Um dos técnicos estrangeiros mais elogiados que passou pelo território brasileiro resolveu tocar em um assunto que está em voga no Brasil desde a eliminação da Kabum no Mundial de League of Legends: os problemas que acontecem nos bastidores do CBLoL.
Em entrevista para o eInsider, Peter Dun, ex-técnico da INTZ e que desde o início de 2018 está atuando na Splyce, revelou segredos de bastidores que nunca foram expostos, como a falta de comprometimento de alguns jogadores, de cancelamentos de treinamento em cima da hora e também o seu descontentamento com a organização da Red Canids.
De acordo com o técnico, o Brasil possui diversos problemas que colaboram com a estagnação do cenário de League of Legends, como o valor que paga para seus profissionais que chega ser “20 vezes o salário”. Segundo Peter, isso acontece “por várias razões, seja economia ou finanças, times brasileiros não pagam tão bem quanto outras regiões. Fiquei no Brasil por dois anos e por ficar no país abri mão de 90%-95% do que poderia receber na China ou em outras regiões”.
Porém, para o técnico, o ponto crítico para o Brasil não evoluir no cenário internacional está na falta de exposição de jogadores a cenários mais desenvolvidos, e cita como exemplo a chance que a Red Canids deixou passar de representar o Brasil na Intel Extreme Masters de Katowice. Segundo Peter, a recusa da Red Canids em cima da hora impediu que outros times se candidatassem à vaga deixada pela Matilha e “sabotou” o cenário brasileiro.
“A Red Canids foi convidada para o IEM depois da primeira etapa de 2017. Eles recusaram o convite, mas atrasaram a resposta até o último minuto possível para que outras equipes brasileiras não pudessem ser convidadas e usufruir da experiência internacional da qual abriu mão para focar no CBLoL. No final das contas, a Hong Kong Attitude ficou com a vaga que seria de um time brasileiro, e isto é um exemplo da Red Canids sabotando oportunidades para outros times da região”, disse o treinador ao eInsider.
Peter reforça a ideia de sabotagem dizendo que na época em que era treinador da INTZ e preparava seu time para a semifinais da segunda etapa de 2017, a Red Canids cancelou todos os treinos marcados de última hora, atrapalhando os Intrépidos em sua preparação. “Uma semana antes das semifinais, a Red voltou de seu bootcamp. Eles ouviram que eu estava no hospital por intoxicação alimentar e, duas horas antes do nosso primeiro treino, cancelaram todos os treinos marcados para aquela semana. Mais uma vez, uma tentativa voluntária de sabotar a performance de outro time, pois é claro que naquele ponto não poderíamos marcar treinos com outra equipe”, relembra o técnico.
Segundo Peter, esses momentos foram bastante frustrantes e marcaram a memória de seu período no Brasil. “Esta é minha lembrança eterna do Brasil. Eu não penso muito nas coisas boas, nos pontos positivos ou no sucesso com a INTZ em 2016. Eu me lembro de como decepcionei meu time e minha comissão na sétima temporada para tentar ajudar a região a evoluir como um todo e em como outro time não estava focado em ajudar a região, mas apenas eles mesmos. Foi uma crença tola de que organizações ajudariam umas às outras do jeito que as ajudamos, ao invés de sabotar os adversários”, afirma.
Peter conta que no período que ficou no Brasil, seu intuito era fortalecer o cenário brasileiro, e inclusive diz que ajudou jogadores de outras equipes para que essa meta fosse alcançada. “Parte do meu acordo com a INTZ me permitia ajudar outros jogadores na região durante meu tempo livre, até três vezes por semana. Mesmo que trabalhassem para outras equipes, mesmo que fossem novatos. A ideia era que isto ajudaria a região como um todo, e no final ajudaria a própria INTZ a melhorar mais rápido, apesar de que isso tudo poderia levar a uma desvantagem estratégica em partidas do CBLoL”, explica.
