Brasil na Copa do Mundo de 1962: Seleção é bicampeã no ritmo de Garrincha e malandragens dentro e fora

Seleção Brasileira campeã da Copa do Mundo de 1962 Getty Images

Quem poderia parar a Seleção Brasileira de Pelé e Garrincha? A pergunta ecoava o mundo bem antes da era digital permitir tamanhos debates. A resposta foi descoberta em 17 de junho de 1962: absolutamente ninguém, ainda que tenham conseguido separar a maior dupla de todos os tempos.

Campeão em 1958, o Brasil chegou com sobras para tentar o bicampeonato que apenas a Itália havia conseguido, em 1934 e 1938. O time era basicamente o mesmo que tinha levantado a taça quatro anos antes, na Suécia, com pequenas exceções no banco de reservas: Coutinho, parceiro de Pelé no Santos, e Amarildo, companheiro de Garrincha, Didi e Zagallo no Botafogo, eram as principais novidades.

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O trabalho deu tão certo na Copa anterior que foi mantido quase que integralmente para o Mundial do Chile. Paulo Machado de Carvalho seguiu como líder da comissão técnica, que agora era treinada por outro profissional. Saiu Vicente Feola, com problemas de saúde, entrou Aymoré Moreira. Esperto, o novo comandante nem se deu ao luxo de buscar uma renovação e apostou na base de 1958, ainda que muitos já estivessem veteranos.

"O Brasil possui hoje uma equipe superior a de 1958. Não creio que haja ninguém que os detenha", chegou a declarar Jimmy Murphy, técnico do Polônia e um dos sparrings da Seleção antes do torneio, que voltava à América do Sul após a tragédia de 1950 no Maracanã.

A estreia foi positiva: 2 a 0 sobre o México, gols de Zagallo e Pelé (que deu a assistência para o primeiro tento). No auge da forma física e técnica, o Rei, que levaria o Santos aos títulos mundiais em 1962 e 1963, parecia imparável. Mas a defesa da Tchecoslováquia conseguiu neutralizar o camisa 10 da pior maneira possível e o tirou machucado de campo ainda no primeiro tempo da segunda partida.

Pelé não voltaria a atuar naquela Copa e teria que ser substituído por alguém que já estava na delegação. Aymoré Moreira escolheu Amarildo, muito pelo entrosamento com os companheiros de Botafogo, numa troca que embalou o bicampeonato mundial.

Contra a Espanha, Rodríguez colocou a Seleção em desvantagem. A situação ficaria ainda pior, se não fosse Nilton Santos: o lateral cometeu pênalti em Collar, mas, malandramente, deu um passo adiante sem que o árbitro percebesse. A falta dentro da área virou fora, o Brasil ganhou embalo e virou a partida com dois gols de Amarildo.

A ausência de Pelé exigiu que o outro craque da companhia assumisse as rédeas do time. Foi o que Garrincha fez a partir das quartas de final. Agora com a camisa 7 que voava todos os fins de semana no Maracanã, o ponta marcou duas vezes na vitória por 3 a 1 sobre a Inglaterra (Vavá completou o placar). A dupla funcionaria de novo na semifinal contra o Chile, com vitória por 4 a 2, dois gols de cada.

Garrincha acabaria expulso no duelo com os chilenos, o que o impediria de jogar a final contra a mesma Tchecoslováquia. Só que, em uma época ainda sem cartões, era preciso um julgamento dias depois para ratificar a suspensão do atacante. Até que a segunda malandragem do Brasil mudou a história daquela decisão.

Esteban Marino, assistente que recomendou a expulsão de Garrincha, desapareceu do Chile momentos após a semifinal e não pôde testemunhar no julgamento armado pela Fifa. Até hoje, existem histórias de que Esteban recebeu dinheiro da CBD para ir embora sem deixar rastros. Certo é que, sem a assinatura do auxiliar no documento, Mané foi liberado para disputar a final.

Garrincha, com 38 graus de febre, foi a campo e não marcou naquela final, mas seria importante em mais uma virada. Masopust colocou os tchecos em vantagem, mas Amarildo, Zito e Vavá confirmaram a vitória brasileira, o bicampeonato mundial e uma conquista para lá de histórica. Sem Pelé, a Seleção foi capaz de superar tudo que apareceu pelo caminho para defender o título.

Os convocados da Seleção para a Copa:

  • Goleiros: Gilmar (Santos) e Castilho (Fluminense)

  • Laterais: Djalma Santos (Palmeiras), Nílton Santos (Botafogo), Jair Marinho (Fluminense) e Altair (Fluminense)

  • Zagueiros: Mauro (Santos), Bellini (São Paulo), Zózimo (Bangu) e Jurandir (São Paulo)

  • Meio-campistas: Zito (Santos), Didi (Botafogo), Zequinha (Palmeiras) e Mengálvio (Santos)

  • Atacantes: Garrincha (Botafogo), Zagallo (Botafogo), Vavá (Palmeiras), Pelé (Santos), Jair da Costa (Portuguesa de Desportos), Coutinho (Santos), Amarildo (Botafogo) e Pepe (Santos)

Técnico: Aymoré Moreira

A campanha da Seleção na Copa:

Brasil 2 x 0 México
GOLS: Zagallo e Pelé [BRA]

Brasil 0 x 0 Tchecoslováquia

Brasil 2 x 1 Espanha
GOLS: Amarildo (2x) [BRA]; Rodríguez [ESP]

Brasil 3 x 1 Inglaterra
GOLS: Garrincha (2x) e Vavá [BRA]; Hitchens [ING]

Brasil 4 x 2 Chile
GOLS: Garrincha (2x) e Vavá (2x) [BRA]; Toro e Sánchez [CHI]

Brasil 3 x 1 Tchecoslováquia
GOLS: Amarildo, Zito e Vavá [BRA]; Masopust [TCH]