"Eu trabalhei no Mané Garrincha. Foi lá que conheci o pai dele. Gestação foi acontecendo dentro daquela energia do Mané Garrincha...". Foi assim que Cíntia Ramos detalhou à ESPN como nasceu uma joia do futebol brasileiro, que aos 19 anos joga no Real Madrid e se prepara para a primeira Copa do Mundo pela Seleção Brasileira.
Estamos falando, claro, de Endrick. A revelação da base do Palmeiras é mais um personagem da série publicada pela ESPN na semana que antecede a estreia do Brasil no Mundial, com histórias de alguns dos convocados por Carlo Ancelotti.
"Dá uma oportunidade para ele. Se ele chorar, você pode tirá-lo de campo". Esta foi a frase que antecedeu a primeira vez que Endrick, ainda aos quatro anos, entrou pela primeira vez em um campo de uma escolinha de futebol para crianças, no bairro Jardim Céu Azul, em Valparaíso, no entorno do Distrito Federal.
"Ele me surpreendeu porque corria, era muito firme. Pelo fato de serem mais velhos, às vezes os meninos empurravam ele e ele não se intimidava, caía, levantava. Sempre achei ele muito diferente”, disse Marília, dona da quadra, em entrevista à ESPN.
A partir daí o "meteoro" Endrick não parou mais. Das brincadeiras nas quadras de Valparaíso, o garoto cresceu e começou a levar o futebol mais a sério. Ao lado da mãe, precisou aprender desde cedo a driblar as dificuldades impostas pela falta de dinheiro para poder treinar e manter vivo o sonho de se tornar jogador.
"Nas peneiras, que foram muitas, a gente tinha que ir de ônibus, na Vila Telebrasília, e esperar uma carona para ele poder treinar", relembra Cíntia.
"Foram dias difíceis, mas com a gente sempre do lado. O pai dele trabalhava e eu ficava responsável por levar. Tivemos muito apoio de família e amigos. É importante lembrar. Hoje temos carro, dinheiro, mas me lembro quando não tínhamos, quantas pessoas nos ajudaram...".
Uma das pessoas que viu talento em Endrick e o ajudou a alcançar voos maiores foi Écio Antunes.
"Ele era acima da média. Enquanto muitas crianças brincavam muito, ele já era focado em relação a definidor, a decidir. Só queria fazer gol", disse Écio à ESPN.
"Então, na BFA (Brasília Futebol Academia) foi onde ele teve as melhores oportunidades até chegar ao Palmeiras. Ele viajou para São Paulo com a gente uma, duas vezes".
Até a porta do Palmeiras se abrir, outras se fecharam. Endrick chegou a vestir a camisa do São Paulo, em história que se popularizou assim que o atacante explodiu. Ao não querer bancar a viagem da família para a capital, o Tricolor viu escapar um talento imenso, que acabou com as cores rivais.
Com a camisa do Verdão, Endrick se tornou um fenômeno nas categorias de base, ultrapassou barreiras e chegou ao time principal em 2022, quando tinha apenas 16 anos.
Foi no mesmo período que o "menino precoce" realizou um sonho de infância e foi negociado com o Real Madrid por incríveis 72 milhões de euros (R$ 411 milhões, segundo o câmbio da época). Endrick só foi à Espanha dois anos depois, ao chegar à maioridade.
No período, ele conquistou dois Campeonatos Brasileiros, dois Campeonatos Paulistas e uma Supercopa do Brasil. Na chegada ao Santiago Bernabéu, Endrick foi recebido com estádio lotado, cerimônia com Florentino Pérez e status de maior joia do futebol brasileiro dos últimos anos.
Mas nem tudo foram flores para Endrick. Com pouco espaço sob o comando de Carlo Ancelotti no Real Madrid e, posteriormente, com Xabi Alonso, o garoto ainda sofreu uma lesão séria em 2025 e precisou entender que, no futebol, às vezes vale um passo atrás para dar dois à frente no futuro. Isso significava deixar a Espanha.
A bola da vez foi o Lyon. E a mãe, mais uma vez, esteve lá para aconselhar o filho a aceitar deixar o Real Madrid. "Tivemos momentos difíceis, de não entrar, de não jogar, dói para uma mãe, você não tem o que fazer. Eu só dava o meu ombro amigo".
"Falava para ele que no momento certo aconteceria. Era um processo, processo da vida, de amadurecimento, que as coisas aconteceriam".
E foi no Lyon que tudo mudou para Endrick. O brasileiro brilhou na França, recuperou prestígio, teve minutagem e conseguiu o principal objetivo: ser visto por Ancelotti e garantir uma vaga entre os 26 convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo.
À ESPN, Cíntia colocou o filho como exemplo para os demais e mesmo após a conquista da vaga na Copa, ela reitera que a "caminhada ainda não terminou".
"Ele era merecedor. Tinha o mérito de sempre buscar melhorar. Sempre focado, disciplinado, é um orgulho para uma mãe. Espero que muitos pais possam sentir a emoção que estou sentindo agora".
"É muito gratificante. Na vida, o negócio é não desistir. Perseveramos juntos, muitos sorrisos, choros, vitórias, alguns obstáculos, mas continuamos de pé e vencendo a cada dia. Essa caminhada não terminou, mas é um momento épico na vida dele e de quem torce por nós", finalizou.
