Opinião: Por que parece que tudo está dando errado para a Riot em 2018?

Ainda estamos no início do segundo semestre e a Riot Games está torcendo para que o ano de 2018 acabe logo. Mudanças nas runas, meta mudando a cada 15 dias, jogadores ficando descontentes, escândalo surgindo nos bastidores, uma sensação de que League of Legends está ficando em segundo plano para os jogadores... Parece que a Riot está passando por um “inferno astral”, e a impressão é que tudo parece estar dando errado para a empresa.

Era para 2018 ser o ano da virada para a criadora do MOBA mais popular do mundo. Ao menos era isso o que dava a entender quando, no ano passado, a Riot anunciou as runas reforjadas. Nesse mesmo período do ano, a Riot estava demonstrando cada uma das runas e os jogadores estavam animados com as mudanças, mesmo que estas fossem muito bruscas e mudassem o estilo de preparação para as partidas.

No âmbito competitivo, as ligas ao redor do mundo estavam efervescentes. A TSM e a Immortals dominavam o cenário norte-americano, a G2 dominava o cenário europeu e a SKT já demonstrava claros sinais de enfraquecimento na Coreia do Sul, mas ainda assim seguiria para o Mundial – coisa que não vai acontecer neste ano.

No final do ano, as runas reforjadas vieram e os jogadores tiveram que se adaptar às mudanças, mas até aí, tudo bem, pois, ao longo da história de League of Legends, o fim de temporada sempre significava tempos de chacoalhar o meta, e a comunidade gostava disso.

MUDANÇAS CONSTANTES

Neste ano, a imagem de League of Legends ficou arranhada. Foram muitas decisões erradas que colocaram a popularidade do game em xeque, principalmente a ideia de fazer duas grandes mudanças no jogo por mês. Todos os patches de número par trouxeram atualizações drásticas que sempre mexiam no meta-jogo.

A atualização 8.4, por exemplo mudou muita coisa nos itens de magos com a chegada do item Capítulo Perdido, fazendo com que todos os jogadores da rota do meio se adaptassem às mudanças que, no geral, deixaram os magos mais fortes, mas ao mesmo tempo rolaram nerfs pesados na Kalista, Tristana e Twitch.

No 8.6, foi uma mudança na Lâmina da Fúria de Guinsoo, que por um bug que passou despercebido em Jhin colocou o campeão em um surto de vitórias acima do esperado. No 8.8, foi o “desrework” da LeBlanc (a inimiga nº 1 dos atiradores), e nerfs em Varus e Xayah.

No 8.8, foi um festival de nerfs. Varus, Kai’sa e Xayah mais uma vez enfraquecidos, e a pá de cal nos atiradores veio no 8.11, após Mid-Season Invitational, no qual os itens de críticos foram duramente nerfados e mexidos, inviabilizando praticamente todos os campeões da posição.

Eram muitas mudanças acumuladas. Em três meses, o League of Legends mudou completamente, deixando quem jogava como atiradores totalmente perdido. Estava muito complicado jogar com campeões atiradores, pois agora a Irelia vinha de um rework e tinha se tornado muito forte, e o mesmo valeu para Swain. Até mesmo Heimerdinger estava mais viável na rota inferior do que uma Caitlyn ou Varus.

As constantes mudanças no LoL foram divertidas por um tempo. Mas isso não mudou o fato de que o jogador tinha que ficar cada vez mais tempo lendo notas de balanceamento e se adaptando ao que os desenvolvedores queriam – só que ninguém sabia exatamente o que eles queriam.

Até então, a impressão era de que a Riot não estava se importando com o feedback da comunidade, e foi nesse ponto em que a insatisfação explodiu. Muita gente dizia que a Riot tinha ido longe demais. Jogadores profissionais da rota inferior foram às redes sociais para reclamar e demonstrar sua indignação. No Brasil, o destaque foi para Micael “micaO” Rodrigues, e lá fora foi Yiliang “Doublelift” Peng que expressou sua insatisfação em um vídeo que alcançou, na época de seu lançamento, mais de 500 mil visualizações em três dias.

Após isso, a Riot teve que reconhecer que estava indo longe demais e precisou colocar um pé no freio e, aos poucos, foi mexendo em itens e campeões para que o LoL voltasse ao “meta padrão”. Então, nesta quinta-feira, a Riot anunciou que vai ouvir a comunidade e pegar mais leve nas mudanças daqui para frente.

DEBANDADA DE JOGADORES OU APENAS BOATOS?

Enquanto todos ficavam insatisfeitos com o caminho que LoL seguia dentro do jogo, o mesmo aconteceu do lado de fora do jogo. No Reddit, o desapontamento era nítido. Diariamente, mais e mais publicações surgiam apontando como estava menos divertido jogar League inflamados por streamers ao redor do mundo, que estavam vendo seus números de espectadores diminuírem cada vez mais – enquanto isso, Ninja e sua turma surfaram na popularidade de Fortnite.

