O dia estava nebuloso em Guangzhou, na China, durante as quartas de final do Mundial de League of Legends de 2017. No palco, naquele dia, estavam o time favorito, a Team WE - na esperança de deixar seu país orgulhoso ao chegar às semifinais - e seu oponente, a Cloud9, o último representante norte-americano no torneio e uma equipe que mal conseguiu sair da fase de grupos.
Destacando-me na multidão com meus quase 2 metros de altura, fui questionado por um grupo de adolescentes chineses sentados na minha frente de onde eu era. Quando respondi “Los Angeles”, eles perguntaram o que eu fazia ali e para quem eu estava torcendo. Depois de dizer que era jornalista e tinha uma afinidade com a C9, uma equipe que eu cobrira semanalmente por dois anos até então, os adolescentes sorriram em deboche, alguns até riram.
Eles não eram mal-intencionados, apenas realistas. Para eles, o League of Legends da América do Norte era uma piada. Mais tarde, soube que alguns deles eram fãs de elencos europeus como Fnatic e G2 Esports e equipes sul-coreanas como a SK Telecom T1 - até mesmo a Flash Wolves, a esperança solitária de Taiwan, recebeu algum crédito. A América do Norte, entretanto? Ela era uma região de jogadores e memes engraçados que nunca conquistaram nada em eventos internacionais.
Quando os jogos começaram, um canto zombeteiro de "T-S-M!" explodiu em todos os cantos da arena lotada. Embora a C9 tenha jogado bem naquele dia e levado os favoritos chineses ao limite, indo para a quinta partida, o resultado foi o mesmo de sempre.
Eles foram eliminados na primeira rodada da fase eliminatória; e embora divertidos, não eram uma ameaça para os melhores times da competição.
Um ano depois, desta vez na Coreia do Sul, a C9 mais uma vez era a última representante viva da América do Norte nas quartas de final do Mundial. Novamente, ela estava encarando um favorito da cidade-sede, desta vez na forma da Afreeca Freecs, o último time vivo da Coreia do Sul, a região campeã dos últimos cinco anos. De fato, mesmo em seu pior ano, na Season 2, a Coreia do Sul ainda conseguiu mandar um time para a final, e a vitória da Taipei Assassins sobre a Azubu Frost até hoje é vista como uma das maiores surpresas da história do competitivo.
Ao contrário do ano passado, no entanto, a C9 não teve sua vitória negada. Foram necessários apenas três jogos para a equipe eliminar o último time sul-coreano do torneio, e não havia dúvida de qual equipe havia sido a melhor no palco internacional.
Em sua quinta quarta de final em seis anos, finalmente, a C9 - e a América do Norte por consequência - chegou às semifinais. Isso marca a primeira vez que a região chegou ao Top 4 de um Mundial de League of Legends desde a primeira edição em 2011, quando havia apenas oito equipes convidadas, sendo três da América do Norte, e times da China e Coreia do Sul não convidados.
Pela primeira vez, talvez da história, estou orgulhoso de cobrir a liga norte-americana de League of Legends. Isso significa que a América do Norte é melhor que a Coreia do Sul? Claro que não. A C9 sempre foi um ponto atípico da região no Mundial, e isso não mudou este ano, embora a equipe tenha ido mais longe do que nunca.
O que essa conquista faz é mostrar um plano que outras equipes norte-americanas podem trabalhar nos próximos meses, quando a temporada de 2019 começar. Em uma offseason na qual as recém-batizadas franquias norte-americanas abriram a carteira para gastar dinheiro em agentes livres, a C9, por muitos relatos, “perdeu” a entressafra - suas maiores contratações sendo Eric “Licorice” Ritchie, um jogador considerado mais fraco, e Dennis “Svenskeren” Johnsen, o ex-caçador da Team SoloMid que foi o bode expiatório para o principal time norte-americano ter falhado no Mundial do ano passado.
Em comparação com outras equipes, a C9 parecia uma piada. Por que Svenskeren? O que Licorice poderia fazer que Jung “Impact” Eon-yeong não conseguia? Por que o dono, Jack Etienne, não se importava com a equipe? Onde diabos estava a contratação do caçador sul-coreano Han “Peanut” Wang-ho para reforçar o time titular?
Durante anos, a América do Norte foi a região onde, se a infraestrutura, o treinamento e a química da equipe não estavam funcionando, a correção mais rápida era um cheque em branco para um jogador de alto nível. Ela tornou-se a região de contratações chamativas, e até mesmo a mais dramática.
