Thiago “Djoko” Maia já tem uma nova casa. O técnico aceitou o desafio de reerguer um dos principais nomes do League of Legends nacional: a paiN Gaming, rebaixada diretamente para o Circuito Desafiante na última etapa do CBLoL. Enquanto muitos consideram que deixar uma equipe do CBLoL para treinar uma equipe do Desafiante seja algo meio doido, Djoko está animado com o novo trabalho e os novos desafios.
“Eu não sai da ProGaming por vontade da organização, mas sim pela proposta da paiN de iniciar trabalho a longo prazo interessante”, explicou o técnico em entrevista exclusiva ao ESPN Esports Brasil. “Eles afirmaram que poderiam pagar minha multa contratual, e a proposta era tão boa na questão de qualidade de trabalho, de estrutura de visão do que eu poderia contribuir pra essa equipe, que eu julguei muito interessante aceitar”.
Como head coach da paiN, Djoko voltará a uma tarefa que já desempenhou outras vezes em sua carreira: a de reconstruir uma equipe. Relembrando sua passagem pela CNB em 2015 e pela Keyd em 2017, quando precisou desempenhar um papel igual, o técnico confessa que gosta da temática “de criação de base, alicerce, para um bom trabalho” – uma que “não deixa de ser um trabalho que vai ser feito com uma coluna dorsal muito forte de time”.
O trabalho não será fácil, mas o técnico afirma que o maior problema da paiN Gaming na última etapa foram erros em pequenos detalhes de draft, preparação e até no emocional, e que “existe muito talento, muito esforço, e principalmente infraestrutura aqui. Isso vai fazer com a reconstrução tenha uma base muito forte”.
COLOCANDO A MÃO NA MASSA
Prestes a entrar na Janela de Transferência oficial da Riot Games, as equipes do Circuito Desafiante e CBLoL poderão rever suas escalações titulares e reservas – isso não será diferente com a paiN Gaming.
De acordo com Djoko, ele não teve tanta chance de conversar com os jogadores da escalação atual ainda, mas sabe que todos têm muito talento e qualidade. Entretanto, mudanças serão necessárias, mas todas serão feitas com muita avaliação e calma.
“O que eu posso dizer é que temos qualidade, e vamos avaliar a melhor forma possível de usar ou mudar as peças que temos”, afirma. “O foco maior é na reconstrução de ambiente, de metodologia, de tudo o que é possível para dar a maior qualidade possível para os jogadores”.
O técnico também deixa claro que não fará todas as decisões sozinho. “Como head coach, eu tomo a responsabilidade por decisões, inclusive essas [de mudança]. Lógico que isso é algo multifatorial. Eu vou ter tanto o apoio de quem estiver comigo na comissão técnica, no momento, como também de pessoas que não posso revelar ainda, que vão trabalhar a parte mental, a parte de perfil de jogador, pois eles têm muita experiência com isso e vão me ajudar com um ‘mix’ dessas informações que me ajudarão a tomar a melhor decisão”, explica.
É HORA DE PENSAR EM RESERVAS
Um dos planos que estão sendo cogitados por Djoko é transformar a visão atual da paiN sobre reservas. Na primeira etapa de 2017, a equipe chegou a utilizar Rakin no lugar de Kami em poucos jogos, mas desde então a organização voltou a inscrever jogadores como reservas apenas pela obrigatoriedade imposta pela Riot Games.
“O peso dos reservas faz diferença tanto no CBLoL quanto no Circuito Desafiante”, garante o técnico. “Trabalhei com equipes com reservas na Keyd em 2017, e na PRG em 2018, com excelentes resultados na PRG”.
Djoko confessa que ainda é cedo para definir qualquer coisa, “porque para trazer um jogador reserva, primeiro você tem que definir a função dele. Ele será alguém ativo disputando a posição, ou vai ser alguém para aprender?”. Independentemente, o técnico explica que uma de suas funções é “formar esse jogador e torná-lo apto a desempenhar”.
“No split passado, posso afirmar que todos os jogadores da PRG estavam aptos a jogar uma partida de CBLoL com o time”, garante. “Então em um projeto que a gente englobe os reservas, é extremamente interessante. Eu com certeza gostaria de deixá-los em condição de jogo para termos um maior leque de estratégias, diversificar o estilo de jogo e aproveitar uma pessoa diferente com uma cabeça diferente”.
100% PRESENTE
Muitos não sabem, mas Djoko não é apenas técnico e ex-jogador de League of Legends. Ele também é estudante de Medicina que está prestes a se formar. Por isso, sua chegada na paiN não é apenas mais um desafio em sua vida, mas também será a primeira vez em que ele poderá se dedicar 100% a uma equipe.
“Poder trabalhar em plenitude vai ser uma realização”, confessa o técnico. “Em oito anos de faculdade, porque tranquei dois pra ser jogador da INTZ, sempre tive aquele passarinho na minha cabeça falando da aula na segunda-feira, da prova chegando, da atividade avaliativa, de se estou bem o suficiente para atender bem um paciente. Era uma preocupação constante que me fazia ter que dividir minha atenção, e nada que é dividido é igual a um inteiro”.
Djoko lembra que quando teve a oportunidade de focar apenas em seu trabalho como técnico, como o fim de 2017, teve bons resultados. “A PRG chegou à final da Superliga jogando de forma consistente”, afirma. “Não vencemos no final, mas foi um trabalho de evolução e construção inicial que eu gostei, fiquei satisfeito”.
