Perfil: Como liko "furou as bolhas" da comunidade sul-americana de Overwatch

liko, da Seleção Brasileira de Overwatch, durante a Copa do Mundo 2018. Robert Paul/Blizzard

A rotina de Felipe Lebrão é bem repetitiva. Todos os dias, às 6h, ele pega o ônibus para ir à faculdade e pensa: “Caralho, será que vale a pena?”.

Ele não está pensando no seu curso superior, mas sim no jogo que o faz ter só cinco horas de sono toda noite: Overwatch. Qualquer um relataria que essa rotina não é nada saudável e Felipe deveria abandonar o jogo - mas isso não é tão simples quando você é liko, o melhor jogador da América do Sul.

“Estou dando um tiro no escuro, mas é na esperança de alguém lá fora ver isso. Nosso salário na BGH é o melhor do cenário e mesmo assim não é algo que você consiga viver só dele”, contou liko, em entrevista ao ESPN Esports Brasil.

Fazer carreira nos esports não é fácil, mas a esperança não morre. Enquanto franquias da Overwatch League - a NBA do esporte eletrônico -, tem preços especulados em mais de 200 milhões de reais, a comunidade latina sofre.

Aqui, na Overwatch Contenders sul-americana, uma bela fatia dos jogadores não recebe salário ou ganha uma quantia inferior a 500 reais. Na OWL, o salário mínimo é de 50 mil dólares anuais - mais de 200 mil reais em conversão livre.

É por isso que liko está dando um tiro no escuro. Sua mira é a que mais abateu adversários na Copa do Mundo de Overwatch 2018 e ele confia nela para ser o primeiro, ou o verdadeiro, representante latino na Overwatch League.

COMO UM BANDO DE AMIGOS VIROU POTÊNCIA NO OVERWATCH

Quando notícias sobre Overwatch começaram a pipocar em 2015, o jogo não chamou a atenção de liko. Ele tinha 18 anos e havia acabado de se mudar para os Estados Unidos, onde tinha ingressado na faculdade.

Além dos estudos, liko tinha outra paixão: Team Fortress 2. Ele já havia jogado na Liga Brasileira e, enquanto nos Estados Unidos, “gostava de competir” nas ligas da ESEA.

“Meu time ficou 19-1 na Liga Intermediária da ESEA e, no dia da final, eu não consegui jogar. A internet da faculdade estava com problemas e fiquei com ping 600”, lembra.

Essa seria uma das poucas decepções de liko em sua carreira competitiva. Na vida “real”, porém, ele teve uma das grandes. Ciente de que o manter nos Estados Unidos seria um sacrifício para seus pais, ele desistiu do sonho e retornou ao Brasil.

Aqui, ele voltou a se reunir virtualmente com seus companheiros de TF2. Juntos, eles acompanhavam os testes de Overwatch, mas aquilo não soltava os olhos.

“Não planejava comprar e nem tentei pegar uma chave do beta. Um amigo me deu uma depois e eu brinquei por um final de semana, achei legal, mas ainda fiquei com pé atrás. Eu era focado no TF2 mesmo”, lembrou.

Quando os primeiros campeonatos começaram a surgir, ele viu vários nomes da sua comunidade migrando e decidiu dar mais uma chance ao FPS da Blizzard. Então ele convocou sua trupe de amigos: Renan “alemao” Moretto, Eduardo “dudu” Macedo, Vitor “Krepsker” Krepsky, Mateus “neil” Kröber e Gabriel “wanka” Vilhena.

“É até bizarro”, lembra. “Eu acredito um pouco no destino. Querendo ou não, encaixou muito certo. Reunimos o time, cada um foi falando o que ia jogar e sobrou o suporte para o alemao, e hoje ele é o melhor da função na América Latina. É, no mínimo, peculiar”.

APRENDIZADO NA BLACK DRAGONS

Sem organização e usando a tag based, a equipe de liko chamou a atenção durante a pré-temporada da Liga Brasileira de Overwatch - um dos primeiros torneios competitivos do jogo no país, ainda em 2016.

O bom desempenho e a boa relação do quinteto com Filipe “nosfa” Barbosa renderam um convite para a Black Dragons e-Sports, uma das organizações mais tradicionais do país.