Foi se formando um boato de que LoL estava perdendo jogadores. Um streamer aqui, um post no Reddit ali, uma matéria em um blog acolá... ficávamos imaginando que algo realmente estava dando errado para a Riot. O viés de confirmação surgiu com uma atualização no servidor de testes que trouxe consigo diversos itens de influenciadores não ligados à comunidade, como dos canais Nostalgia, BRKsEdu, Poladoful, entre outros - e depois foi a ação foi cancelada.

Isso foi a gota d’água, e boatos surgiram dizendo que LoL estava em uma “crise terrível”, que o jogo havia perdido milhões de jogadores e espectadores dos esports e que essa manobra da Riot era um sinal claro de que a companhia estava “desesperada” por novos jogadores. Em diversas ocasiões, veículos foram atrás da Riot para saber sobre o que era fato e mentira nesse boato, colocando a empresa contra a parede.

No início desta semana, uma nova reportagem surgiu no portal de negócios The Information dizendo que a Tencent e a Riot estavam com seu relacionamento abalado por inúmeros motivos, como a recusa de fazer um MOBA para celulares e a suposta perda de jogadores de League of Legends.

O presidente da Riot, Nicolo Laurent, em declaração enviada ao Dot Esports, afirmou que apesar dos números do League of Legends estarem "abaixo do seu pico", o título "ainda é um dos jogos mais jogados no mundo". "Estamos muito felizes com os números e acreditamos que alguns dos novos conteúdos que implementamos em breve só ajudarão com o número de jogadores", comentou. E no Brasil, líder do título na Riot Games Brasil, Leandro Faria, declarou que o jogo ainda está em crescimento.

QUEDA DE AUDIÊNCIA NO ESPORT?

Outro fator que vem causando uma grande comoção na comunidade é o de que os números de audiência nos campeonatos de League of Legends “estão caindo vertiginosamente”. Se olharmos apenas para um número, realmente vamos perceber que a audiência dos esports de League of Legends caiu.

No Twitch, a amostragem do canal brasileiro mostra que, no período do último ano, o número absoluto de espectadores simultâneos caiu de 37 mil para 27 mil (o que representa uma de redução de 26,9%). No canal norte-americano, o número baixou de 568 mil usuários para 484 mil (a queda é de 14,7%).

No YouTube, esses dados não são divulgados, portanto não é possível mensurar. Além disso, tanto a LCS Norte-Americana quanto o CBLoL contaram com um aumento na distribuição de seus campeonatos. Nos EUA, por exemplo, o torneio também é exibido no aplicativo ESPN+, e aqui no Brasil o torneio também passa na SporTV – principalmente no site e, em algumas vezes, na TV.

Com mais oferta de distribuição – e menos dados disponíveis –, fica difícil mensurar se realmente houve uma queda significativa no número de espectadores dos campeonatos. Levar em consideração apenas os dados do Twitch pode ser um fator, mas levantar essa informação sem ter base nos outros canais de distribuição não é responsável.

Mas, mesmo que não existam dados, é inegável que League of Legends não está mais em lua de mel com seus espectadores. Jogos como Fortnite e PUBG trouxeram um novo elemento e uma concorrência pela atenção dos jogadores casuais – que, a grosso modo, são a maioria em qualquer game. Além disso, torneios como a Overwatch League e a maior frequência de campeonatos de jogos como os de Dota 2 estão, sim, brigando pela sua atenção.

MAS ESTÁ TUDO BEM, ENTÃO?

Com a promessa do fim do “meta maluco”, da redução de atualizações pesadas e mais canais para distribuição do esport, parecia que a poeira ia baixar e logo o nosso LoLzinho de cada dia voltaria ao crescimento e logo tudo ficaria tudo bem, certo? Nem de longe está tudo bem.

A “aura” de startup sempre em crescimento da Riot Games se dissipou, seu jogo não é o mais assistido nos sites de streaming e seus antigos influenciadores também estão experimentando novos jogos. Mas, agora, até mesmo os bastidores da empresa estão sendo revelados, como a polêmica reportagem do site Kotaku que escancarou a mentalidade machista dentro da empresa e as situações nada democráticas que as mulheres passam no âmbito profissional.

Reforçando: o ano mal passou da metade e parece que existe uma nuvem pesada em cima da Riot. O centro de contenção de crise está a mil por hora para apagar todos os incêndios que estão rolando. São muitos problemas que cercam a empresa e seu jogo. Esse é o problema de ser uma companhia muito grande, pois todos os olhos estão virados para a desenvolvedora do League of Legends.

A concorrência está pesada e, dessa vez, a Riot vai precisar tirar um coelho da cartola para atrair você e seus amigos para a frente do computador - seja para assistir uma partida do CBLoL, seja para disputar um LoLzinho no fim do dia.