O técnico também explica que não foi forçado a fazer a faculdade de Medicina, mas que isso aconteceu porque sempre quer muita coisa na vida, inclusive profissionalmente. Para Djoko, ter o diploma e se formar médico é equivalente a uma estabilidade de carreira sem paralelos, além de ser uma profissão que inclui diversas coisas que o agradam, como conhecer pessoas, conversar com pacientes e ajudar a buscar soluções para um problema.
Entretanto, Djoko sente o mesmo amor por sua profissão de técnico de League of Legends, e por isso se esforçou muito para manter as “duas vidas”. Agradecendo a ajuda tanto do pai, seu “maior motivador”, quando de ex-companheiros de equipe como Lorenzo Jung (Keyd) e Dionrray (PRG), o técnico se diz extremamente feliz.
“Até agora eu era, coach aqui e lá [no interior]. Agora, inicio minha carreira de coach aqui”, explica. “Estar presente e viver o que o jogador vive, na medida do possível, é algo que um treinador tem que fazer. O treinador só não entra em campo porque ele não pode, mas ele vive o jogo com o jogador. Então poder fazer isso é uma realização de quase uma década, e é algo que eu vou levar para minha vida inteira.”
“A paiN Gaming vai ser o primeiro time que vou atuar 100% do tempo”, adiciona.
MUDANDO A MENTALIDADE
Outro ponto que deve mudar na paiN com a chegada de Djoko é a mentalidade da equipe, que parece um pouco estagnada há um tempo. Para o novo técnico, não importa a mentalidade passada, e sim criar uma nova que seja correta para ele, os jogadores e o restante da comissão técnica. “Um mix de mentalidades, de estilos de estratégias. Essa vai ser a nova mentalidade da paiN”, garante Djoko.
Isso envolve melhorar como a paiN se apresenta nas partidas. Nas últimas etapas, o público acabou vendo uma equipe muito reativa que pecava nos momentos importantes. Agora, Djoko quer trazer um jogo “transparente, claro, que faça sentido”, mostrando que existe um plano de jogo, uma lógica por trás.
Essa nova mentalidade tem grandes chances de incluir, também, mais agressividade – uma marca das equipes pelas quais Djoko passou. “É possível jogar de forma reativa se você tem as rédeas da situação, mas prefiro geralmente buscar o resultado através de atitude”, comenta o técnico.
Ele complementa: “Tive a sorte de que a maioria dos jogadores com quem trabalhei tinham essa característica. Não quer dizer que vou procurar só jogadores agressivos, mas fico feliz de até agora meu trabalho ter sido desse estilo e espero que a gente consiga um time que busca resultados ativamente”.
Tudo isso será colocado à prova no Circuito Desafiante, que pode ser considerado “fácil” para alguns, mas não para Djoko. “Todo time pode ser campeão, todo time pode vencer uma partida e custa muito caro perder um jogo no Desafiante”, explica. “Os playoffs são rápidos, a competição é rápida... são diversos ponto e vírgula nessa frase que é o Desafiante”, detalha.
Para combater isso, Djoko pretende usar a experiência que cultivou ao passar por quase todas as grandes equipes do CBLoL e o conhecimento que obteve de diferentes personagens do nosso cenário. Entretanto, experiência nem sempre é tudo, e o técnico promete calma por parte da equipe.
“A experiência é uma aliada, mas a gente tem que lidar um jogo por vez, com muita calma, com muita preparação, para poder fazer nosso melhor nesse campeonato”.
A ESPERANÇA DA TORCIDA
Com a maior torcida de um time de esporte eletrônico do Brasil, a paiN tem muitos pares de olhos que a acompanharão durante sua caminhada no Circuito Desafiante. Isso, para Djoko, não é um problema.
“Para mim, a torcida não pesa. Acho que quando tem cobrança e quanto tem pressão, é disso que sai a melhora”, afirma. “Às vezes, a gente se acomoda em uma posição por muito tempo, e isso faz com que a gente desempenhe um trabalho bom que estamos acostumados, mas sem muito incentivo para mudança”.
Mas não será apenas a paiN que precisará mudar sua perspectiva. O próprio Djoko também passará por isso. “Tenho que ser muito melhor do que eu fui até hoje, porque a responsabilidade é grande. E essa sensação de precisar melhor, de ter que mudar, ter que crescer, tanto pessoal quanto profissionalmente, é algo que não me coloca peso, mas me agrada muito”, explica.
O técnico afirma que uma de suas mudanças será principalmente com a torcida que tanto cobrará a equipe. “Com a torcida precisarei ter um tato diferente. Terei que abrir essa parte, essa faceta da minha carreira, que o técnico também deve respostas para a torcida”, comenta. “Ter que desenvolver isso vai ser algo legal para mim. Depois disso, tenho certeza que vou saber lidar melhor com a torcida. Então todo esse trajeto, é algo que eu sei que vai complicado e penoso, mas ao fim vai ser positivo”.
E quando finalmente perguntamos o que a torcida pode esperar da paiN para o Desafiante, Djoko foi pragmático: “Na minha visão, acredito que qualquer time que entre em um campeonato e o treinador e os jogadores não têm como objetivo ganhar o campeonato, não tem nem porquê jogar”.
“Eu sempre entro acreditando no meu trabalho e no meu time, e sei que se a gente trabalhar de forma plena, honesta e transparente, temos ótimas condições de ganhar o campeonato”, complementa. “Certeza a gente não tem de nada, mas eu sempre entro para ganhar”.
