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OPINIÃO: Deixa o torcedor festejar Estadual, Supercopa e quebra de tabu; o que importa é ser feliz

Capitão do São Paulo, Rafinha ergue a taça de campeão da Supercopa Rei Fernando Moreno/Gazeta Press

Já faz algum tempo, vemos gente querendo atuar como sommelier de comemoração no futebol brasileiro. Mesmo em momentos de alegria e de euforia de torcedor porque seu clube ganhou um jogo, um clássico ou um torneio, surge uma voz pragmática falando que Estadual não vale nada hoje em dia, que comemorar vitória em clássico em fase inicial não se justifica, que Supercopa é só para abrir temporada e é uma partida apenas etc.

Parece que só é permitido agora celebrar mesmo um título de Libertadores, de Brasileiro e, às vezes, da Copa do Brasil (o que talvez aponte também para a elitização do nosso futebol).

Porque tem gente dizendo até que Mundial não é tudo isso, que é só um evento da Fifa pouco representativo e que o que vale mesmo é ser campeão de seu continente.

Neste fim de semana, vimos os são-paulinos curtirem ao extremo o título da Supercopa diante do Palmeiras, os cruzeirenses saborearem ao máximo mais uma vitória na Arena MRV do grande rival, e os vascaínos sorrirem com o empate com sabor de vitória contra o poderoso Flamengo de Tite.

Que mal há em festejar um jogo que seja apenas? Qual é o problema em se emocionar com só uma defesa de pênalti? A razão maior de existir de um time de futebol é dar alegria ao seu torcedor. Se essa figura não puder curtir as vitórias de sua equipe, acaba a graça. Não existe termômetro de felicidade por conquista. Cada um sente o jogo, o campeonato e o time do coração à sua maneira.

Quebrar um tabu como o São Paulo fez em Itaquera é muito relevante para seu torcedor, foi uma “questão de honra”, como bem comentou Diego Lugano na ESPN. E houve quem tentasse diminuir a alegria são-paulina por essa primeira vitória na arena do maior rival, seja porque a fase corintiana não é boa, seja porque foi um duelo apenas pela quarta rodada do Estadual, seja porque foi só 2 a 1, seja porque o São Paulo não deu show de bola, seja por qualquer outra desculpa.

Não foram só três pontos! Não foi só mais um triunfo sobre o Corinthians. Foi algo esperado por muitos e muitos anos pelos tricolores, que foram dormir várias vezes frustrados por saírem de Itaquera sem vencer, por serem sacaneados pela freguesia diante do tradicional adversário. A alegria do são-paulino naquela noite não tem preço! Quem viu e viveu aquilo desfrutou (claro que não os corintianos).

Chega a ser cruel alguém tentar frear a alegria de um torcedor, até porque alguns deles são crianças que nunca viram uma vitória, alguns deles são pessoas que podem estar em estado terminal e contam com talvez aquela “Last Dance” de seu time preferido, alguns podem estar vivendo dificuldade na vida e precisam de uma razão mínima que seja para celebrar. Cada um tem sua história, assim como cada jogo tem sua história (meu sábio pai me ensinou quando eu era um garotinho ainda).

Não sou eu que vou desprezar um 5 a 0 como o Palmeiras fez no São Paulo no ano passado. Houve quem dissesse que aquele Choque-Rei não valia nada para os dois clubes porque o Palmeiras já não tinha mais como ser campeão brasileiro e o São Paulo já havia vencido a Copa do Brasil e estava de férias. Para palmeirenses e são-paulinos apaixonados (e são quase 40 milhões de pessoas envolvidas nesse clássico), duelo entre eles não deve ser reduzido a nada, independentemente da fase de um e do outro.

O Palmeiras acabou depois daquela goleada arrancando para o título nacional, e o São Paulo amargou o pior placar sofrido diante do seu inimigo alviverde (igualou os 5 a 0 de 1965). Aquele “simples” jogo dentro de um campeonato de pontos corridos com 38 jogos para cada equipe valeu demais, assim como aquele 6 a 1 do Corinthians no São Paulo em 2015, quando nasceu a engraçada e agora famosa história do Soldado Charles, torcedor são-paulino que foi naquele jogou de entrega de faixas para o Timão e jurou em post só sair de lá com a vitória.

Demorou quase dez anos para o São Paulo vencer em Itaquera, e ele foi festejado como um herói de guerra pelos tricolores. Tudo por causa de uma partida “qualquer” do Brasileiro de 2015 e por outro duelo “comum” pelo Paulista.

Eu venho lutando pelo direito de o torcedor festejar bastante nos últimos anos qualquer coisa. Quando o São Paulo saiu da fila ao vencer o Paulista em 2021, houve quem tenha estranhado a festa enorme dos tricolores porque era um “mero” Estadual em época de pandemia, sem gente dentro do estádio. Aquela euforia toda foi vista como carência e como algo que pouco ia acrescentar a um clube que é tricampeão mundial.

Mas aquele título, além de movimentar a grande sala de troféus do time após quase uma década, resgatou muito da autoestima do são-paulino, e o clube vem crescendo aos poucos desde então com mais confiança e chegando mais frequentemente para disputar títulos. Mas, mesmo que isso não ocorresse e que aquele Paulista fosse só uma conquista efêmera, já valia por si só.

O sorriso no rosto daqueles torcedores que sofreram durante bastante tempo justifica o tratamento de Copa do Mundo que foi dado para aquele Estadual.

Aliás o São Paulo voltou muito a ser competitivo agora porque reuniu um grupo de pessoas, entre jogadores, membros da comissão técnica e dirigentes, que de fato torcem pelo clube e amam suas cores, que querem vencer quase todos os jogos, lutam e se entregam em cada jogada, a especialidade de Calleri. Lucas e Rodrigo Nestor não tinham condição de jogar a decisão contra o Palmeiras, mas estavam chorando de emoção na arquibancada do Mineirão com o título que abre a temporada nacional. Bobadilla, paraguaio que acabou de chegar ao time, estava no campo chorando também mesmo sem ter jogado um segundo.

O quanto vale ser campeão da Supercopa para esses caras? O quanto vale fazer milhões de pessoas felizes “apenas” por 90 minutos ou por uma disputa de pênaltis?

Trabalho já há muitos anos com ex-jogadores que venceram muito e tiveram conquistas bem expressivas. E todos eles valorizam demais cada um de seus títulos. Zinho venceu Copa do Mundo, Libertadores e inúmeros troféus nacionais por grandes clubes do nosso país, e ele tem orgulho até do título de segunda divisão do Carioca com o Nova Iguaçu em 2005 (a Laranja Mecânica é sensação agora do Estadual do Rio).

Zé Elias, meu colega no Futebol 90, é outro que contesta quando dizem que Estadual não vale nada, por exemplo. Ele sabe bem a luta dos profissionais do futebol, em especial dos que têm menos condição financeira e estão em clube pequenos, que precisam de um jogo qualquer para ganhar seu pão, ajudar sua família.

E aí vem alguém dizer que tal partida ou tal torneio não serve para nada, não leva a nada. Alguém maldoso poderia dizer também que tal comentário não vale nada, que tal programa não serve para nada etc.

Todos nós que estamos envolvidos com futebol trabalhamos com emoção, tratamos de um esporte que é paixão de milhões de pessoas. Não devemos achar que tudo é ciência e razão ao analisar esse fenômeno social, esse patrimônio cultural, esse amor que é o futebol.

Ter respeito pelo sentimento do torcedor, seja esse de felicidade ou de tristeza, é algo absolutamente necessário, essencial.

Curta o que quiser, torcedor! Vibre o quanto quiser! Seja feliz!