<
>

União e força: Corujão feminino mostra o potencial das mulheres no Counter-Strike

Após quase 10 horas de corujão, as 26 participantes do Mix Femme posam para foto Felipe Guerra

Era uma noite de sábado, e enquanto muitos estavam curtindo shows em um festival ou deitados no sofá vendo série, eu estava no bairro da Mooca, em São Paulo, para jogar Counter-Strike: Global Offensive no primeiro corujão da minha vida.

Entretanto, a ocasião era muito mais significativa do que apenas meu primeiro corujão. O I Max Femme marcava, principalmente, o primeiro encontro feminino de jogadoras brasileiras de Counter-Strike para fazer o que sabem de melhor: jogar.

Idealizado pela jogadora Amanda “Dinha” Gomez, organizado por Serena “sepz” Capó e com identidade visual pela jogadora Flávia "nykoL" Amato, o corujão aconteceu na MAX Arena e tinha como objetivo reunir meninas em um ambiente seguro para que todas se conhecessem, pudessem jogar em máquinas boas e tivessem um gostinho do competitivo para fomentar o cenário.

Das 22h às 7h do dia seguinte, 26 meninas ficaram amigas, trocaram experiências e, claro, disputaram um pequeno campeonato que contou até com transmissão no Twitch e narração de duas jogadoras. E não há outra palavra para descrever o encontro além de “mágico”.

ENCONTRO DE GERAÇÕES

Uma das coisas que mais me chamou a atenção durante o evento foi o encontro de diferentes gerações. Algumas participantes ainda eram menores de idade, com 13 e 16 anos, enquanto outras jogavam Counter-Strike há mais de 10 anos. Algumas começaram no famoso 1.6, e outras conheceram o jogo direto no Global Offensive. Havia mães, adolescentes, estudantes, jogadoras profissionais: todas dispostas a dividir sua paixão pelo jogo.

Isabelle “isaB” Leal, de 28 anos, é uma das representantes da “velha guarda”. Jogadora de CS há 17 anos, Isa já fez parte de times competitivos tanto do 1.6 quanto do CS:GO, e atualmente participa de times fake para disputar as ligas femininas da Gamers Club. O objetivo, no entanto, é voltar a ser uma jogadora profissional.

“Estou querendo voltar a competir”, afirmou ela ao ESPN Esports Brasil. “Fiquei parada pouco mais de dois anos, mas estou querendo voltar. Jogo bastante DM, vejo demos, e treino smokes nos tempos livres”.

Por jogar há tantos anos, Isa já participou de alguns corujões, mas lembra que ela e a irmã eram as únicas meninas na lan house. “Comecei a jogar em lan houses com 11/12 anos, e geralmente eu e minha irmã éramos as únicas meninas na lan. Virávamos em corujões todos os fins de semana”, conta. “Mas já tinham muitos anos que não participava de um”.

Para ela, o corujão feminino foi importante por ter um gostinho de “até que ainda sei jogar isso” e uma ótima oportunidade de rever velhas conhecidas do cenário e conhecer meninas novas. “É lindo ver um monte de rostos e nicks novos!”, exclama. “Eu sonhava com o CS:GO feminino grande desde a transição do 1.6 para ele. Fiquei muito feliz, e espero que tenham mais corujões femininos”.

Uma das novas caras do cenário e que promete muito é Gabriela “bokor” Bokor. Com 13 anos, a jogadora começou no CS:GO há mais ou menos um ano e já está dando muita bala. Um dos destaque das equipes montadas para o corujão, Bokor costuma fazer streams e participa de alguns times fakes em ligas, mas ainda considera o jogo um hobby por conta da escola e dos pais.

“Eu gostaria de participar [de um time], mas fica difícil por eu ser muito nova, a escola, os pais, enfim”, afirma. “Acho que pra mim CS é mais um hobby, mas se houver alguma oportunidade legal [de time] eu aceitaria. Antes disso gostaria de terminar o colégio e decidir uma faculdade”.

