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Opinião: Da "cultura do fliperama" ao avanço dos esports, a Evo se agarra às suas raízes

Mesmo os mais importantes nomes da comunidade interagem com o público da Evo Divulgação/Evolution Championship Series

Artigo originalmente publicado em ESPN Esports.

Sempre que penso na Evolution Championship Series, penso em James Chen.

O comentarista de 42 anos de Street Fighter tem participado de todos as Evo desde que quando ainda era apenas "Battle by the Bay" (B3), em 1996. Em 2002, o torneio se tornou Evolution Championship Series e foi realizado na Universidade da Califórnia, em Los Angeles, quando seus fundadores juntaram US$ 10.000 para a criação de um evento multigame. Hoje é uma produção multimilionária de três dias realizada no Mandalay Bay Resort and Casino em Las Vegas, culminando na decisão realizada em um local para 12.000 espectadores.

"Acabamos de tirar uma foto com todos aqueles que participaram das Evos de 2002 até agora", disse Chen à ESPN no domingo. "E nessa foto, eu sou o único que esteve em todos as Evos e B5, B4 e B3."

Nos últimos oito anos, à medida que o evento cresceu, Chen tenta não deixar a voz embargada e a lágrimas fluírem. O comentarista se tornou uma parte da Evo, assim como Street Fighter e Tekken. Há até um vídeo com compilação de Chen chorando em eventos da Evo ao longo dos anos no YouTube.

"Não quero e todos os anos tento não chorar, mas não posso evitar", disse Chen. "Eu tenho jogado games de luta desde sempre, e quero que a comunidade cresça, mas há uma estranha culpa em mim quando penso que estou levando as pessoas à perdição, porque o mundo do esports ainda não está totalmente comprovado e as pessoas estão dedicando suas vidas a isso para se tornarem campeãs. Todos nessa comunidade são minha família, gosto de vê-los bem-sucedidos, e fico emocionado quando eles conseguem alcançar seus objetivos. A melhor coisa sobre a comunidade de jogos de luta é sua base de fãs e é ótimo quando as pessoas que conseguem são aquelas que amam a comunidade".

As lágrimas anuais de Chen são apenas uma das muitas razões pelas quais a Evo é meu evento favorito de esports e por que espero que nunca em um cenário de mudanças, conduzida por empresas bilionárias.

Não há nada de corporativo ou polido sobre o mar de jogadores de todo o mundo vagando pelo piso de concreto nos dois primeiros dias da Evo. Cada um é parte de uma comunidade de jogos de luta muito unida e que está lá por amar Street Fighter V, Tekken 7, Super Smash Bros. Melee e Dragon Ball Fighter Z, entre outros, porque adoram os jogos, não porque o esports sejam um caminho de sucesso capitalista.

A natureza básica da Evo está nos dois primeiros dias da competição, que aconteceram no Vegas Convention Center antes do evento principal de três dias se mover para o mesmo teto no Mandalay Bay no ano passado. O sistema de eliminação acontece em dezenas de mesas espalhadas pelo chão da convenção, com jogadores andando com seus controles embaixo dos braços ou em suas mochilas, esperando para se sentar em uma das cadeiras de plástico dobráveis em frente à TVs de CRT. Enquanto isso, organizadores do torneio gritam instruções aos participantes para tentar superar o barulho da multidão como um atendente gritando números em uma lanchonete lotada, enquanto olham para o as tabelas do torneio em um pedaço de papel, onde marcam com uma caneta os resultados após cada jogo.

Havia mais de 11.000 competidores inscritos no torneio deste ano, muitos dos quais entraram na Evo da mesma forma que você entraria para correr uma maratona com seus amigos. Eles não têm delírios de grandeza, mas fazem questão de fazer parte do evento, como uma tradição anual. Por uma taxa de inscrição de US$ 85, os jogadores são capazes de conviver e interagir com alguns dos melhores competidores profissionais do mundo sob o mesmo teto.

"Nós crescemos nos fliperamas, então nossas interações eram face-a-face e interpessoais", disse Chen. "Essa é a melhor coisa. Quando você está sentado no salão principal de Evo, os melhores jogadores estão andando junto com os demais e você pode encontrar, por acaso, Daigo e Justin Wong. Não estamos presos atrás da burocracia ou de áreas VIP. Na cultura dos fliperamas, mesmo se você é um estranho, nós não o expulsamos, porque você tem o direito de jogar. É o mesmo aqui. Se você pagar sua taxa de entrada, você pode jogar na 1ª rodada, você pode lutar contra Daigo ou Justin Wong. Você é um jogador. Não importa quem você é. Se você pagou, você é um jogador e ninguém é tratado como especial e isso é o que é o melhor na comunidade de game de luta. Qualquer um pode entrar e qualquer um tem uma chance de ganhar".

Chen deixou há dois anos seu trabalho como programador de software quando decidiu se dedicar em tempo integral aos esports e à transmissão dos mesmo. Há momentos em que ele imagina como seria se uma empresa bilionária tivesse comprado a Evo, mas esses pensamentos rapidamente se transformam em pesadelos com a ideia de que a competição que ele viu crescer de um salão de baile para uma arena em Las Vegas perder sua identidade.

"Eu não vou mentir, estou vivendo de economias agora", disse Chen. "Eu estou fazendo isso por amor. Isso me beneficiaria se houvesse muito dinheiro envolvido, mas quero que permaneça caseiro e autossuficiente. De uma maneira estranha, eu prefiro assumir o risco que evolua organicamente a não cometermos o erro de crescer tão rápido e alterar o que nos levou a esse ponto".

Quando Chen olhou para a multidão da Evo no domingo, não pôde deixar de chorar novamente enquanto colocava a gravata antes de se sentar na cabine de transmissão.

"Isso já está há décadas à frente de onde eu pensei que chegaria", disse Chen. "Se você me dissesse em 2008 que este é o lugar onde estaríamos 10 anos depois, teria rido de você. Pensei que estaria morto e muito longe antes que esse tipo de coisa acontecesse na comunidade de jogos de luta. O fato de nós estarmos aqui e de termos feito sozinhos me faz acreditar que isso não vai embora mesmo que outra pessoa assuma. Eles têm que manter a cultura de que todos têm uma chance e todos são igualmente vitais para a comunidade dos jogos de luta. Isso é o que torna a Evo tão grande".