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OPINIÃO: Demissão de Mourinho na Roma foi uma decisão comercial

E assim ele se foi. Mais uma vez em sua terceira temporada. Mais uma vez sob uma nuvem. Mais uma vez com opiniões divididas. A decisão da Roma de demitir José Mourinho foi tomada pelos proprietários do clube, a família Friedkin, no final da segunda-feira (15) e comunicada ao técnico - e ao mundo, que passou a dar muito mais atenção ao clube desde a chegada do português ao mesmo, em 2021 - antes do treinamento da manhã de terça-feira (16).

O contrato de Mou acabaria em junho deste ano.

E embora ele tivesse indicado repetidamente que estava feliz em prorrogá-lo, a agremiação italiana havia pausado todas as discussões até o final da atual temporada. Esse é o tipo de momento que faz você se perguntar por que eles não poderiam ter esperado. E também o leva a concluir que deve ter havido um motivo específico para agir agora.

Eles estavam certos em fazer isso?

Para responder a essa pergunta, é preciso deixar de lado a questão de saber se Mourinho merecia ou não ser demitido ou se ele fez ou não um bom trabalho. E passar para a realidade da situação atual da Roma. E aqui está a realidade: Mourinho não foi demitido porque perdeu o vestiário ou porque os torcedores estavam pedindo a sua cabeça. Embora o apoio a ele tenha esfriado entre partes da torcida, especialmente nas redes sociais e nas onipresentes estações de rádio esportivas de Roma, os torcedores que vão aos jogos continuaram a apoiá-lo de forma inequívoca (e barulhenta). Em vez disso, ele foi embora porque os Friedkins são homens de negócios e tomaram uma decisão comercial.

De acordo com a publicação Swiss Ramble, que analisa o mundo dos negócios no futebol, a Roma perdeu R$ 986 milhões em 2020/2021 e R$ 1,2 bilhão no ano seguinte, o primeiro de Mourinho no clube. Os prejuízos recordes em 2021/2022, quando eles estavam entre os maiores gastadores líquidos em transferências na Europa, significaram que eles violaram os regulamentos do Fair Play Financeiro (FPF) da Uefa e foram colocados sob um acordo, que restringiu seus gastos.

Efetivamente, o clube apostou que investir de forma pesada na equipe (inicialmente em taxas de transferência, depois em caros agentes livres veteranos, dando ao clube a terceira maior folha salarial da liga) e no próprio Mourinho (o segundo técnico mais bem pago da Campeonato Italiano) proporcionaria uma presença constante na Champions League. Isso, por sua vez, geraria receita, tanto em termos de prêmios em dinheiro, quanto de acordos comerciais. Em vez disso, eles terminaram em sexto lugar em suas duas primeiras temporadas, vencendo a Conference League em 2021/2022 e chegando à final da Europa League no ano seguinte.

Agora, a Roma está em nono lugar na Série A, a cinco pontos do quarto lugar (que dá vaga para a Champions). Está fora da Copa da Itália (perdeu o clássico para a Lazio, o que nunca ajuda) e venceu apenas um dos cinco jogos desde o Natal, uma vitória de virada contra o Cremonese, da segunda divisão italiana, na Copa da Itália.

Para salvar essa campanha, a Roma precisa se classificar para a Liga dos Campeões. Eles podem fazer isso vencendo a Liga Europa (o que não é fácil: os especialistas em probabilidades os colocam como sexto favorito, com 16-1) ou tirando a diferença de cinco pontos para o quarto lugar (e, com o novo formato da Liga dos Campeões, o quinto lugar pode até ser suficiente).

Talvez Mourinho pudesse ter feito isso, mas aí o problema seria outro. Como seu contrato estava expirando e eles não iriam discutir um novo até o final da temporada, isso significaria negociar um novo contrato com Mourinho desfrutando de toda a vantagem da classificação para a Liga dos Campeões (caso isto ocorresse). E isso significaria um contrato ainda mais oneroso (tanto em termos de salários quanto de poder para o técnico) ou a saída de Mourinho, sem nenhuma compensação e com uma torcida enfurecida.

Então, é melhor jogar com as porcentagens e fazer uma ruptura limpa. O ídolo do clube, Daniele De Rossi, assume como substituto interino e, dado o seu relacionamento com a torcida, é de se esperar que receba o apoio dela.

Apesar de todas as críticas que o estilo de jogo de Mourinho, orientado apenas pelo resultado e nada satisfatório de ver, tem recebido, o time está em quarto lugar no saldo de gols esperado e tem uma série de jogos bastante administrável pela frente: Hellas Verona e Cagliari em casa, Salernitana fora. Portanto, a tarefa de De Rossi é difícil, mas longe de ser impossível.

Qual será o legado deixado por Mourinho?

