A manutenção do time do meio de campo para frente supunha, ao menos em tese, uma repetição do desempenho inicial da seleção brasileira no amistoso de sábado passado (15), contra Senegal. Não foi necessário aguardar muito tempo para notar que a abordagem defensiva da Tunísia pretendia impedir essa ideia, o que permite, em retrospecto, observar que a postura dos senegaleses provavelmente pecou pelo excesso de coragem. As linhas compactas do time norte-africano negaram espaço aos móveis atacantes do Brasil, num bom e necessário exame da capacidade ofensiva do conjunto de Carlo Ancelotti. E não só: a Tunísia também foi competente ao punir um eventual erro brasileiro, como se viu quando Wesley falhou no domínio da bola na intermediária de ataque, oferecendo uma ocasião valiosa de gol.
Todos os jogadores tunisianos estavam no campo de defesa quando a bola foi recuperada, e, mesmo obrigados a correr na direção do gol de Bento, os defensores da seleção tinham vantagem numérica (5 x 4). Ocorre que o passe de Ali Abdi, lateral do Nice, da França, fez a trajetória perfeita para que Hazem Mastouri dominasse na área e inaugurasse o marcador. O gol atuou como um alarme, no sentido de despertar um Brasil que não se percebia na Decathlon Arena. Com um índice de posse acima dos 70%, a seleção trocou quase o triplo dos passes tunisianos e finalizou 12 vezes. O empate, porém, se originou num escanteio. O árbitro francês Jérôme Brisard foi ao VAR para checar um toque de mão ao final do primeiro tempo e talvez tenha sido gentil demais com as pretensões brasileiras. Estêvão cobrou um pênalti impossível a qualquer goleiro, conferindo ao jogo um resultado parcial mais justo: 1 x 1.
Vitor Roque e Danilo abriram o segundo tempo de substituições no Brasil, logo na volta do intervalo. Mais tarde, entraram Fabrício Bruno – por lesão de Militão – , Fabinho e Lucas Paquetá, os dois últimos nos lugares da dupla imprescindível de volantes, Casemiro e Bruno Guimarães. Pouco mudou. O Brasil seguiu melhor e o jogo continuou difícil, especialmente porque a Tunísia foi capaz de sustentar sua abnegação defensiva. Um caminho para a vitória pareceu disponível com outro pênalti, após Vitor Roque desarmar Ferjani Sassi e ser derrubado na área. Na troca do batedor, a chance voou por cima do travessão. Batida defeituosa de Paquetá, encarregado por Ancelotti da cobrança mesmo com a presença de Estêvão. É preciso salientar a repetição de um padrão dos últimos amistosos. O Brasil baixa o ritmo nas segundas partes, perde intensidade e, mesmo superior, sofre com a comparação com si próprio. Nem a entrada de Luiz Henrique, normalmente capaz de desequilibrar em movimentos individuais, teve influência nos minutos finais em Lille.
Ainda assim, Estêvão, confortável como se jogasse com este uniforme há décadas, teve o gl decisivo evitado pela trave nos acréscimos. Mesmo que a bola entrasse, ou que a cobrança de Paquetá determinasse a vitória, a última atuação da seleção em 2025 deixaria, como deixou, ponderações sobre as dificuldades diante de um sistema defensivo forte como a Tunísia orgulhosamente exibiu.