O Mix Femme também foi a primeira experiência de Bokor em uma lan house e em um corujão, e a jogadora diz ter sido uma experiência incrível. “Não esperava que seria tão legal. Conhecer as meninas que eu admirava pessoalmente, conhecer meninas novas (e muito boas por sinal) e de saber que nós estamos muito unidas, independente das coisas ruins que acontecem nesse cenário”, comenta. “O corujão só foi uma forma de demonstrar o quanto as mulheres podem jogar, podem ser boas e que precisam de visibilidade. Espero que cada vez mais, nos próximos eventos como esses, mais meninas apareçam e movimentem esse cenário incrível!”

DE FILHA PARA MÃE E VICE-VERSA

Outros dois nomes conhecidos do cenário brasileiro fizeram mais um “encontro de gerações” - dessa vez entre mãe e filha. Raquel "Tia Raquel" Bagnato, de 49 anos, e Renata "redwísh/Reeh" Bagnato, de 20 anos, marcaram presença no corujão e mostraram como o Counter-Strike pode unir familiares.

Atualmente streamer, mas com uma vontade renascida de voltar a competir, Reeh conta que já havia participado de um corujão antes com um antigo time, inclusive acompanhada de sua mãe, mas que este foi o primeiro feminino. Para ela, a experiência foi única.

“Foi incrível demais ver todas as meninas lá reunidas por causa de um ‘joguinho’, como todo mundo acha que é, só que na verdade é muito maior que isso”, afirma. “É uma batalha que estamos lutando juntas para que possamos fazer o cenário feminino cada dia maior e mais forte, unido. Uma luta porque, muitas vezes, acham que não é nosso lugar estar ali, jogando. Que é coisa de homem. Mas aí que a gente entra com tudo: pra desmistificar isso e mostrar que nós somos capazes e tão boas quanto”

Apesar dos times do corujão terem sido definidos por sorteio, Reeh e Tia Raquel caíram no mesmo time, e a jovem explica que foi incrível jogar ao lado da mãe. “A gente nunca tinha jogado juntas, no mesmo time, porque aqui em casa só temos um PC e então não dá pra gente jogar juntas, e ela jogou muito”, diz. “Fiquei orgulhosa dela e de tudo que a gente vem construindo com o cenário feminino. Unidas nós sempre seremos mais fortes, e acredito que esse é o intuito do Mix. Sem contar que graças a ele, eu estou com o dobro de vontade de competir e ter um time.”

Tia Raquel, que faz streams ocasionais e já fez muito sucesso aqui no ESPN Esports Brasil, teve sua primeira experiência jogando em um corujão durante o Mix Femme. Ela também conta que tinha o desejo de jogar com a filha, mas que ter apenas um computador em casa não as permite. Logo, jogar no mesmo time que Reeh foi a realização desse desejo.

Segundo a Tia Raquel, o corujão também foi especial pois ela conheceu algumas meninas pessoalmente que já tinha contato pela internet e outras que também têm o mesmo gosto pelo jogo. “Sentir a energia da união onde todas estavam ali com uma característica em comum que é amor pelo esport. Mostrar para o mundo que quem quer, vai e faz; que nada e ninguém pode deter uma mulher determinada apesar do preconceito que infelizmente existe”, afirma. “Torço para que um dia a igualdade venha reinar nesse mundo”.

Mostrando que idade não é problema para o CS, Tia Raquel também arrancou gritos das meninas do evento ao fazer jogadas sensacionais, e já deixou avisado que gostaria de montar um “time sênior”. Além disso, aproveitou para deixar um recado para outros pais e mães: “Incentivem seus filhos(as) no que eles tiverem vontade de fazer, porque não existe nada mais frustrante do que ver um filho infeliz. A vida é deles e eles têm o direito de escolher. Com o seu suporte, com certeza tudo fica mais fácil. O esporte eletrônico é uma realidade nos dias de hoje e vem crescendo a cada dia. Quem sabe o(a) próximo(a) Coldzera esteja dentro da sua casa?”

