Léo Pereira: o menino bom de matemática que era meia, superou drama familiar e virou zagueiro de Copa

Leonardo tinha 12 anos e responsabilidades demais para alguém de sua idade. O dia a dia era conciliar os estudos, o cuidado com duas irmãs mais novas e uma carreira bem iniciante no futebol. Se a vida já era pesada, um incêndio na casa da mãe pendeu mais a balança para o lado da dificuldade. Seria possível superar tudo isso para correr atrás do próprio sonho?

Se viagens no tempo existissem, o garoto poderia navegar até 2026 e descobrir: sim, é possível. Leonardo é ninguém menos que Léo Pereira, zagueiro titular do Flamengo, convocado para a Seleção Brasileira e personagem do novo capítulo da série publicada pela ESPN, que conta a trajetória daqueles que jogarão a Copa do Mundo nos Estados Unidos, no México e no Canadá.

Muito do que vive hoje, este sonho de representar o país em um Mundial, existe por conta de um clube amador que entrou na vida do pequeno Léo. Aos dez anos, ele chegou ao Trieste, uma equipe bancada por investimento externo e que hoje está consolidada como um projeto de sucesso na formação de atletas no Paraná.

Como ele morava em Curitiba, não podia ficar alojado nas instalações do Trieste, até que um incêndio na casa da mãe mudou totalmente a história, como o próprio Léo Pereira contou em março, na primeira entrevista como jogador da Seleção.

"Tinha 12 para 13 anos, era de Curitiba e o Trieste não aloja quem nasce na cidade. Eu tinha minha casa naquele momento, mas a casa da minha mãe pega fogo nessa época e o Trieste abre as portas para mim", contou o zagueiro, visivelmente emocionado.

"Era uma época complicada. Eu tenho duas irmãs que são especiais e foi um período de muita dificuldade, porque eu tinha que intercalar entre cuidar delas e treinar, então desde novo tive essa responsabilidade como um dos mais velhos. Foi um detalhe importante e sempre vou ser grato ao Trieste".

Quem abriu as portas não esquece do pequeno Léo, um garoto que não tinha lá tão boas notas na escola, embora tenha evoluído e passado até a ensinar matemática aos outros.

"Quando ele chegou aqui, foi um susto, pela condição que ele até já contou", relembra Nelma Stival, uma das fundadoras do projeto. "Ele tinha muitas dificuldades escolares, faltas, até pela condição que passava no momento. Apesar das notas não serem tão boas assim, ele era um menino muito inteligente. A única matéria em que ele se destacava era Educação Física, mas acabou virando meu professor de matemática. Era muito bom nisso".

Léo Pereira guardou o destaque que faltava na sala de aula para os campos. Começou no Trieste como meia, com a camisa 7 guardada até hoje por Rafael Stival como um troféu, até ser recuado aos poucos. De meia para volante. De volante para lateral. De lateral para zagueiro.

"Ele nunca esqueceu da gente", conta Rafael, em entrevista exclusiva à ESPN, quando não conteve a emoção ao ouvir o reconhecimento público de Léo Pereira ao Trieste. "Para nós foi uma declaração de amor e reconhecimento, que emocionou a todos, porque tomou uma proporção assim... É muito difícil você ver um atleta falando como ele falou, de onde veio, quem ajudou. E num momento tão significativo, ele lembrou da gente".

O Trieste foi o ponto de partida. Léo Pereira vestiu outras camisas na carreira de atleta. Athletico-PR, Guaratinguetá, Náutico, até mesmo Orlando City, onde, por coincidência, conheceu o empresário Ricardo Scheidt, com quem trabalha até hoje.

"Eu fui fazer uma reunião com outro jogador brasileiro que jogava com ele, o Fernando Timbó. E aí, fui encontrar com o Fernando e ele falou para ficar na casa dele. Cheguei lá e o Fernando dividia apartamento com o Léo Pereira. A gente não se conhecia pessoalmente, mas ficou amigo".

A amizade virou parceria de trabalho e fez Léo alçar voos maiores. Em 2021, uma transferência para o Flamengo, clube em que o zagueiro teve um início difícil, mas, apesar das inúmeras chances para sair, fez de tudo para se consolidar.

"Tiveram várias propostas. Nottingham Forest, West Ham, Besiktas, Cruz Azul, Monterrey. Al Nassr também, antes do Laporte ser comprado, eles fizeram uma oferta e na época o [Jorge] Sampaoli falou que não abria mão do Léo. Eles chegaram no valor que o Flamengo aceitaria, mas não deu certo", conta Scheidt.

Aos poucos Léo ganhou espaço no Flamengo, a ponto de se tornar uma figura indispensável na defesa rubro-negra que venceu praticamente todos os títulos em 2025. Faltava a cereja do bolo: uma chance na Seleção Brasileira. "A gente ficava se questionando se iria ter essa chance perto de outro ciclo de Copa", admitiu o empresário. "Ele dizia: 'Se eu não for agora, acho que eu não vou mais'. O que acontece? Será que está faltando uma coisa? O que tem de errado? A gente buscava entender".

A oportunidade apareceu em março, na última convocação de Carlo Ancelotti antes da Copa do Mundo. Por questões físicas envolvendo os titulares Marquinhos e Gabriel Magalhães, Léo Pereira foi de surpresa da lista a titular contra França e Croácia. A personalidade mostrada no dia a dia cativou a comissão técnica, que o incluiu no grupo da Copa do Mundo.

Uma história de superação, como tantas outras, com chance de final feliz. A quilômetros da amada Curitiba, Léo correrá atrás de um sonho que nenhum drama foi capaz de tirar.