Passado contra futuro? Talvez seja demasiado forte resumir assim, mas é fato que o amistoso desta quinta-feira (26) entre Brasil e França, em Boston, nos Estados Unidos, opõe escolas que dominaram o futebol mundial nas últimas décadas.
O lado brasileiro quase dispensa apresentação. O talento de rua, do drible e improviso que atingiu o topo do planeta pelas individualidades e deu origem ao slogan do "Joga Bonito", que passa por Pelé e Garrincha, segue com a geração de Rivellino, Tostão e Gerson até chegar a Zico, Sócrates, Romário, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho.
Mas como os franceses, até então uma seleção quase irrelevante até meados dos anos 1980, entraram tão forte na disputa a ponto de serem considerados os maiores reveladores de talentos do futebol atual? A resposta passa por uma pacata região próxima a Paris que mudou o tamanho do país no esporte.
Localizada ao sudoeste da capital, a Clairefontaine Academy nada mais é que o Centro Nacional de Futebol da França. Uma escola, ou por que não dizer uma fábrica, capaz de transformar aspirantes a jogadores em craques do esporte. Quem duvida, basta percorrer os corredores do espaço para dar de cara com duas joias reveladas por lá: Thierry Henry e Kylian Mbappé.
"Existe uma diferença entre jogar futebol e ser um jogador de futebol. Quando você chega lá, é essa mudança que eles fazem", declarou Henry, campeão do mundo e da Eurocopa pela seleção, lenda de Arsenal e Barcelona e hoje um dos comentaristas de mais prestígio no futebol europeu.
Desde 1973, virou lei na França que todos os clubes profissionais precisam ter também um centro de categoria de base. Dessa forma, o país estruturou-se com academias por todo seu território atrás de talentos entre 15 e 20 anos. Com o passar do tempo, a busca foi além e chegou até a camadas mais jovens da população.
O primeiro sinal de sucesso veio com o título da Euro em 1984, ganho pela geração de Michel Platini. Até que o movimento para virar protagonista surgiu quatro anos depois, quando Francois Mitterand, presidente da França entre 1981 e 1995, inaugurou Clairefontaine, o pilar que faltava para sustentar os Bleus.
"Aqueles prédios são mais que uma ferramenta fantástica", declarou Gerard Houllier, ex-comandante do Liverpool e que fez trabalhos para a Federação Francesa de Futebol em meados dos anos 1990. "Eles são uma visão, uma filosofia, um lugar que representa unidade".
Clairefontaine reúne basicamente crianças de no mínimo 13 anos, que treinam de cinco a seis dias por semana para depois jogarem por seus clubes locais em dias livres. A meta dos professores e treinadores que trabalham no local é melhorar a técnica, a tomada de decisão e a agilidade desses garotos, que naturalmente tornam-se mais inteligentes para quaisquer particularidades que o jogo exija.
Por regra, o esquema adotado é sempre o 4-3-3, por entenderem ser o que mais oferece espaço e flexibilidade no futebol. A formação dos talentos é baseada em três anos: o primeiro de desenvolvimento individual, o segundo para evolução em campos menores e o terceiro em dimensões maiores.
Henry, filho mais famoso até a chegada de Mbappé, é apenas um dos formados por ali. Louis Saha e Nicolas Anelka são outros de sua geração, que segue até a atual safra. Há também exemplos de garotos que passaram por alá, mas não completaram seu treinamento, como Kanté e Martial.
Quase 40 anos depois, a França colhe os frutos. Sua seleção, que sequer entrava no rol dos grandes ao lado de Itália e Alemanha, agora tem duas Copas (1998 e 2018), mais uma Euro (2000), fora campanhas de destaque, como a do vice no Mundial de 2022, no Qatar. E não é só a seleção nacional que se beneficia disso.
Na Copa de 2018, disputada na Rússia, mais de um quarto dos jogadores que disputaram as semifinais saíram de academias francesas, o que inclui, por exemplo, atletas da talentosa geração da Bélgica, eliminada justamente pelos Bleus. O sucesso é inegável e brota frutos em todo o país.
Hoje, soa impressionante a quantidade de talentos que Didier Deschamps tem à disposição para escalar a França. Mbappé, claro, é um patamar acima, mas o que dizer de uma seleção que ainda possui nomes como Ousmane Dembélé, Michael Olise, Rayan Cherki, Hugo Ekitiké, Bradley Barcola, William Saliba, Mike Maignan e tantos outros que brigam por espaço na próxima Copa?
Sim, o Brasil ainda é um celeiro imenso no futebol mundial. Mas a França, hoje, não deixa nada a desejar para ninguém.
