Vice em casa, derrota sofrida em semifinal, eliminações precoces. A história da Seleção Brasileira em Copas do Mundo não era das melhores mesmo sendo a única a disputar todas as edições. Mas tudo mudou graças a um combo formado por uma geração de craques, uma camisa que entrou para a história e uma dupla que jamais perdeu um jogo junto em toda a história.
Pelé e Garrincha eram apenas dois garotos (um de 17, outro com 25) quando Vicente Feola os convocou para o Mundial de 1958. A classificação veio após partidas duras contra o Peru, com o gol salvador saindo dos pés de Didi, diante de 120 mil pessoas no Maracanã, em abril de 1957. Até ali, nem Garrincha e muito menos Pelé eram figuras absolutas dentro da Seleção. Ao contrário: ambos embarcaram para a Copa da Suécia como reservas.

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Mas algo estava prestes a mudar na equipe verde e amarela. Eliminado nas quartas do Mundial de 1958, o Brasil naturalmente mudou muito o planejamento para 1958, o que incluiu pensar em detalhes extracampo. A adição de Paulo Machado de Carvalho, empresário que décadas depois batizaria o Estádio do Pacaembu, ofereceu um profissionalismo nunca antes visto na CBD e permitiu à Seleção uma preparação bem mais digna do que as anteriores.
A única parte aleatória das semanas que antecederam a Copa, na verdade, foi um imenso acerto que até hoje é um mito sem explicação. Como a CBD não enviou a numeração oficial que os jogadores usariam no torneio, coube a Fifa definir, aleatoriamente, as camisas dos brasileiros. Garrincha, 7 no Botafogo, ficou com a 11; Gilmar, goleiro que tradicionalmente é o 1, acabou com a 3. Mas Pelé, um garoto cuja adolescência sequer havia partido, herdou a 10.
O fim da história todos sabem: Pelé ressignificou a camisa 10 no mundo do futebol e atrelou a ela uma responsabilidade muito maior do que o funcionário da Fifa poderia imaginar ao sortear quem ficaria com qual número da Seleção Brasileira.
Com uma delegação que incluia psicólogo, dentista e massagista, o Brasil iniciou a campanha na Copa de 1958 sem encantar tanto, apesar dos 3 a 0 sobre a Áustria na estreia. Empate sem gols com a Inglaterra no segundo jogo fez com que Feola pensasse em mudanças na equipe titular. Era hora de ouvir os apelos externos: era hora de usar Garrincha e Pelé. Azar de Joel e Mazzola, os sacados do time.
Foram necessários somente três minutos para a Seleção mostrar ao mundo que aquela Copa tinha dono. Em 90 segundos, Garrincha e Pelé acertaram duas vezes a trave de Yashin, Mané humilhou o lateral soviético com uma sequência de cinco dribles e Vavá abriu o placar, após lançamento de trivela de Didi, bem mais solto graças à entrada de Zito no meio-campo.
"Aqueles foram os melhores três minutos que o futebol já presenciou", escreveu o jornalista Gabriel Hanot, presente no estádio em um dos momentos mais incríveis que o esporte proporcionou. O Brasil venceria a União Soviética por 2 a 0, com mais um gol de Vavá, e avançaria em primeiro lugar do Grupo 4.
Já com Garrincha e Pelé intocáveis, a Seleção fez um mata-mata impecável. Nas quartas, bateu País de Gales por 1 a 0, com o primeiro gol do Rei (ainda sem a majestade) no torneio. Pelé daria show mesmo na semifinal contra a França, ao marcar três vezes no triunfo por 5 a 2. Vavá e Didi completaram o massacre sobre a equipe de Just Fontaine, artilheiro daquela Copa.
Assim o Brasil alcançou a final, bem mais preparado do que em 1950 e dessa vez como desafiador do time da casa. Havia só um problema a ser resolvido: como brasileiros e suecos tinham uniformes semelhantes (camisas amarelas e calções azuis), os visitantes foram obrigados a buscar novas roupas para a final.
Paulo Machado de Carvalho liderou a busca por uma vestimenta nova e, em uma loja na Suécia, achou um jogo de camisas azuis. Uma força-tarefa garantiu que os números fossem bordados a tempo de serem usados. Mas como convencer os jogadores que aquilo não traria azar justamente na decisão do título?
"O doutor Paulo Machado, que era muito esperto, disse para a gente: 'Vamos trocar pela camisa azul porque é a cor do manto da Nossa Senhora'. Aí acabou o receio de trocar de camisa", revelou Djalma Santos, em entrevista à Globo em 2008.
De azul, o Brasil começou nervoso e viu a Suécia abrir o placar logo aos 4 minutos. Um baque que qualquer um sentiria. Qualquer um, menos Didi. O craque e inventor da "folha seca", chute com efeito que castigava qualquer goleiro, foi até a baliza brasileira, pegou a bola e caminhou lentamente com ela até o meio-campo. Enquanto andava, arrumava o posicionamento do time e passava tranquilidade.
O recado foi entendido à perfeição. Antes do intervalo, a Seleção já vencia por 2 a 1, gols de Vavá, e ampliaria com Zagallo e Pelé. A dez minutos do fim, a Suécia tentaria uma última cartada ao diminuir o placar, mas o Rei do Futebol, o mais jovem a marcar em uma Copa e também em uma final do torneio, decretaria a goleada por 5 a 2.
A Taça Jules Rimet era, enfim, do Brasil.
Os convocados da Seleção para a Copa:
Goleiros: Gilmar (Corinthians) e Castilho (Fluminense)
Laterais: Djalma Santos (Portuguesa), De Sordi (São Paulo), Nílton Santos (Botafogo) e Oreco (Corinthians)
Zagueiros: Bellini (Vasco), Orlando (Vasco), Mauro Ramos (São Paulo) e Zózimo (Bangu)
Meio-campistas: Zito (Santos), Dino Sani (São Paulo), Didi (Botafogo) e Moacir (Flamengo)
Atacantes: Pelé (Santos), Garrincha (Botafogo), Joel (Flamengo), Vavá (Vasco), Mazzola (Palmeiras), Zagallo (Flamengo), Pepe (Santos) e Dida (Flamengo)
Técnico: Vicente Feola
A campanha da Seleção na Copa:
Brasil 3 x 0 Áustria
GOLS: Mazzola (2x) e Nilton Santos [BRA]
Brasil 0 x 0 Inglaterra
Brasil 2 x 0 União Soviética
GOLS: Vavá (2x) [BRA]
Brasil 1 x 0 País de Gales
GOL: Pelé [BRA]
Brasil 5 x 2 França
GOLS: Vavá, Didi e Pelé (3x) [BRA]; Fontaine e Piantoni [FRA]
Brasil 5 x 2 Suécia
GOLS: Vavá (2x), Pelé (2x) e Zagallo [BRA]; Liedholm e Simonsson [SUE]