“Eu lembro bem até hoje. Conversamos e falamos que precisávamos levar a sério, fazer uma rotina de treino, se comprometer um pouco mais. O papo mais marcante foi que, apesar da amizade, nós teríamos que trocar de jogador caso alguém não estivesse rendendo. A BD foi um marco, estabelecemos regras de base e, por conta delas, estamos juntos até hoje”, contou liko.

“A gente não tirava muita grana, tinha um salário, mas era um valor simbólico. O Krepsker tinha que cuidar da casa dele, ele fazia até uns trabalhos em paralelo”, lembrou.

A falta de estabilidade financeira e a insegurança da carreira no Overwatch fez com que os jogadores não abrissem mão do trabalho e dos estudos na época. Até hoje, alguns deles ainda tem seus compromissos em conjunto com a carreira.

Mesmo sem conseguir viver do jogo, o período na BD foi engrandecedor para o sexteto, dentro e fora do servidor. Além de dominar o começo do cenário nacional, faturando a LBOW e praticamente todos os outros torneios de 2016, eles aprenderam o que é ser profissional.

“Eles foram um marco na nossa carreira. A BD nos ensinou tudo. Pegaram um time cru em todos os aspectos, a gente não tinha nem redes sociais”, lembra liko.

O CENTRO DAS ATENÇÕES

Mais experiente e grato, liko deixou a BD em março de 2017 - se despedindo com o título do Old Spice Tournament. Organizações de olho na equipe, que já tinha ganhado o reforço de Rodrigo "kolero" Kröber, não faltaram, mas as propostas não agradavam.

“A gente chegou a ter propostas de grandes, como paiN e Keyd, mas era ‘aquela’ proposta. Jogar sem salário e ganhar com a imagem, mas isso nunca foi nossa prioridade”, contou liko.

A oferta que mais seduziu os jogadores foi a da até então recém-fundada Brasil Gaming House.

“O que atraiu a gente na BGH foi o fato deles deixarem claro que seríamos o centro das atenções, o foco principal. Acho que isso disse muito do nosso trabalho, o que nós esforçamos para ser relevantes. Não é fácil. Muitas pessoas ficam a vida inteira tentando e não conseguem atenção do público e da mídia”, afirmou.

Poucos dias depois da chegada, krespker teve que largar o bando de amigos para se dedicar ao trabalho formal e deu espaço para Murillo "murizzz" Tuchtenhagen. O time continuou dominando nos servidores, mas foi um fato triste que colocou a BGH nas manchetes.

A POLÊMICA E O ESTOURO DAS BOLHAS

Em maio de 2017, liko virou notícia na maioria dos portais de esports e games do país. Durante uma partida online, o DPS da BGH ofendeu o chileno debout com xingamentos racistas.

Instantaneamente, liko virou alvo da revolta de toda a comunidade de Overwatch e do esporte eletrônico em geral. Foi punido pela Blizzard e multado pela BGH, se desculpou, mas luta até hoje para apagar esse triste capítulo de sua história.

“No momento que estourou, eu já não conseguia sentir nada além de vergonha”, contou. “Sempre fui um cara privilegiado e tive da melhor educação. Eu não sou assim, não sei o que passou comigo. Lembro que nem falei para os meus pais, pois eu não queria que eles tivessem aquela imagem de mim”, continuou o jogador.

“Eu não culpo ninguém pelo que vem depois, pois as pessoas na internet tem coragem de colocar as coisas para fora. O hate foi inacreditável. Tudo o que eu fiz, as pessoas fizeram comigo. Eu pensava em parar, vi minha carreira ir por água abaixo, deitava na cama e me sentia mal”, lembrou.

O episódio, porém, mudou a forma com que liko vê o mundo. Mudou sua vida e também mudou a comunidade de Overwatch.

“Comecei a focar muito mais em ser uma pessoa positiva e agregar ao invés de tentar causar polêmica. O episódio me mudou completamente, mudou minha filosofia. Hoje em dia eu fico muito feliz de ver o público me protegendo e entendendo que eu não sou aquela pessoa”, contou.

Da mesma maneira que liko viu o destino agir ao transformar seu grupo de amigos no melhor time da região, ele também encara seu episódio de racismo como uma sina.