JOGANDO COM AS PROS

O Mix Femme também contou com a participação de jogadoras que já estão no cenário competitivo brasileiro de Counter-Strike. Na divisão de equipes, as profissionais foram separadas em cabeças de chave para um melhor equilíbrio, e foram mais do que pacientes com as mais inexperientes e com a batata da história (eu, no caso).

Duas dessas jogadoras são Olga “olga” Rodrigues e Karina “kaah” Takahashi, ambas da Bootkamp Gaming. Com anos de experiência no CS, ambas se mostraram animadas com o evento e esperançosas de que ele faça as meninas perderem o medo e timidez de jogar.

“Eu amei muito, foi muito f*** ver um monte de menina que queria jogar mesmo sendo patente e nível baixo, que foi jogar só pelo encanto do CS e deu as caras”, afirma Kaah. “Um monte de gente fica nessa de que não sabe jogar ou sabe que tem gente melhor, então não participa do corujão, sendo que isso não é necessário. É muito bom pra aprender, inclusive”.

A jogadora ainda deixa uma dica: “Não tenha vergonha nunca de participar dessas coisas. Todo mundo começou sem saber que WASD andava, então vamos fazer um ‘socialite’ e se divertir no joguinho!”.

Para Olga, o corujão foi ainda mais especial pois, além de ser o primeiro feminino do qual participou, também foi seu primeiro após a transição. Primeira mulher transsexual a entrar no cenário competitivo de CS no Brasil, a jogadora afirma que a experiência do corujão a fez sentir-se bem vinda.

“Essa experiência foi muito boa pra mim”, conta “Estava meio tímida e um pouco insegura, mas depois de interagir mais com as meninas, me senti muito bem vinda. O tempo passou muito rápido, e mesmo bastante cansada a vontade era de jogar mais”.

VOZES FEMININAS

Apesar de ser um campeonato pequeno, não poderia faltar uma transmissão para celebrar o corujão. Paula “Poulie” Monteiro e Fernanda “Nanda” Piva ficaram responsáveis pela narração das partidas e tiveram seu primeiro gostinho como narradora e comentarista. E mesmo sendo estreantes e estarem em treinamento, as duas não deixaram nada a desejar na emoção da narração.

“A experiência de um corujão apenas feminino foi maravilhoso. Ver a vibração, a união de todas ali foi sensacional, e ainda mais de poder ajudar na visibilidade de todas. Foi gratificante demais”, diz Poulie.

Mesmo nervosa por ser sua primeira narração, Poulie afirma que estava muito animada e ansiosa, e que foi muito bom ver o feedback da comunidade. “A melhor coisa foi ver o feedback que tivemos no Twitter e também das manas que participaram. Foi show, e pretendo narrar os outros Mix e campeonatos que tivermos pela frente”, anuncia, “Poder ajudar o cenário da melhor forma que tem, que é transmitindo as partidas para o mundo, é muito bom. Poder fazer parte de tudo isso e, claro, mostrar que a mulherada além de se divertir dá muita bala também”.

Nanda, que já conversou anteriormente sobre seu treinamento de comentarista aqui no ESPN Esports Brasil, também confessou que estava nervosa, ansiosa e com medo de receber muitas críticas caso falasse algo errado. Porém, tudo melhorou depois do primeiro mapa.

“Após o primeiro mapa tudo fluiu muito bem. Me senti mais confiante para transmitir meus comentários, e o feedback das pessoas que estavam na lan foi maravilhoso”, lembra. “Enquanto estávamos no jogo, as vezes por trás das câmeras elas falavam que estava muito legal, e o chat da transmissão também estava falando muito bem”.

Para ela, o Mix Femme a fez perceber que está mesmo no caminho certo. “Eu tive a confirmação que realmente, naquela noite, eu estava no lugar certo e na hora certa fazendo o que eu gostava”.

DO RASCUNHO PARA A REALIDADE

A organizadora Sepz também conversou com o ESPN Esports Brasil para contar um pouco sobre como foi ver o projeto que ajudou a organizar virando realidade. Segundo ela, o desgaste e os obstáculos no meio do caminho valeram a pena no final.

