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OPINIÃO: Ancelotti e os tempos da Copa, na busca pelo melhor Brasil

Os dias anteriores ao jogo contra a Croácia foram poluídos por um debate que o futebol jamais aceitou ou aceitará.

A ideia de que o único jogo que interessa à seleção brasileira é a estreia na Copa do Mundo, uma obviedade dita por Ancelotti após a derrota para a França, levou a conclusões distorcidas sobre a melhor maneira de se aprontar para um Mundial.

Como se partidas amistosas não importassem e, pior, como se existisse a escolha entre ganhar esse tipo de encontro ou conquistar a Copa. É a versão mais atualizada do falso dilema “jogar bem e perder versus jogar mal e ganhar”. É evidente que o único resultado que fará diferença para a seleção é o primeiro jogo da fase de grupos, dia 13 de junho, contra o Marrocos.

Dispensar o que acontecerá até lá é uma absoluta incoerência, em especial por parte de quem, apenas para citar um exemplo, costuma pedir que o Brasil enfrente seleções europeias em amistosos preparatórios como antídoto para todas as eliminações em Mundiais desde o último troféu, em 2002.

Compreende-se que Ancelotti se preocupe em diminuir a pressão e prefira, em outro exemplo, olhar para sinais positivos de uma apresentação sofrível como contra os franceses. O problema é a leitura do que ele diz como um indiciamento dos testes, mesmo porque essas são as únicas ocasiões em que jogadores podem reivindicar a presença na convocação final.

Observemos o caso de Danilo Santos, provavelmente o jogador (ao lado de Luiz Henrique) que melhor aproveitou uma Data Fifa em que o Brasil foi amplamente superado no encontro com uma das favoritas e deixou uma imagem bem mais agradável diante da Croácia, porque o time teve momentos interessantes e venceu.

Além de oferecer segurança a Ancelotti durante a volta de lesão de Bruno Guimarães e uma opção de substituição de Casemiro, por necessidade, Danilo também permitiria ao treinador da seleção desenhar o time com um atacante a menos.

Não é pouca coisa e não seria tanto se o meio-campista do Botafogo não se apresentasse tão bem na vitória dessa terça-feira (31). Ancelotti anunciou a convocação antecipada de um Danilo, o do Flamengo. O campo pode ter anunciado a convocação de outro. A questão que se impõe não é o que “se prefere” ganhar, porque ninguém em sã consciência deixaria de ser campeão do mundo por opção. O ponto é se há tempo para que Ancelotti e os jogadores que ele escolher construam, juntos, uma equipe suficientemente capaz de conquistar o Mundial.

Em sua defesa, a proximidade parece não incomodar o italiano, que já assumiu o cargo com prazo curto para a importância da tarefa. Ocorre que os tempos da Copa do Mundo são peculiares, distintos. Não apenas durante o torneio, mas no trecho final dos ensaios, até mesmo os treinadores mais experientes devem questionar as próprias convicções como um exercício da busca do que funciona. Por falar em tempo, convém considerar que a seleção brasileira sofreu o empate num contra-ataque aos 84 minutos e encontrou a vitória num pênalti duvidosíssimo e um gol nos acréscimos. Vencer é sempre bom, mas os detalhes importam.