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Salários antecipados e 'bichos instantâneos' embalaram Vitória até título da Série B: 'Bola não entra por acaso'

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Fábio Mota, presidente do Vitória, revela estratégia para 'retomar credibilidade': 'Pagamos um mês de salário antecipado durante toda a Série B' (2:06)

Dirigente diz que mudou a forma de agir após atletas rejeitarem atuar pelo clube (2:06)

Faltando duas rodadas para o fim da Série B, o Vitória não apenas garantiu o acesso à primeira divisão, como já confirmou o título do torneio pela primeira vez em sua história. O cenário, confirmado nos últimos dias, parecia bastante improvável cerca de um ano e meio atrás, quando o tradicional time baiano estava praticamente eliminado da Série C e tinha apenas 2% de chance de subir à B.

Mas tudo mudou. O Leão, como é conhecido, conseguiu uma grande recuperação em 2022, se classificando à segunda fase com a 7ª melhor campanha, e terminando em 2º do Grupo C, resultado que o tirou da final do torneio, mas confirmou a promoção à Série B.

Muito dessa recuperação, se deve a um nome: Fábio Mota, presidente do clube, que fez um trabalho imenso de reconstrução. O dirigente, em entrevista ao ESPN.com.br, detalhou todo o trabalho que teve nos pouco mais de dois anos no cargo.

"Eu acho que é uma ação de grupo. Eu sou líder de um grupo que veio aqui para dentro para reconstruir o clube. Assumi na pior fase da história do clube, em outubro de 2021, com seis meses de salários atrasados de funcionários e jogadores, com dívidas fiscais imensas, contas bloqueadas, mais de R$ 20 milhões de transferban. Primeiro desafio foi colocar um time para jogar no Campeonato Baiano, em janeiro. Nós usamos aí todas as relações que eu tinha com a sociedade civil, com os poderes procedentes, para que a gente pudesse reestruturar o clube. E conseguimos trazer uma série de patrocinadores, mais de 20 patrocinadores para o clube. O primeiro ponto que a gente fez foi equacionar essa questão financeira do clube".

"Hoje, o Vitória deve ser um dos únicos clubes do país que paga o salário com um mês de antecedência. Para se ter uma ideia, o salário que era para vencer dia 5 de dezembro, o time que vai entrar em campo recebeu dia 5 de novembro. Implementamos isso para resgatar o nome da instituição. Na Série C a gente teve dificuldades inúmeras. Chegamos a ter 2% apenas de chances de classificação. Fomos buscar essa classificação. E traçamos o objetivo do planejamento da Série C voltar para B. A mesma coisa esse ano, nós nunca demos prioridade às competições estaduais e regionais. A gente sabia que os recursos eram poucos. Como se diz aqui, a gente tinha uma única bala no revólver, essa bola que tem que ser disparada no Campeonato Brasileiro. E assim fizemos. Montamos um time para voltar para a Série A. O planejamento sempre foi esse. Graças a Deus, conseguimos obter o segundo acesso consecutivo. E isso foi muito bom".

"Seria o primeiro ano da história do clube que ficaria fora da Copa do Brasil, e até por isso, a gente tinha que buscar esse título. Programamos e deu certo. Fomos campeões e vamos voltar para a Copa do Brasil. Então é um sentimento muito grande de dever cumprido. Eu larguei a minha vida profissional e a minha vida pessoal e estou há dois anos me dedicando. Fiquei aqui 14 meses sem receber nenhum centavo de salário do clube. Na Série C, eu paguei hospedagem, paguei passagem do meu bolso, enfim. Então passa um filme bem grande na minha cabeça, uma história bem longa e que graças a Deus, junto com a nossa equipe, conseguimos obter êxito."

E talvez o segredo de tanto sucesso tenha se dado na vasta experiência profissional. Formado em Administração de Empresas pela Universidade Federal da Bahia, além de ser bacharel em direito, historiador e pecuarista, Fábio Mota ainda tem no seu currículo uma pós-graduação em processo civil. Como advogado, ele atuou na Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), na Federação da Agricultura e Pecuária da Bahia (Faeb), além de ter serviços prestados ao setor privado. Todo esse tempo de carreira deu expertise a ele para implementar uma estratégia arrojada para tentar recuperar a credibilidade do clube.

"Durante toda a Série B, a gente pagou um mês de salário antecipado, desde o primeiro mês de Série B. Montamos um planejamento financeiro com os nossos patrocinadores e com as vendas do clube. Era uma forma de você primeiro incentivar o atleta que está jogando no clube. Segundo, para sinalizar para o mercado que o Vitória hoje é a instituição de credibilidade, séria e que paga seus compromissos em dia. Como no passado ficamos muito tempo sem conseguir obter esses números, a gente resolveu fazer isso esse ano. E hoje não devemos salário, não deve bicho, não deve imagem, não deve a funcionário. Os fornecedores estão todos em dia, foi um esforço muito grande que fizemos. A bola não entra por acaso. Para a bola entrar, você tem que ter estrutura. Nós investimos muito no nosso Centro de Treinamento, fisioterapia, compramos equipamento para recuperar o jogador, fizemos uma nova academia. São dois anos de muito trabalho para resgatar o nosso clube", explicou, antes de citar a sua principal motivação para "mudar tudo" no Vitória.

