Uma das grandes virtudes de Carlo Ancelotti como treinador talvez não esteja na forma como se relaciona com jogadores, mas com o andar de cima. O italiano, membro honorário da elite histórica de sua profissão, tem no currículo serviços – e troféus – prestados a alguns dos dirigentes mais poderosos do futebol. No Parma, Ancelotti trabalhou sob o comando da família Tanzi, fundadora da Parmalat, e com os Agnelli, na Juventus; serviu ao Milan de Silvio Berlusconi e ao Chelsea, de Roman Abramovic; produziu títulos para o reinado catari no Paris Saint Germain e o de Florentino Pérez no Real Madrid. Um de seus segredos? “Aprendi que nenhum esquema de jogo é mais importante do que o presidente do clube”, palavras do novo técnico da seleção brasileira em seu livro “Liderança Tranquila”, lançando no Brasil em 2018 pela editora Grande Área.
Ancelotti é o que o se chama no futebol de “homem de clube”; um treinador que sabe onde pisa e se adapta às diferentes forças que operam em seu âmbito de trabalho, sejam elas as circunstâncias culturais que devem ser respeitadas ou os caprichos de cartolas que precisam ser atendidos. Talvez não haja outro treinador tão hábil na administração do ambiente, das rotinas e dos egos, e, ao mesmo tempo, tão respeitado pelos jogadores. A conduta sóbria e o discurso calmo, como companheiros das conquistas em diferentes países do primeiro mundo do futebol, geraram uma persona pública que o apresenta como um sábio do jogo. Mais do que isso, Ancelotti é um tranquilizador de ambientes caracterizados pela competição selvagem e por comportamentos reprováveis.
A aventura no Brasil é intrigante por diversos fatores. Pelo duplo ineditismo de seu primeiro trabalho numa seleção que jamais foi dirigida por um estrangeiro, pelo contrato inicialmente de apenas um ano – o que, em bom português, é um aluguel premium de sua capacidade profissional para entregar uma Copa do Mundo ao único país que não pode deixar de vencê-la – e pela convivência com o próximo dirigente a quem deverá satisfazer: Ednaldo Rodrigues, o presidente que inaugurou a era dos técnicos interinos na seleção. O fetiche de Rodrigues pelo mister finalmente contratado alimenta a curiosidade sobre quem receberá ordens de quem. Diferentemente de Berlusconi, Abramovich e, em certa medida, Florentino, o presidente da CBF não é o proprietário da seleção.
Enrascado em diferentes esferas, Rodrigues implora que Carlo o salve. Não importa que um ano seja muito pouco ou que a seleção, antes mesmo de ganhar, precise jogar bem. Políticos do futebol não perdem tempo com tais assuntos. A cartada por Ancelotti é a aposta na sexta estrela que iludiu outros cartolas de triste memória e que Rodrigues enxerga como seu ticket para uma cadeira iluminada na história. Por esse ângulo, é provável que a gestão que encolheu a seleção brasileira de futebol permita, ao menos, que seu próximo treinador trabalhe em paz. Ancelotti é um “homem de clube”, sim, mas tem largura de costas para não tolerar certas decepções e até alguma experiência com o jeito brasileiro de fazer futebol.
Num trecho de “Liderança Tranquila”, ele relata um episódio no Paris Saint-Germain, quando Leonardo, executivo de futebol, o chamou para dizer que ele seria demitido se não vencesse o próximo jogo. O time venceu, Ancelotti prosseguiu, mas, decepcionado, comunicou ao clube que sairia no final da temporada. “Você é o chefe, então é óbvio que tem o direito de demitir quem quiser – mas faça isso como uma pessoa adulta”, escreveu. Será interessante a convivência na Barra da Tijuca.
