Ele se recusava a jogar com tanques, não contribuía para os exercícios de equipe e xingava geral durante os treinos, era uma coisa de maluco”, diz Duds balançando a cabeça negativamente. “Chegou a um nível que o Dezenove se recusou a nos treinar, e mesmo sendo quase que um pai para mim, Ferchu, Krastyel e Céos, ele saiu da equipe”.

Vendo todos os pilares que construíram aquela equipe ruindo um após o outro, Duds parou de treinar. A desesperança chegou até ele. Logo ele, que sempre atuou como o elo de ligação entre todos os outros integrantes da equipe, que era o primeiro a cobrar e ser cobrado... Mas estava cansado.

De tentar e ver as coisas dando errado.

De olhar ao seu redor e vendo todo sendo individualistas.

De lembrar que já haviam passado por diversos problemas, mas que dessa vez pareciam grandes demais.

Grandes demais porque estavam lutando separados, e não juntos.

Mas talvez, quando tudo parece no fundo do poço, as pessoas ao redor começam a notar aos poucos o tamanho do problema, e assim batalham para sair da letargia. Era a vez dos companheiros de Duds darem um passo a frente pelo seu amigo.

“Foram eles quem me convenceram a voltar a jogar, cerca de uma semana depois”, diz o atirador.

Os dias que se seguiram foram talvez os melhores de treino. Apostando em Kalista, que mal havia aparecido no competitivo ainda, a T Show bateu de frente com as outras equipes durante os treinos, ganhou partidas e se motivou para a série contra a Keyd, na terceira semana. Duas partidas extremamente acirradas entre uma das equipes favoritas ao título e outra que apenas havia sido atropelada até então.

“No segundo jogo, nossa composição era muito forte. Pegamos a Kalista e eu sabia que se focássemos nos objetivos, não importaria se o b4dd saísse 0/15 do topo. Destruímos dois Inibidores e fomos para o Dragão Ancião. Comecei a stackar as lanças nele e combinei com o Ferchu: você dá o Smite e na sequência eu puxo as lanças”, narra Duds.

Mas Ferchu saiu do Dragão para jogar um barril e tentar afastar alguém. Na sequência, foi atordoado pela Elise de Revolta e ficou com muita pouca vida. Céos reagiu rápido com seu Tahm Kench e resgatou o caçador, que, para recuperar um pouco de vida, utilizou o Golpear no Dragão Ancião.

“Tudo aconteceu em 5s. Ele usou o Smite, eu perdi a contagem e, assim que fui puxar as lanças, vi o Revolta flashando pela parede do covil”.

“Assim que acabou o jogo, o Ferchu veio me pedir desculpas pela jogada, mas durante muito tempo eu fiquei marcado por ela. Junto com o 0/14 no CBLoL, eu tinha perdido o Dragão Ancião que podia ter vencido o jogo para nós. Era pra ser o nosso respiro de alívio, mas foi só mais uma coisa que não deu certo”, desabafa Duds.

Tão rápido a melhor fase da equipe veio, tão logo, com um singelo Golpear do Incrível, ela escapou-lhes pelos dedos. Derrotados mesmo após tentarem ignorar tudo ao seu redor e voltarem a serem eles por eles mesmos, o caminho final parecia inevitável. A T Show até teve esperanças no CBLoL, já que a CNB também havia perdido todos os seus jogos, mas a ressonante vitória por 2-0 dos Blumers não deu trégua para o suplício dos Bodes. Tudo estava acabado.

Com o fim do CBLoL, b4dd, Ferchu e Theusma deixaram a equipe, enquanto Danagorn ficou para dar visibilidade para a marca da T Show. A equipe ainda teria mais um desafio pela frente, quase que um terceiro split, por assim dizer: a Superliga ABCDE 2017.

“Joguei com o Ranger em 2015 na BigGods, e ele tinha muita vontade de jogarmos juntos novamente. A equipe fluiu bem com ele, e com a volta do Nyu estávamos ganhando diversos jogos nos treinos, mas era extremamente desgastante”, diz Duds. Apesar de amigos fora do jogo, dentro ele e Ranger não batiam o bumbo no mesmo ritmo, e isso eventualmente culminou na saída do caçador para a KaBuM e a volta de Danagorn para o time titular.

E quando você tem quatro peças motivadas em uma equipe e outra que não está na mesma página, as coisas não funcionam. “Perdemos diversos jogos, e eu via até mesmo o Nyu, Krastyel e Céos mudando, perdendo a motivação. Pode parecer besta, mas combinávamos de almoçar juntos, e do nada cada um estava pedindo sua própria comida no iFood", lembra Duds.

Cansado, o atirador se retirou para um período emprestado à Team One, que aguardava a chegada de Lactea da Coreia do Sul no final de 2017. Foram três semanas de reflexão e energias recarregadas.

Quando voltou, algo já havia mudado. Zuão entrou na equipe e Danagorn foi colocado como técnico, e o time, da água pro vinho, começou a render. Propostas grandes chegaram para os jogadores, principalmente Nyu e Céos, mas todos abriram mão delas em prol de novamente acreditar que cada um deles tinha algo para provar individualmente, e que coletivamente esses desafios e toda a lealdade de dois anos juntos os unia.

“Claro que uma parte é medo do desconhecido, de trocar pessoas que você conhece e se dá bem por algo que talvez não dê certo e você fique estagnado. Mas no final do dia, esses caras realmente são a nossa a nossa segunda família. A lealdade existe, e não vamos arredar o pé um do outro”, diz o atirador.