Uma sina que “furou as bolhas” da comunidade de Overwatch.

“Era para acontecer. A gente fala as coisas na internet sem pensar nas consequências e eu servi de exemplo. No começo, o cenário vivia em bolhas. A Innova não falava com a BGH, aí tinha o time que era neutro, tinha os jogadores que não se curtiam”, lembrou.

“Hoje em dia o cenário é mais unido. Não só por causa do que aconteceu comigo, mas acho que aquilo fez parte. Todo o pessoal do Overwatch não tinha essa noção de como os tempos estão mudando, então isso influenciou sim o cenário como um todo. Se tornou algo mais amigável e unido. Vimos que ficar todos de birra e briguinha não daria certo”, continuou.

Se vendo como uma espécie de “mártir” para a união do cenário, liko compreende que o episódio foi necessário para tal objetivo, mas não aceitaria passar por isso novamente.

“Pensando no meu estado psicológico depois [do acontecido], eu não sei se [aceitaria] passar por isso novamente. Preferia ter aprendido de algum outro jeito, preferia não ter cometido esse erro”, completou.

PRIMEIRA EXPERIÊNCIA INTERNACIONAL

Pouco tempo depois do ocorrido, liko foi escolhido como um dos integrantes da Seleção Brasileira para disputa da primeira fase da Copa do Mundo de Overwatch de 2017 - a segunda edição do torneio -, nos Estados Unidos.

A viagem trouxe sentimentos mistos para o DPS. “Como o acontecido estava bem fresco, o apoio para a Seleção foi dividido. Acabei tirando o apoio de todo mundo, o que eu me culpo completamente. Fico triste que tenha acontecido, pois o pessoal é do bem e não merecia”, lembrou.

“Por outro lado, foi incrível. Você treinar uma semana lá fora é equivalente a seis meses aqui. Você acaba pegando muito do jeito que eles jogam, aplica no seu próprio jogo. Aqui a gente erra e ganha na mira, mas isso não acontece lá, não tem essa margem de erro”, contou.

Apesar disso, liko acredita que o modo de pensar daquele time não era o mais adequado: “Não sabíamos o que era perder e achamos que íamos ‘dar pau’ em todo mundo. Chegamos lá e tomamos sapeco do Taiwan e dos Estados Unidos. Também perdemos um mapa para um time bem inferior, que era o da Nova Zelândia”.

NO TOPO DA REGIÃO

De volta ao Brasil, liko e seus companheiros viram que a concorrência havia crescido. Os argentinos da Team Karma começaram a incomodar no segundo semestre de 2017 e o time começou a perder seus primeiros campeonatos.

“Nunca havíamos perdidos nenhum campeonato antes e chegamos a perder três para eles. Eles foram o time que nos fez perceber que a gente estava perdendo a pegada”, contou.

De volta ao “grind”, a BGH recebeu a notícia da criação da Overwatch Contenders - uma divisão oficial da Blizzard para os “deixados de lado” pela Overwatch League. A animação logo foi tomada pela desconfiança.

“Eles meio que oficializaram que a gente existia e todos ficaram loucos e muito felizes com isso. Depois que vimos as condições, fomos ficando com o pé atrás. Nossa premiação é um quarto da lá de fora e isso é bem frustrante. Mas, não podemos ficar reclamando e temos de abraçar”, contou.

Depois de superar alguns problemas, como os horários das partidas, a Contenders sul-americana finalmente, estreou em março de 2018. Como não poderia deixar de ser, a BGH seguiu dominante e venceu as duas edições disputadas até aqui.

Para a primeira edição, o time adicionou dois novos reforços: o flex Maurício "honorato" Honorato e o treinador Jhonathan “TMattei” Mattei.

“Foi muito satisfatório. Querendo ou não, se manter no topo por tanto tempo preocupa a gente. Até hoje nós vemos a primeira temporada como algo que a gente não deveria ter ganhado, houveram algumas mudanças. A gente não entrou na final achando que ia ganhar. Jogamos para vencer, mas achando que ia perder. Foi uma surpresa bem agradável [ter vencido]”, lembrou.

Na segunda, as coisas foram diferentes. Depois de um breve período na paiN Gaming, kolero retornou a BGH.

