Mesmo com receio de lesões antes da Copa do Mundo do Qatar, seleção brasileira não usa caneleiras nos treinos, um pedido antigo do técnico Tite
"O bicho pega no treino." Foi assim que o zagueiro Marquinhos definiu os trabalhos que a seleção brasileira têm feito no CT da Juventus, em Turim, na Itália, em preparação para a Copa do Mundo do Qatar. Algumas entradas mais duras podem chamar a atenção, mas há algo curioso no time do técnico Tite: nenhum jogador usa caneleira nos treinamentos.
A prática acompanha Tite desde 2015, quando ele era técnico do Corinthians. Naquele ano, a temporada alvinegra começou com três jogadores expulsos logo nos três primeiros jogos do ano. Ao ser eliminado da Conmebol Libertadores, uma das prioridades do clube, o time já somava oito cartões vermelhos, sendo dois no jogo que definiu a queda.
Na ocasião, Tite chegou a lamentar publicamente ter tantos jogadores expulsos e cobrou seu elenco, pedindo mais "controle" e "inteligência". Foi então que ele teve a ideia de introduzir o método nos treinamentos. Por mais lealdade nas disputas, as caneleiras foram abolidas
"Foi em cima de expulsões que aconteceram, eu trouxe o fato. 'Vou tirar a caneleira'. Se tem esse tipo de comportamento com o adversário, quero ver fazer com seu colega. Não sabia aquilo que ia gerar, mas na sequência eu vi o quanto de lealdade esse gesto ele acabou direcionando para um outro caminho. É o sentido do 'compete forte, leal, mas na bola'", contou Tite, em 2018.
Marquinhos, curiosamente, trabalhou com Tite no Corinthians, participando da campanha do título da Libertadores, na qual os alvinegros receberam também o troféu de "mais disciplinados" do torneio pela Conmebol.
"O bicho pega no treino. Mas é tudo 100% leal. Desde a época de Corinthians, na Europa, a gente treina assim. Isso te dá a consciência de ser leal, saber quando você está atrasado, não dar o bote. Por isso treinamos sem caneleira", disse o zagueiro hoje do PSG.
No período de treinos em Turim, em que as atividades são abertas a imprensa, já foi possível ver entradas fortes de Daniel Alves em Raphinha e Pedro, de Casemiro com Fred, entre outras. Tudo, porém, normal para os envolvidos. As disputas são ríspidas, mas nunca com maldade.
"A gente sempre tenta dar o máximo na seleção. Todos querem mostrar trabalho, que estão bem. A intensidade aqui é muito alta, são times com excelentes jogadores, no auge de suas carreiras. Isso ajuda nos treinamentos. Claro, tomando precaução, se estiver atrasado, evitar algumas coisas. Mas a intensidade não pode diminuir", completou Marquinhos.
Rodrygo, por exemplo, um dos homens de frente e mais acostumado a sofrer com chegadas mais duras de defensores, também não vê problema com o "bicho pegando" nos treinos.
"O Tite fala para a gente que nos nossos treinamentos tem que ser competitivos, mas com lealdade. Um lance ou outro é normal. Mas está todo mundo ciente, não podemos perder jogadores."
Na última quarta-feira, a seleção chegou a passar por dois sustos, com Alex Telles e Bruno Guimarães, que sentiram um pouco mais, respectivamente, após uma dividida com Neymar e um pisão de Fabinho. Ambos, contudo, logo voltaram ao competitivo, mais leal, treinamento.
