Opinião: A 'experiência social' de Ellie foi uma lástima para as mulheres no esports

Fãs na plateia da qualificatória da Copa do Mundo de Overwatch em Incheon, Coreia do Sul. Robert Paul/Blizzard Entertainment

Quando ouvi falar em ‘Ellie’ pela primeira vez, fiquei animado.

Após a estreia bem-sucedida da Shanghai Dragons com Kim "Geguri" Se-yeon na Overwatch League no ano passado, parecia haver uma mulher subindo no ranking amador da cena norte-americana de Overwatch. A equipe Second Wind, da Overwatch Contenders NA, anunciou a contratação de Ellie, que disparou para a quarta posição nos servidores de Overwatch na região.

Mas, pouco tempo depois, rumores começaram a questionar a validade da conta de Ellie. Como ela subiu tão rapidamente no ranking sem que ninguém percebesse? Por que, quando ela estava em jogos com streamers populares, sua voz saía frequentemente com atraso ou ela não falava nada?

No final, descobriu-se que um jogador do sexo masculino do servidor norte-americano conhecido como "Punisher" estava por trás da conta de Ellie. Não havia uma Ellie. Punisher, como relatado por Rod "Slasher" Breslau, também supostamente persuadiu várias mulheres a atuar como "Ellie" durante os jogos, na hora de se comunicar por voz, enquanto ele jogava e subia no ranking.

“No sábado, a Blizzard nos informou sobre o histórico da conta de Ellie e nos notificou que ela não era quem dizia ser, e descobriu que a conta da Ellie foi usada para propósitos que não apoiamos”, disse a Second Wind em um comunicado para a imprensa. “Pedimos desculpas à comunidade como um todo por não lidar melhor com essa situação quando deveríamos, e teremos como objetivo fazer melhor”.

Becca "Aspen" Rukavina anunciou em sua stream que o propósito da ideia de Punisher era ser uma espécie de "experimento social" e mostrar como a comunidade de e-sports e videogames como um todo reage a uma profissional do sexo feminino.

Surpresa: As mulheres, na verdade, têm muito mais dificuldade em entrar no esports do que os homens. Você não precisava de uma desculpa esfarrapada disfarçada de "experiência social que saiu fora de controle" para descobrir isso. Eu escrevo profissionalmente sobre esports há quase uma década, agora. Durante esse tempo, recebi uma quantidade razoável de ódio, mas nada comparado com o que algumas das minhas amigas que trabalham na indústria recebem.

Ameaças de morte. Publicação de informações pessoais. Piadas de estupro. O argumento de que todos enfrentam ódio na indústria já não funciona. As mulheres enfrentam ataques on-line muito mais duros e mais frequentes do que a maioria dos homens no esports apenas por jogar e serem mulheres. O "experimento" de Ellie não criou esses problemas, mas deu àqueles que irão assediar as próximas mulheres em ascensão nos espaços de esportes e jogos algo para usar como justificativa ou motivação.

A estreia da Geguri na Overwatch League no ano passado foi um dos melhores momentos da minha carreira cobrindo o esports. Havia mulheres de todas as idades conversando sobre ela no saguão da Blizzard Arena, falando sobre como era bom vê-la no palco jogando no mais alto nível profissional de Overwatch. Embora, em entrevistas, Geguri tenha ignorado responder o que significava para si mesma ser a primeira mulher a jogar profissionalmente na Overwatch League, para as pessoas na arquibancada, mulheres e homens, que em algum momento de suas vidas não se sentiram incluídas no que eles amam, Geguri era uma heroína.

Antes de Geguri, havia (e ainda há) Sasha "Scarlett" Hostyn, uma das melhores Zergs não-sul-coreanas da história de StarCraft II. Antes dela, havia Seo "ToSsWoman" Ji-Soo, que jogou StarCraft: Brood War profissionalmente na Coreia do Sul no time profissional STX Soul. Kelsy "SuperWomanKels" Medeiros em Smash Bros. 4. Lauren "Goddess" Williams em Rainbow 6 Siege. Há mulheres em todo o mundo jogando esports nos níveis mais altos todo fim de semana, mas essas conquistas são abafadas por coisas como o “experimento” de Ellie.

A única coisa que a idiotice da semana passada fez foi machucar a próxima mulher que conseguirá um teste com uma equipe da Overwatch ou fazer um nome para si mesma no ranking. A primeira coisa que você verá nas redes sociais e no Reddit serão acusações sobre a validade dos sucessos dessa mulher. Se ela é tímida e não fala muito, ela será acusada de ser a próxima Ellie. Se ela fala, as pessoas vão exigir para ver que são realmente as mãos dela jogando. Se ela provar isso, então a questão será se ela está usando algum tipo de hack ou aimbot para ajudá-la a jogar tão bem - uma acusação que Geguri está familiarizada.

Punisher, enquanto isso, pode deletar a página de mídia social de Ellie e voltar a sumir na multidão de jogadores de Overwatch. Eventualmente, o ódio por ele vai parar porque as regras são diferentes para ele. Ele vai conseguir um passe livre.

A próxima mulher que subir nos rankings, no entanto, não será capaz de voltar às sombras. Ela não pode simplesmente desistir. Ela não pode apenas dizer que está brincando. Ela será examinada e assediada, relacionada a algo que ela não fazia parte, forçada a enfrentar um ciclo interminável de solicitações para provar seu valor.