Aqui, você pode escolher se gosta ou não dele. Ele chegou a duas finais europeias, vencendo uma. É verdade, mas sua média de 1,61 pontos por jogo no Campeonato Italiano é a mais baixa de qualquer técnico da Roma nos últimos 39 anos. E ele estava caminhando para três temporadas consecutivas terminando fora dos cinco primeiros colocados, a pior sequência do clube em três anos.

A Roma pode ter gasto muito para apoiar Mourinho em sua primeira temporada, mas nas janelas seguintes o clube vendeu muitos jogadores, deixando um lucro de R$ 696 milhões. É verdade, mas isso se deve ao fato de que eles violaram o FPF e tiveram de equilibrar as contas, lembra-se? E, mesmo assim, ele optou por fazer com que o clube dispensasse jogadores mais jovens pelos quais eles pudessem obter um bom valor de transferência (Cengiz Under, Pau López, Nicolo Zaniolo, Felix Afena-Gyan, Roger Ibañez, Justin Kluivert) para substituí-los por veteranos com altos salários, razão pela qual a folha era tão alta: Romelu Lukaku, Renato Sanches, Leandro Paredes, Paulo Dybala, Nemanja Matic, Gini Wijnaldum, Andrea Belotti.

O diretor esportivo da Roma, Tiago Pinto, português como Mourinho, geralmente o ajudava a executar essa estratégia de transferências, assim como seu empresário, Jorge Mendes, que estava envolvido em várias negociações do clube. Mourinho sabia no que estava se metendo, quais seriam as restrições financeiras e os orçamentos e estava de acordo com isso, desde que pudesse ditar a estratégia de transferências, o que ele fez com a ajuda de seus amigos de confiança.

O carisma e a experiência de Mourinho foram o que persuadiram estrelas como Lukaku e Dybala, astros que, de outra forma, jamais teriam ido para a Roma, a assinar com o clube. É verdade que o status de Mourinho sem dúvida desempenhou um papel importante, mas é de se imaginar que a disposição do clube em pagar seus enormes contratos e o fato de que ninguém estava batendo na porta deles quando se tornaram disponíveis tiveram muito a ver com isso. E, a propósito, Lukaku está emprestado, portanto, quem sabe se estará de volta no próximo ano, e Dybala perdeu quase metade dos jogos do time devido a uma lesão.

Mourinho animou a torcida da Roma, era amado por seus jogadores e era uma novidade, especialmente quando falava a verdade em frente ao poder. É verdade que os torcedores que iam aos jogos certamente o adoravam, e ele atraía olhares que podem se tornar dinheiro com patrocínios. Mas em termos dele ser sincero, ele também foi expulso sete vezes em duas temporadas e meia, o que é objetivamente difícil de fazer. E não tenho certeza de que atitudes como as que vimos na final da Liga Europa e suas consequências sejam necessariamente o que os patrocinadores querem.

Ele jogou um futebol intenso e corajoso e continua sendo um mestre da tática. Ele encheu seu time de volantes e, nesta temporada, sua estratégia de ataque consistiu em fechar a casinha e lançar a bola para Lukaku ou para Dybala e esperar que eles criassem algo do nada.

Portanto, sim. Há dois lados para cada moeda. E como os possíveis empregadores veem o que foi dito acima provavelmente determinará onde será sua próxima aparição. Não há como escapar do fato de que ele foi demitido antes do final da temporada por seus últimos cinco clubes: Real Madrid, Chelsea (nas duas vezes em que esteve no comando), Manchester United, Tottenham e agora a Roma.

Há também o fato de que sua abordagem parece estar fora de sintonia com a da maioria dos principais técnicos europeus. Não se trata apenas do fato de ele ser visto como reativo e defensivo em seu estilo de jogo (o que é verdade até certo ponto, embora talvez exagerado), mas também da maneira como ele xinga em público os adversários, os árbitros e seus próprios jogadores e empregadores. Em uma época em que nomes como Jurgen Klopp, Pep Guardiola e Carlo Ancelotti fazem de tudo para defender os proprietários de seus clubes, Mourinho não terá escrúpulos em, por exemplo, discutir seu contrato em público ou lamentar a falta de gastos para apoiá-lo. Proprietários tendem a não gostar de serem questionados - direta ou indiretamente - pelo indivíduo cujo salário eles pagam.

Além disso, há a percepção de que a lealdade feroz que ele gerou em seus jogadores pode não ser exatamente a mesma. Matic, que já foi leal a Mourinho, se desentendeu muito com ele na Roma. Ele questionou a tolerância de dor do lesionado Chris Smalling. E, é claro, ele notoriamente criticou seus jogadores reservas após a derrota por 6 a 1 para o Bodo/Glimt, quando disse que "só tinha 13 jogadores no elenco... os outros estão em outro nível".

É provável que tudo dito acima afugente os clubes de primeira linha. Talvez não permanentemente, talvez não aqueles que estão dispostos a jogar os dados, gastar algum dinheiro e se preparar para o que provavelmente será uma montanha-russa emocionante, mas cara.

*Tradução: Vinicius Garcia