“Voltamos para a escalação original com o kolero no time. O dehzinho pegou uma pedreira e aguentou, mas com o kolero as coisas acontecem mais naturalmente. São mais fluídas e parece que o time funciona mais”, afirmou liko.

“A segunda temporada foi mais tranquila, mantivemos nosso ritmo de treino, vimos que a Karma [atual Isurus Gaming] encostou mais uma vez e treinamos até mais. Assistimos os vods para evoluir. Acho que nosso domínio reflete muito o nosso esforço”, contou.

UMA NOVA COPA DO MUNDO

Antes da terceira e última etapa da Contender sul-americana, liko teve mais uma chance de disputar a primeira fase da Copa do Mundo nos EUA. Dessa vez, porém, as polêmicas foram superadas por uma performance surpreendente do jogador e da Seleção Brasileira.

Assim como no ano passado, a seleção foi formada por ele e seus companheiros de BGH - com exceção de kolero, que decidiu não viajar por motivos pessoais. Completando a delegação estavam Marcello "Wetter" Floriani e Pedro "ole" Orlandini, da Black Dragons.

“A principal diferença foi que fomos com a cabeça no lugar. Não ficamos de peito estufado achando que íamos vencer todos, fomos com uma mente diferente, de que se ganha como time e se perde como time”, afirmou liko.

Em um grupo extremamente complicado, com Canadá e Estados Unidos, o Brasil conseguiu terminar na terceira colocação - vencendo Áustria, Noruega e Suíça. A colocação não foi suficiente para avançar à fase final.

“Não esperávamos muito por conta do grupo. EUA e Canadá tem seis jogadores de OWL cada. [A expectativa baixa] ajudou bastante”, destacou.

“Ficamos com plano de ficar em terceiro e conseguimos. Queríamos muito ganhar da Noruega e conseguimos. Tiramos um mapa dos Estados Unidos pois jogamos no dane-se, e acabou dando certo”, contou.

Para liko, o resultado foi ainda melhor. O jogador foi o líder de eliminações na seletiva e tem chamado a atenção das equipes internacionais.

O TIRO

O tiro no escuro dado por liko, e questionado todas as manhãs, pode se pagar nas próximas semanas. O jogador revelou que está participando de três testes para equipes norte-americanas - mas não especificou se elas são da Overwatch League ou da Contenders da região.

Ainda sob contrato com a BGH, ele foi liberado para “testar o mercado” internacional e torce para que consiga, finalmente, viver custeado pelo jogo.

“Não me contento em jogar só aqui no Brasil. Meu objetivo é jogar lá fora e estou trabalhando para isso. Espero que seja mais cedo do que tarde, pois acho que o gás da galera já está acabando”, afirmou.

“Apesar de sermos os primeiros em tudo, isso ainda não é o suficiente para se sustentar no Brasil. Se as coisas não melhorarem muito [aqui no Brasil], já combinamos que vamos ter uma rotina mais leve, reduzida, pois precisamos pensar no futuro. Não podemos bater numa parede e esperar uma resposta diferente”, continuou.

“Se essa boa fase não for o suficiente para conseguir mandar pelo menos um jogador lá para fora, o pessoal vai começar a dar uma desanimada. Estou me esforçando para que isso não aconteça”, contou.

“Mandar um jogador lá para fora” é o desejo da comunidade sul-americana de Overwatch. Esse pensamento pode causar um pouco de estranheza, já que o Brasil já tem um “representante” na liga - João Pedro "Hydration" Goes Telles, DPS do Los Angeles Gladiators.

“Ele é muito distante”, explicou liko. “A comunidade casual meio que queria ter um representante lá e ele acabou pagando o pato. Ele é brasileiro, nasceu aqui, mas acho que ele nem fala português muito bem”.

“O fato dele ter começado lá fora e jogado a vida inteira lá traz uma realidade extremamente diferente. Para o pessoal competitivo ele não representa muito, mas, no escopo casual, o pessoal se sente representado sim”, continuou.

Independente de Hydration, liko quer acertar seu tiro. Sua bala vem carregada de experiência de quem errou feio, mas que mudou o cenário sul-americano de Overwatch para sempre.