“[Senti] Muito orgulho e alegria. Ver amigas e fazer amigas, ouvir as risadas das mulheres lindas que foram, poxa, era esse o plano”, afirma. “Apesar do desgaste e dos muitos problemas que apareceram antes e durante o corujão, eu não trocaria a sensação de realização que eu experienciei por nada! Foi muito bom retribuir um pouco do acolhimento que o CS:GO me deu. Tem muita gente que encontra no jogo uma válvula de escape, e pra mim não foi diferente. Poder devolver isso para o cenário, ainda mais fazendo algo pelo cenário feminino, foi muito gratificante”.

Sepz acredita que mais iniciativas como essa são importantes e necessárias para o cenário feminino, principalmente porque muitas pessoas não entendem os problemas que uma mulher passa para conseguir jogar. Ela afirma que existe uma questão cultural atrás de cada ‘vai lavar a louça’ dentro de um jogo, e lembra de como sempre precisava ajudar nos afazeres domésticos enquanto seu primo ficava livre para fazer o que quisesse depois do almoço.

“Parece pouco, mas vamos pensar em uma rotina de pequenos sacrifícios e falta de apoio. Vamos pensar naquela uma hora a mais que ele [o primo] ganhava diariamente por não ter que lavar a louça (ou fazer algum outro ‘pequeno’ trabalho doméstico) e como isso acumula ao longo dos anos. E isso é apenas uma das realidades da mulher no esports”, comenta.

A organizadora também detalha as dificuldades das meninas que de fato conseguem ter tempo para jogar, como a famosa reação de “nossa, é uma menina jogando”. “A reação a partir do simples fato de ter uma mulher no servidor varia muito, mas vamos refletir quantas vezes em algum jogo algum time já ficou surpreso por ter um homem jogando? Eu conheço várias jogadoras que pararam de jogar, se privam de algo que elas amam por causa da inabitabilidade do jogo para mulheres.”

Para Sepz, é óbvio que a falta de oportunidades não atinge somente mulheres, mas que a diferença em números é bem clara. “É por isso que ligas e campeonatos femininos são importantes. Muitas vezes a forma que as minas encontram para serem respeitadas dentro do jogo é jogar entre mulheres. Simplesmente porque rola respeito. Simplesmente porque não existe estranhamento nem questionamento. Ninguém deveria se privar da sua saúde mental e do seu bem-estar pra jogar um joguinho. Ninguém”.

Mesmo com a ausência de mais jogadoras profissionais e a dificuldade de outras meninas de diferentes cidades comparecerem, Sepz acredita que o corujão foi um sucesso e que o objetivo será sempre “trazer mais garotas para que elas também se sintam tão bem quanto todas nós que participamos”. “O que temos que manter em mente é que se algo falta ou algo precisa mudar, cabe a nós botar a mão na massa e criar o cenário que queremos para nós”, finaliza.

MADRUGADA MÁGICA

Como disse no início do texto, as quase 10 horas de evento para mim foram mágicas. Como uma jogadora do 1.6 que nunca teve oportunidade de fazer um corujão na lan porque era muito nova na época, foi a realização de um sonho antigo. Como uma jogadora de CS:GO que quase não entra no game, foi incrível conhecer novas e antigas jogadoras e ser tão bem recebida e auxiliada.

Mesmo sendo uma batata e não sabendo direito nem o nome dos locais dentro de um mapa, não recebi hate, não me senti desprezada e em nenhum momento senti que não pertencia ao corujão. Tive a oportunidade de sentir na pele o que é gritar por ganhar um round, ter uma foto de “pro-player” e ter meu jogo transmitido.

E o mais importante: pude ver a força e a capacidade de mulheres que decidiram colocar a mão na massa e criar um evento tão importante para o cenário. A sensação de um ambiente criado por mulheres e preenchido somente por mulheres, quando se é uma, é algo indescritível.

Espero ansiosa pelas próximas edições do Mix Femme (prometo estar mais treinada!), assim como espero que cada vez mais meninas apareçam tanto para jogar CS:GO, quanto para jogar outros games online.