Davi Lessa teve uma preocupação ao falar com a reportagem da ESPN: que as pessoas atrelassem sua história no futebol com o início da trajetória do filho, Pedro Lessa, que foi registrado para "iniciação desportiva" pelo Santos, no BID da CBF, no último dia 11.
Pedro tem sete anos e agora é um Menino da Vila. Davi é o nome de Karioca, ex-atacante que brilhou na base do Peixe no início do século e perdeu espaço depois de 2006, quando veio a público que ele era gato -- termo usado no esporte para atletas que têm a idade adulterada.
O caso veio à tona enquanto Karioca atuava pelo sub-15. Os documentos diziam que ele estava apto para a categoria, mas, na realidade, o então Menino da Vila já tinha 18 anos.
O ex-atacante sofreu as consequências. Apesar do apoio de Marcelo Teixeira, atual presidente e que também estava no cargo à época, passou a ser emprestado em 2007, depois de ter virado profissional no Santos, e não vingou como esperado. Atuou por Portuguesa Santista, Marília, Volta Redonda e outras equipes longe da elite. Chegou a formar dupla de ataque com Túlio Maravilha no Canedense, de Goiás.
"Eu vim do Rio de Janeiro com o coração puro, não era bandido, nada disso", afirma, ao citar a época de jogador e a repercussão com o caso de gato. "Fui bombardeado, saí em jornal", relembra.
"Eu seria o próximo [craque revelado pelo Santos]. Tenho certeza. Depois da geração de 2002, seria eu", garante.
A declaração pode ser considerada plausível. Karioca foi artilheiro na base e até escolhido pelo clube para entregar uma placa a Pelé na comemoração de 50 anos da estreia do Rei. Formou dupla com Neymar, que, sendo mais novo, o reverenciava.
"Ele fazia a diferença sempre para a gente. Lembro até de uma partida contra a Portuguesa que a gente estava perdendo por 1 a 0 e saiu uma falta do lado esquerdo. Ele foi bater, chutou com a direita e fez o gol. Aí saiu uma falta do lado direito, ele bateu com a esquerda e fez o gol. Fez dois gols de falta, um com a direita e um com a esquerda, e a gente conseguiu vencer o jogo. Acho que se ele tivesse um pouco mais de chance ele viraria também", disse Neymar, em entrevista à Rádio Estadão ESPN, em 2012.
Os dois eram parceiros. Karioca era visita constante na casa do craque e ouvia conselhos de Neymar Pai. A relação ainda existe. No fim do ano passado, o ex-atacante foi convidado para o cruzeiro "Ney em Alto Mar", que teve a presença do jogador.
"O Neymar, mesmo mais novo, jogava categorias acima. Quando saiu a notícia [do gato], já nos jornais, ele o Alan Patrick (também do Santos à época) chegaram perto de mim e me abraçaram. Falaram que jogariam por mim e que tudo daria certo", recorda o ex-atleta.
Karioca deixou futebol precocemente, em 2013, mesmo garantindo ter propostas para continuar. Ele optou por se dedicar ao que define como uma missão: ser pastor. Fez curso de treinador e chegou a trabalhar como auxiliar nas categorias de base da Portuguesa Santista. Hoje em dia também comanda times amadores e conta com carinho bons momentos nos gramados, como um gol pelo Santa Helena contra o Atlético-GO, pelo Campeonato Goiano de 2011, no Serra Dourada, aos três minutos de jogo.
Uma nova chance
"Ter meu filho aqui é Deus me dando uma nova chance", diz Karioca, repetidas vezes, ao contar a chegada do garoto ao Santos.
Pedro Lessa nasceu em 2017. O pai, orgulhoso, percebeu que o filho levava jeito para o futebol aos cinco anos. O menino, após se destacar, foi levado ao Flamengo para jogar futsal e campo nas categorias sub-6 e sub-7.
Ele deixou o Rubro-Negro em agosto deste ano. Vivendo em Santos há mais de duas décadas, Karioca conta que a rotina ficou pesada no Rio de Janeiro e, por isso, trouxe o filho de volta ao litoral paulista.
Depois de testes, Pedro foi aprovado no time da Vila Belmiro. Ele está acostumado a jogar tanto em futsal quanto em campo.
"Por mais que amanhã ou depois ele pode não virar jogador, pelo menos hoje ele é. E está onde eu parei. É uma continuidade. Mas a história dele não tem nada a ver com a minha", diz o ex-atacante.
O pai gosta de frisar que sua trajetória no esporte não deve influenciar a possível carreira do filho. Ele deixa os erros no passado e agora se preocupa em oferecer o melhor cenário possível para Pedro.
"Ele tem algo a mais do que eu. É moderno. Além de jogar, marca muito, tem fôlego. É habilidoso e tem um improviso especial", garante.
"Lembra minhas características na mudança de direção e finalização, já conseguindo chutar com as duas pernas. Mas acredito que, se seguir nesse caminho, vai ser melhor do que eu. Tem muito recurso", finaliza.