A razão pela qual a América do Norte se tornou uma piada foi porque é impossível ignorá-la se você é de outra região. A sede da Riot Games, criadora do jogo, fica localizada do outro lado da rua do estúdio da liga norte-americana. Muito da produção que os fãs internacionais veem é feita pela equipe de transmissão norte-americana. Os vídeos promocionais em Busan para as quartas de final tiveram legendas em inglês para os jogadores coreanos (e nós estávamos na Coreia do Sul).
A Team SoloMid, ganhando ou perdendo, foi o time mais comentada de todos do competitivo ao lado da SK Telecom T1, que esteve em quatro finais mundiais e tem três títulos. A TSM nem sequer conseguiu sair da fase de grupos durante esse mesmo período, enquanto a SKT T1 esteve acumulando troféus.
Quem não tiraria sarro de uma região que recebe mais atenção do que seu irmão europeu, mais bem sucedido e talentoso, ou que outras regiões do mundo? Na verdade, a América do Norte deveria ser ridicularizada. Ela gasta muito dinheiro. Ela contrata jogadores de regiões melhores. E, na maioria das vezes, deixa de capitalizar com todas as suas vantagens, rotineiramente perdendo para regiões menores e sendo superada por equipes com uma fração de sua folha de pagamento.
Antes da ascensão da C9 no Mundial, 2018 foi um ano terrível para a região. A Team Liquid, campeã doméstica consecutiva, não conseguiu sair da fase de grupos do Mid-Season Invitational e do Mundial. A 100 Thieves, a segunda representante da região, ficou queimada por como gerenciou a escalação da equipe e pela comunicação com o público. A SoloMid gastou muito dinheiro na offseason para construir um time dos sonhos e nem sequer chegou na final doméstica. A Counter Logic Gaming ‘flopou’. A Golden Guardians não chegou perto do Golden Warriors. E a lista continua com fracassos e falhas em um ano que deveria ter virado a página do livro da LCS NA, da piada do passado para um futuro brilhante com franquias implementadas.
Mas por trás da sujeira, há esperança.
A 100 Thieves, apesar de todas as suas decisões inexplicáveis, viu uma de suas escolhas ousadas, o novato Andy “AnDa” Hoang, ter um desempenho incrível no Mundial, inspirando confiança no jovem para o próximo ano.
O plano de jogo da C9 de integrar jovens talentos caseiros funcionou com Licorice atuando como um talento de nível mundial no maior palco possível, e seu companheiro de equipe, Tristan “Zeyzal” Stidam, superou um mau começo no evento para se transformar em uma das maiores surpresas da competição. O outro novato da C9, o caçador Robert “Blaber” Huang, apesar de subir e cair em termos de eficácia, foi uma mudança muito necessária na temporada regular, quando a formação do time precisava de um chacoalho.
Juan “JayJ” Guibert, da FlyQuest, parece estar a caminho de se tornar um suporte-‘estrela’ na região. Tanner “Damonte” Damonte, da Echo Fox, é a melhor perspectiva americana desde que Eugene “Pobelter” Park tinha 12 anos de idade e era muito jovem para participar de competições oficiais.
Há talentos enterrados sob o drama, os memes, as transmissões e os clipes de destaque da América do Norte. Eu serei honesto - pode não haver tanto talento na região quanto na Europa, na China ou mesmo em uma região de menor tamanho como a Coreia do Sul, mas dizer que não há nenhum talento que aparece do cenário amador é estúpido. Trezentos e sessenta e cinco dias atrás, quando eu estava em Guangzhou, a maior parte do mundo nem sabia que havia um jogador chamado Licorice fazendo seu caminho através do ‘circuito subterrâneo’.
Com o sistema de academias na América do Norte em pleno crescimento, cada franquia tem escalações de 10 jogadores e uma maior oportunidade de testar as line-ups - ei!, a C9 colocou seus craques no banco nos primeiros jogos do Summer Split. Assim, os dias de escalações estagnadas que dependem de estrelas cansadas para tentar permanecer no topo devem ter acabado.
A C9 provou que é possível ganhar jogando do seu jeito com seus próprios jogadores sem precisar pagar a Lee “Faker” Sang-hyeok um contrato de sete dígitos para dar esperança aos fãs.
Se a C9 tivesse perdido para a Afreeca em uma série de cinco jogos, as pessoas teriam elogiado o time por terem feito uma “boa luta” e concedido aos norte-americanos uma vitória moral. Estou farto de vitórias morais depois de Guangzhou, e a C9 também.
Talvez seja hora de começar a acreditar no futuro da América do Norte.
“Eu acho que os torcedores norte-americanos podem continuar acreditando na C9”, Svenskeren me disse após o atropelo sobre a Afreeca. “Mas talvez não tanto no restante da região”.
Bem, eu pelo menos acredito na C9. Isso é um começo.
