A seleção brasileira conquistou o tetracampeonato na Copa do Mundo de 1994 com um elenco recheado de nomes marcantes e importantes na história do futebol. Apesar disso, muitos ainda apontam para um jogador como o grande responsável pela Canarinho ganhar o título: Romário de Souza Faria.
O camisa 11 foi o artilheiro do time naquela campanha, com cinco gols, sendo dois no mata-mata contra Holanda e Suécia, além de uma memorável assistência para Bebeto nas oitavas contra os Estados Unidos. Sem contar a importância para a classificação contra o Uruguai, quando o Brasil estava até ameaçado de nem ir ao Mundial.
Mas, afinal, o Baixinho ganhou aquela Copa "sozinho"? Para o grupo, isso não é verdade – e o próprio Romário, apesar da fama de "marrento", concorda com os colegas.
No especial "O Tetra pelo Tetra", disponível integralmente no Disney+, o ex-atacante admitiu que foi "o cara" na campanha e que viveu seu auge naquele mês, mas que isso só foi possível pelo trabalho de todo o time.
“Tenho bastante consciência do que representei naquela Copa para a seleção. Sim, eu fui o cara. Realmente, foi o auge da minha vida. Fisicamente, tecnicamente e psicologicamente, aquele ano, aquele mês específico, ali eu me doei de tudo”, disse.
“O grupo entendeu que, para ser campeão, precisava correr um pouco mais para que eu e Bebeto pudéssemos correr mais para frente do que para ajudar na marcação. Isso foi importante, porque vocês sabiam que a gente ia resolver, e a gente tinha consciência de que os outros oito, as coisas iam encaixar. E encaixavam”, seguiu.
“Eu fui o cara daquela Copa? Fui. Foi meu melhor momento. Mas tudo aquilo aconteceu porque o grupo estava disposto a se sacrificar. Cada um por si e um pouco por cada um. O grupo se sacrificou por mim e Bebeto, assim como nós pelo grupo. O grupo estava acima de qualquer coisa. E o objetivo foi conquistado”, completou.
A tática, inclusive, era clara: Bebeto e Romário livres na frente e os outros oito jogadores atrás da linha da bola quando a posse era do adversário. Fato confirmado pelo próprio Carlos Alberto Parreira, o técnico daquela geração.
“Não foi campeão do mundo por acaso. Eu era o responsável por dar uma definição tática. Eu fazia questão de ter oito atrás da linha da bola, isso para mim era fundamental. Dois volantes, dois caras de lado... Perdeu? Recompõe, ficam os dois na frente (Bebeto e Romário), e a gente sai. Simples, mas para botar em prática não era fácil”, revelou o treinador.
Um dos jogadores que ganhou a titularidade durante o mata-mata, Branco relembrou que, durante a preparação na Granja Comary, os treinos até ficaram apelidados pejorativamente por aqueles que os acompanhavam. O plano, porém, acabou dando certo taticamente.
“Lembra que o Parreira falava: ‘quem toma menos gol, ganha a Copa’? As pessoas não lembram como, lá na Granja (Comary), apelidaram o treino dele como ‘chático’. Que era tão chato que repetia inúmeras vezes. Eram os quatro jogadores de trás e os cabeças de área. E ele ia preenchendo para fechar, consolidar lá atrás e largar (para Bebeto e Romário). Nós tivemos uma noção tática muito forte. Com o passar do tempo, deram o braço a torcer”, afirmou.
Peça-chave na montagem dessa tática, Mauro Silva argumentou que esse tipo de sacrifício era importante, também, pela força que outras seleções tinham.
“Acabou que todo mundo jogou pelo Tetra. Mas é evidente que são dois protagonistas. Era um grupo muito forte, e não se ganha uma Copa sem um grupo muito forte. Agora, quando você tem dois atacantes como Bebeto e Romário, a chance de você não marcar um gol, com Jorginho apoiando, com Leonardo, é muito pequena", ressaltou.
"Você está jogando com Alemanha, Holanda, Itália... estar atrás do placar é um golpe emocional violento. A final contra a Itália, tendo Baresi, Maldini, Massaro... pode ter a chance de você empatar? Pode, mas é muito difícil. Ter um time sólido e compacto em uma Copa do Mundo é fundamental”, acrescentou.
Mesmo assim, muitas vezes é difícil fazer com que uma ideia como essas seja comprada por todos os jogadores. Lateral-direito titular, Jorginho explicou que isso só foi possível por conta da ausência nas eliminatórias de... Romário, que ficou mais de um ano afastado por desentendimentos com a comissão técnica.
“Eu creio que a gente entendeu muito bem aquele recado, aquilo era passado pelo Zagallo diariamente, mas cada coisa ele falava que a Amarelinha era mais importante. E temos que lembrar, o Romário ficou um bom tempo fora das eliminatórias. Porque eles entenderam que o Romário não tinha isso de ‘não vou ficar no banco’", falou.
"Não tem essa, se tiver que ficar vai ficar e esperar o seu tempo. E o Romário ficou fora até o último jogo das eliminatórias. Eu creio que essa postura deles ganhou o grupo e fez com que a gente acreditasse que tínhamos um grupo muito forte”, complementou.
Mas as exaltações a Romário incomodam um personagem mais do que os outros. Grande parceiro do Baixinho e também citado como figura importantíssima por seus companheiros, Bebeto faz questão de reforçar que o torneio só foi conquistado pelo trabalho de todo o grupo.
“Eu não gosto, me incomoda, porque ninguém ganha nada sozinho. Eu não estou preocupado se ele vai aparecer mais. Me incomoda, por isso que eu respondi. Pessoal lembra muito da gente, porque fazíamos os gols, mas se não tivéssemos vocês, os reservas para dar conta do recado. Tem que falar de todo mundo”, apontou.
Zinho ainda relembrou uma teoria de Ricardo Rocha de que o título foi sacramentado no chute para fora de Roberto Baggio para que não houvesse maior exaltação de um jogador em comparação a outros. E Romário concorda.
“Concordo, porque se fosse o Taffarel que tivesse pego aquela bola, o grupo talvez não tivesse tanto reconhecimento como teve. E o Ricardo tem razão, aquele momento do Baggio foi para coroar o grupo”, finalizou.