O técnico também comenta sobre a mentalidade de jogadores, atrasos, cancelamentos de treinos e outros fatores que prejudicam o cenário brasileiro. Leia a entrevista na íntegra clicando aqui.
O LADO DA MATILHA
Após a publicação da entrevista, Felippe Corradini, CEO da Red Canids publicou nas redes sociais uma resposta sobre os assuntos abordados pelo técnico. A primeira foi que os cancelamentos de treinos foram uma decisão da “comissão técnica e jogadores”.
Sobre a recusa de participar da IEM, Corradini disse que a opção de não ir ao torneio foi decisão dos jogadores e não da organização. “A opção de não ir foi única e exclusiva dos jogadores. Lembro até hoje de ter recebido o email com as condições de participar e sair correndo pra GH com um puta sorriso no rosto. Chegando lá, optaram por focar no CBLoL e ficar no Brasil treinando com os times aqui, pois não queriam perder o estilo/ritmo de jogo que tínhamos”.
O CEO relembra também que outros impedimentos implicaram na recusa do convite, como a falta de documentos e implicações decorrentes de viagens internacionais como o “jetlag”.
Corradini disse ainda que a resposta foi dada em tempo hábil e que mesmo assim não era uma vaga para o Brasil. “Tínhamos 12 horas para dar a resposta, respondemos a organização 4 horas após o convite e, mesmo assim, a vaga do campeonato ainda não era nossa, pois eles estavam esperando um time [dos EUA] decidir se iria ou não, para aí sim de fato, fazer o convite formal para nós”.
Segundo Corradini, a decisão de não participar da IEM valeu a pena. “No final, a opção de não irmos se pagou, focamos no campeonato que era mais importante e fomos campeões dois meses depois”.
Procurada pelo ESPN Esports Brasil, a Red Canids respondeu que não voltaria a se pronunciar sobre o assunto.
A TRÉPLICA DE PETER
Após a publicação da resposta de Felippe Corradini, Peter voltou a se posicionar e clarificou que as críticas feitas foram limitadas “a coisas que eu experienciei pessoalmente, e isso se relacionou diretamente a como eu pessoalmente acho que o Brasil precisa se desenvolver a longo prazo para ter sucesso”.
Peter se direciona à Corradini e diz que não tem nenhum problema quanto à atuação da Red Canids concentrar seus esforços para vencer o CBLoL, porém o “problema é que a RC sem sombra de dúvidas precisou de muita ajuda de muitas equipes em 2017 (em particular a INTZ) e (possivelmente) agiu de má fé em troca. Nenhuma dessas ajudas foi até mesmo reconhecida publicamente até hoje, por você ou pela Red Canids”.
O técnico lista contrapontos a todas as respostas de Corradini, como o fato de não parecer plausível o fato de que os jogadores tenham cancelado diversos treinos com a INTZ e acusa a Matilha de propor um boicote contra a INTZ em 2017. “Embora eu não queira desenterrar o passado, direi que a Red Canids (por causa da questão do Sacyr) foi aquela que propôs um boicote contra a INTZ em 2017 e pediu que todas as outras equipes não treinassem com a gente”. O técnico diz que, mesmo com o boicote, encontrou parceiros de treinos.
Sobre a IEM, Peter diz ainda que responsabiliza a Red Canids por não ter tentado manter o convite a um time brasileiro. “Nenhuma tentativa foi feita para manter este convite para o Brasil. Naquela época, a paiN estava em segundo na tabela (empatada em pontos), e a INTZ em terceiro (mas defendendo o título). Não há dúvida de que uma equipe brasileira indo para o IEM teria sido uma ótima exposição para a região. Se a Red Canids não quis ir, por que não recomendou outra equipe?”.
A resposta na íntegra, em inglês, pode ser lida aqui.
O ESPN Esports Brasil tentou entrar em contato com Peter Dun, mas, até o momento de publicação da matéria, não obteve resposta.
