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Goleiro do Brasil no Pan carrega sonho do 'irmão' que foi vítima de incêndio no Ninho: 'Se não fosse por eles, não estaria aqui'

Mycael, goleiro da seleção brasileira, durante o Sul-Americano sub-20 DANIEL MUNOZ/AFP via Getty Images

Titular da seleção brasileira nos Jogos Pan-Americanos de Santiago, no Chile, Mycael carrega consigo o sonho interrompido de um irmão que a vida lhe deu. Em todas as partidas que disputa, ele usa por baixo do uniforme uma camiseta com a foto de Bernardo, ex-goleiro da base do Flamengo, uma das vítimas do incêndio do Ninho do Urubu, em 2019.

A homenagem é uma forma de nunca se esquecer das próprias origens e do quanto a família do amigo foi fundamental para que ele pudesse virar um jogador profissional.

Natural de Rondônia, Mycael começou nas escolinhas em Porto Velho como lateral-esquerdo, mas acabou seguindo o mesmo caminho de outros familiares que jogavam debaixo das traves no futebol de várzea.

Em pouco tempo, o jovem se destacou e conseguiu ser aprovado em testes no Grêmio e no Flamengo antes de escolher o Athletico-PR, aos 12 anos.

"Meu avô, que era bem evangélico, falou que Deus revelou para ele que o caminho para seguir era no Athletico, porque foi um clube que abriu as portas primeiro para mim. Ele só mandou eu seguir e eu obedeci", disse ao ESPN.com.br.

Por não ter idade mínima para ficar nos alojamentos do clube, Mycael viveu um impasse. Sem dinheiro para pagar um aluguel em Curitiba, ele morou por dois anos de graça na casa de Bernardo.

"A família dele foi um grande pilar na minha vida. Se não fosse por eles eu não estaria aqui. Sou muito grato e sempre que posso vou visitá-los. Eu os chamo de pai e mãe".

"Nossa amizade era muito verdadeira e não tinha intriga, mesmo a gente disputando posição. Ele era o titular e eu, reserva".

Aos 14 anos, os amigos foram morar no CT da base do Athletico-PR. Em 2018, Bernardo se transferiu para o Flamengo e defendeu o clube carioca por poucos meses. O garoto foi uma das dez vítimas que morreram nos alojamentos do Ninho do Urubu.

"Quando o Bernardo veio a falecer, o pai dele me falou: 'Quero que você realize esse sonho do Bernardo e o seu por mim'. E graças a Deus estou conquistando grandes coisas", disse.

Sucesso na base

Pelo Furacão, o arqueiro jogou vários torneios importantes de base, incluindo a Copa Nike sub-15, que o levou para a seleção brasileira.

"Estavam todos os olheiros da CBF e fui chamado pela primeira vez para a seleção. Tenho uma linda história porque passei por todas as categorias e cheguei até a principal. Tive algumas conquistas, incluindo dois Sul-Americanos. Já defendi um pênalti na final contra a Argentina que nos deu o título sub-15", afirmou.

Titular na conquista do Sul-Americano sub-20 neste ano, o goleiro foi chamado em seguida para a seleção brasileira principal pelo técnico interino Ramon Menezes para o amistoso contra Marrocos, em março.

"Um preparador me contou durante um treino do Athletico que eu havia sido chamado. Achei que fosse uma brincadeira. Mas fiquei muito feliz quando soube que era verdade".

Durante o período, Mycael conviveu com os goleiros Ederson (Manchester City) e Weverton (Palmeiras).

"Conversei muito com o Weverton, que jogou no Athletico e é uma referência para todos nós no CAP. Nós trocamos bastante experiências porque somos da região Norte: ele é do Acre e eu sou de Rondônia".

"A ficha nem caiu (risos). Só fui entender depois quando voltei para casa e fiquei olhando as fotos. Você está jogando com os melhores do mundo. Muitos deles eu só conhecia pelo videogame e pude conviver alguns dias pessoalmente. Foi uma experiência que somou bastante para a minha carreira".

Depois disso, ele jogou como titular os primeiros jogos do Mundial sub-20, mas se machucou na partida contra a Nigéria e ficou de fora do restante da competição. O Brasil caiu nas quartas de final para Israel.

"Quando precisaram de mim, eu correspondi e fui decisivo. No Mundial eu tive um desempenho bom, mas acabei me lesionando".

Titular nos Jogos Pan-Americanos, Mycael é um dos destaques da equipe brasileira, que enfrentará Honduras, neste domingo, às 18h (de Brasília).

Com duas vitórias em dois jogos, o Brasil já está garantido nas semifinais. Com um bom desempenho na competição, ele espera trilhar um caminho na equipe até os Jogos Olímpicos de Paris, em 2024.

"Nós estamos muito bem preparados para esse Pan-Americano, que é uma competição muito importante. Nosso time tem ótimos jogadores. Tenho que provar diariamente que posso estar no ciclo das Olimpíadas porque é muito difícil você se manter na seleção", explicou.

Promovido no ano passado ao elenco principal do Athletico-PR pelo técnico Felipão, o goleiro ainda não estreou no time profissional.

"Estou muito bem. Esse processo de transição é o mais complicado para o atleta. É um momento que pode demorar um pouco, mas é seguir focado nos treinos. Quando tiver a oportunidade, é agarrar de braços abertos", finalizou.