"No primeiro ano, eu tentava trazer jogador e o cidadão dizia que não vinha, que o Vitória não pagava ninguém. Você ligava pro empresário, e ele dizia que não vinha, que não recebia comissão. Então aquilo me machucou muito e eu montei uma estratégia de resgatar a imagem do clube. Foi a forma de mostrar que o clube está sólido. Além de antecipar o salário, o bicho das vitórias a gente pagava no mesmo dia. Foi estratégia financeira que nós montamos para alcançar nossos objetivos. A partir daí a gente quitou todas as dívidas com empresários, quitamos as dívidas com jogadores do passado. Parcelamos todas. A ideia partiu daqui mesmo e da gente. Hoje eu até brinco com o jogador que se alguém for embora, tem que devolver o dinheiro ao Vitória."

Ameaças quase tiraram presidente do cargo após eliminação

Se hoje em dia o cenário é animador, no início do ano, tudo poderia ter ido por água abaixo. Por causa de uma inesperada eliminação para o Nova Iguaçu na primeira fase de Copa do Brasil, ele esteve muito perto de renunciar ao cargo de presidente por conta de ameaças da torcida.

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Presidente do Vitória, Fábio Mota diz que família foi ameaçada por torcedores no início do ano: 'Foi uma coisa muito dura'

Dirigente esteve muito pressionado e cogitou renunciar ao cargo após eliminação da Copa do Brasil

"Eu sempre fui torcedor de arquibancada. Eu só sou presidente do Vitória porque no Vitória você tem eleição direta. Eu me candidatei a presidente do conselho deliberativo, fui eleito com mais de 68% dos votos. Aí teve o afastamento do presidente e eu acabei assumindo em um primeiro momento. Depois, resolvi me candidatar, fui eleito pelo sócio-torcedor, tive mais de 70% dos votos. Eu renunciei minha vida pessoal, minha vida profissional, para vim para dentro do Vitória. Quando aconteceu aquela eliminação da Copa do Brasil na primeira fase, não estavam mais me ameaçando, estavam ameaçando a minha família, mandaram fotos dos meus filhos saindo da escola, minha filha andando no shopping. Então foi uma coisa muito dura, que criou um problema muito grande na minha família. Eu procurei a Secretaria de Segurança Pública do Governo do Estado da Bahia, que me deu todo apoio e conseguiu esclarecer bem as coisas e identificar quem era a pessoa. Depois de solucionado, eu vi que eu não poderia ter largado todo esse legado que eu construí no clube, para que outros tantos que por aqui passaram e deixaram o clube afundado, voltassem."

Festa do título com direito a Léo Santana

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Presidente do Vitória prega seriedade em 'jogo da taça' e detalha festa com direito a trio elétrico de Léo Santana: 'Vamos antecipar o carnaval rubro-negro em Salvador'

Clube já garantiu o título da Série B, mas ainda tem algumas partidas a disputar

A conquista da Série B já está garantida, mas as comemorações estão apenas começando. A entrega da taça está marcada para este sábado, no duelo com o Sport, em um Barradão completamente lotado. E mesmo que o jogo seja apenas uma festividade para o time e fundamental para o rival, que ainda sonha com o acesso, o presidente enumerou motivos para seus atletas entrarem em campo com a maior seriedade do mundo.

"O Vitória sempre entra para ganhar. Vamos receber a taça. É o primeiro título nacional do clube, os ingressos estão esgotados desde segunda-feira. O estádio vai estar cheio. Nós vamos entrar para ganhar o jogo, pode ter certeza disso, honrando a camisa do clube, independente de ser um jogo como se fosse um amistoso, mas a gente quer dar esse presente à torcida, encerrar a nossa campanha aqui dentro do nosso estádio com vitória, se manter como melhor mandante da competição, aumentar a quantidade de pontos, o nosso recorde é 71 e a gente quer passar isso agora. Maior seriedade possível com o jogo contra o Sport", disse Fabio, para finalizar.

E depois que a bola parar de rolar, além da comemoração com a taça, começa uma festa bem ao estilo baiano: "Vamos ter uma grande festa em Salvador sim, no Farol da Barra, domingo, às 16h00, desfile de trios com Léo Santana, com Oh Polêmico, com outros tantos convidados. E a gente pretende comemorar muito no domingo, antecipar esse carnaval rubro-negro em Salvador até a madrugada da segunda-feira", decretou.