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Acusada de ter uma cultura sexista, Riot se pronuncia e promete mudanças estruturais

Escritório da Riot Games em Los Angeles, EUA. Chris Yunker

Esta terça-feira (7) viu a Riot Games sofrer um baque. A sede norte-americana foi acusada de ter uma cultura sexista em seu ambiente de trabalho por meio de uma reportagem do site Kotaku, que conversou com 28 antigos e atuais funcionários e funcionárias da empresa.

Segundo as denúncias, com um quadro de cerca de 80% funcionários homens e apenas 20% de mulheres, o ambiente da Riot é sexista e se assemelha a uma fraternidade de faculdade com uma ‘cultura de brother’. São citados exemplos de homens que fazem brincadeiras infantis como ‘peidar na cara de outro’ em reuniões sem mulheres e criam listas de colegas de trabalho ‘pegáveis', além de mais importância e reconhecimento a outros homens do que para mulheres (normalmente ignoradas e/ou desvalorizadas).

Em um dos casos citados, uma fonte identificada como Lacy afirmou que tentou por meses contratar mulheres para posições de liderança na empresa, mas que sempre ouvia desculpas para as entrevistadas como “só quer subir na carreira”, “tem ego muito grande”, “não é gamer o suficiente” e “não desafiava as convenções”.

Para testar o sexismo da empresa, Lacy fez um teste: pediu para um colega apresentar uma ideia que ela mesma havia apresentado aos gerentes, mas havia sido ignorada. “Eis, então, que na semana seguinte ele apresentou exatamente o que eu havia apresentado e todos ficaram ‘nossa, que incrível’. A cara dele ficou vermelha e ele lacrimejou”, disse Lacy. “Eles apenas não respeitavam mulheres”.

Outras denúncias reveladas na reportagem comentaram sobre a cultura da Riot de contratar apenas ‘hardcore gamers’. Em consequência do preconceito existente de que mulheres não podem ser hardcore gamers, muitas não eram contratadas pela empresa - mesmo possuindo horas e horas de jogos como World of Warcraft ou RPGs de mesa.

Houveram, ainda, depoimentos de mulheres que assumiram por meses tarefas de gerentes que haviam saído da empresa e, inclusive, foram elogiadas e levadas a pensar que seriam promovidas. Entretanto, nenhuma delas foi promovida - os cargos ficaram para homens que eram até mais inexperientes no trabalho.

O Kotaku afirma que algumas funcionárias negaram ter passado por sexismo na Riot, mas outras acreditam que essa cultura está tão enraizada na empresa que será difícil algo mudar tão cedo. Uma delas comparou a situação da Riot com a ideia de “divida técnica“.

“Se você está construindo sua tecnologia em uma base não muito boa, você vai gastar muito tempo tentando alcançar a nova ou consertando coisas”, disse ela ao Kotaku. “Acho que a Riot cresceu muito rápido, e não ter tido um planejamento de organização estrutural que encoraja a diversidade nos machucou. Estamos tentando resolver isso agora, mas é difícil de consertar as coisas quando elas já começaram. É mais fácil começar as coisas do jeito certo e construir a partir delas”.

DEMISSÃO

Segundo reportagem da ESPN Esports norte-americana, a Riot Games demitiu em junho deste ano Raven Keene, juiz da LCS NA, e enviou um e-mail para todos os integrantes da equipe de esporte eletrônico da empresa.

“Essa separação não é baseada em desempenho nem em contagem de cabeças”, dizia o e-mail, cuja cópia foi obtida pela ESPN. “Em vez disso, é diretamente atribuível ao nosso compromisso de fornecer a todos os funcionários da Riot em todo o mundo um local seguro e acolhedor. As reclamações sobre o comportamento de Raven em relação aos colegas da empresa nos levaram a acreditar que não podemos atingir esse objetivo com Raven como um membro da nossa equipe”.

Após a demissão, diversas fontes, incluindo atuais e antigos funcionários da empresa, revelaram a ESPN que Keene foi demitido por suposta conduta sexual imprópria. De acordo com a reportagem, a Riot se negou a discutir o caso citando uma política contra comentários sobre questões de pessoal. Entretanto, as fontes revelaram que outro e-mail interno foi enviado afirmando que o incidente havia vazado para a mídia e lembrando os funcionários do acordo de confidencialidade com a empresa.

A RESPOSTA DA RIOT

A ESPN Esports norte-americana entrou em contato com a Riot sobre a reportagem do Kotaku. Em resposta, Joe Hixson, responsável pela comunicação corporativa da Riot Games, afirmou:

“Este artigo lança uma luz sobre as áreas em que não cumprimos com nossos próprios valores, o que não será aceito para a Riot. Tomamos medidas contra muitas das instâncias específicas do artigo e estamos empenhados em investigar todos os problemas e corrigir as causas subjacentes. Todos os Rioters devem ser responsáveis pela criação de um ambiente em que todos tenham oportunidades iguais de serem ouvidos, crescer em seu papel, avançar na organização e alcançar seu potencial”.

Além disso, a Riot também publicou a íntegra da resposta oficial enviada ao Kotaku durante a realização da reportagem, que está sendo trabalhada desde dezembro do ano passado. Confira a tradução da resposta a seguir:

No texto, Joe Hixson garante que “interromper mulheres em reuniões, promover/contratar alguém menos merecedor do que qualquer outra pessoa e cruzar a linha entre assertivo a agressivo são três exemplos de ações que são explicitamente opostas à nossa cultura. Dizer que essas ações são emblemáticas da nossa cultura, e não uma afronta a ela, seria errado”.

Ele complementa: “Para garantir que a nossa cultura aspiracional se torne uma realidade e não seja perdida na aplicação, listamos em excesso o reforço cultural. Colocamos nossos valores na estratégia da empresa, atributos de liderança e programas, sistemas e processos de toda a empresa. Quando nos deparamos com comportamentos contrários, procuramos entendê-lo, avaliá-lo e abordá-lo. Temos uma política de tolerância zero em relação a discriminação, assédio, retaliação, intimidação e toxicidade no geral”.