Só faltava eles se livrarem do último fantasma. A própria T Show.

Com todo o histórico em mãos, eu ainda me perguntava como que Duds e os amigos ainda tinham um carinho grande pela T Show. “Mesmo com todas as dificuldades, eles tentavam fazer tudo pelo nosso bem e sabiam quando algo era realmente importante para nós”, resume Duds. Aos jogadores que receberam propostas exorbitantes, aumentos consideráveis de salário, e, para todos, o principal foi a mudança de gaming house, de volta para Curitiba.

“Viver na mesma GH do 0/14 fazia a memória saltar na frente dos nossos olhos a cada mínima discussão que tínhamos. Você via nos olhos de cada um o pânico de estar acontecendo tudo de novo. Os mesmos problemas do CBLoL, as mesmas brigas da Superliga”, diz Duds. Mesmo Zuão, que não havia estado nessas épocas, vivia toda a tensão criada por uma fase assombrosa na carreira dos jogadores. A iniciativa de tirá-los da “GH mal-assombrada” partiu da própria T Show.

Após uma Primeira Etapa 2018 consistente, a equipe acabou derrotada nas semifinais do Desafiante pelo Flamengo, uma equipe de nível assombroso para as outras da época. Ainda assim, o desempenho individual e coletivo fez com que dessem mais uma chance para aquele time.

A última chance.

Duds respira fundo, olhando seu copo de água com gás. “Sentamos eu, Nyu, Krastyel e Céos e decidimos que, depois de dois anos jogando juntos, aquela seria a nossa última tentativa. Se não voltássemos para o CBLoL na Segunda Etapa, estaria provado que não funcionávamos mais juntos, mesmo com sinergia e motivação. Não era possível que sempre algo daria errado para nós”, afirma.

E para tamanha decisão, teriam que tomar providências. Começaram a treinar cerca de dois meses antes de o campeonato começar, voltando à antiga fórmula de sucesso: três blocos, finais de semana e feriados. Almoçavam e jantavam League of Legends.

“Foi quando começamos a ter alguns problemas na GH”, diz Duds, ao qual respondi com um sincero “não pode ser”. Ele balançou a cabeça, mas fez um sinal de espere com as mãos. “Primeiro a alimentação, depois a internet cortada, o pessoal da organização parou de visitar... Do nada, eles chegam com dois caras e apresentam eles pra gente: ‘Esses são o ngelo e o Pedro, donos da Redemption, e vão contratar vocês pra equipe deles, numa parceria com a INTZ’”.

“Foi a melhor decisão das nossas vidas”, sorri Duds.

O prédio em São Paulo ainda estava em construção, então às vezes a equipe tinha que parar o treino por causa de fumaça, poeira e barulho. “Foi bem complicado no início, mas você olhava pra galera do time e sentia uma pegada parecida com aquela de quando rachávamos uma Coca-Cola. Pra gente, aquilo não era nada”, diz Duds. Pelo contrário, isso aliado com aquela Etapa sendo a última chance juntos os fizeram entender que não tinham como perder aquele Circuito Desafiante.

O 3-1 na Operation Kino seguido de um sonoro 3-0 na poderosa paiN Gaming cumpriram a palavra dos jogadores, deixando claro o que conseguem quando estão motivados.

“As coisas nunca foram fáceis para nós”, desabafa Duds. Todos os perrengues que passaram juntos até chegar à RDP, contando com toda a infraestrutura da gigante INTZ, fez com que tivessem apreço pela estrada que construíram até aqui. “Hoje temos qualquer coisa que precisamos. Estrutura, comissão técnica, psicólogos, comida”, ri o atirador.

O nome “Redemption”, do português Redenção, é um mero acaso poético do destino. Quando estes cinco jogadores se reúnem com um desafio claro coletivamente, apoiado por propósitos individuais, viram um monstro completamente diferente do frágil 0/14 de 2017. E o seu desafio hoje é mostrar para todos que a nova geração que vem para o CBLoL não é aquela que um meio de tabela está bom.

Que estar no meio ganhando seu salário já é o suficiente.

Que ir pro exterior ganhar experiência internacional está de bom tamanho.

Eles querem provar que hoje o League of Legends brasileiro é e será feito por jogadores que farão de tudo para ganhar, sejam da Redemption, da KaBuM ou da Team One, ou até mesmo um pouco dos veteranos que ainda conseguem manter a motivação e o nível lá no alto. Cada vez mais os jogadores que estão no CBLoL “só por estar” acabarão ficando sem espaço, e a região vai melhorar.

“Todos falam que quem vai pro exterior não quer ganhar, mas eles não veem que atualmente tem talvez três times compostos por cinco caras que realmente querem aquilo mais do que tudo. Sei que quando olho para o Nyu, Zuão, Krastyel e Céos, eu vejo jogadores que estão dispostos a dar a vida pra ganhar”, brada Duds.

Mais uma chance. Talvez a melhor chance. Para fazer com que todos os problemas que viveram fiquem de vez passado, e construírem juntos uma nova história.

Longe daquela pela qual ainda os lembram.

Ansiosos por conquistarem definitivamente a sua redenção.

E quando der certo, pode ter certeza que vai ter muito hambúrguer e Coca-Cola para comemorar.

Bruno “LeonButcher” Pereira é jornalista de eSports. Ex-narrador de League of Legends, acompanha o cenário competitivo brasileiro desde os seus primórdios, em 2011. Você pode acompanhar seus textos pelo Medium “Underground League”, e sua rotina pelo Twitter ou Facebook.