Volante de sucesso no início do anos 2000, Magrão iniciou, há cerca de um ano e meio, sua carreira como dirigente de futebol quando topou o convite de se tornar diretor esportivo do Internacional em maio de 2023. No último mês de agosto, porém, após uma sequência negativa de resultados, o ex-jogador foi desligado do cargo.
Em entrevista exclusiva à ESPN, o ex-meio-campista falou sobre o período vivido no Colorado. E admitiu que a saída se deu porque 'as coisas foram ficando insustentáveis'. Apesar disso, destacou a relação que nutriu com a diretoria.
“O ambiente foi sim ficando desgastado, por mais que tenha uma relação muito próxima com o Alessandro (Barcellos), tenho um carinho e um respeito muito grande por ele, mas as coisas foram ficando insustentáveis, porque eu praticamente ali era o homem de frente".
Fazendo uma avaliação de seu trabalho durante a temporada, Magrão apontou que o planejamento não conseguiu ser suportado em momentos de turbulência, admitindo que os resultados negativos também atrapalharam a continuidade do trabalho. O Inter acabou eliminado no Gaúcho e Copa do Brasil para o Juventude, além da queda na CONMEBOL Sul-Americana para o Rosario Central.
“Eu acho que quando a gente consegue fazer um planejamento e sabe que durante um ano vai ter percalços e algumas dificuldades, a gente tem que saber suportar isso. Se não pode suportar, e acho que foi talvez o motivo exato da minha saída, a gente não conseguiu suportar os momentos de turbulência. E isso no futebol vai acontecer em um clube que não ganha algo expressivo há quase 10 anos", disse.
"Temos 20 equipes que entram no Brasil para ser campeões, a gente não vai ter um ano 100% ok, ganhando todos os jogos, vai ter alguns momentos onde vai perder, vai ter um mês que não vai andar bem, e nesse mês não andando bem, a gente tem um motivo, que é o das enchentes. Teve a eliminação do Campeonato Gaúcho, que foi complicado da forma que foi", seguiu.
"Sem planejamento e sem saber o porquê ganha, o porquê perde, é difícil trabalhar, essa busca minha vai ser sempre incessante no clube que eu estiver. Mas quando você está num clube, quando a gente tem a certeza que o clube está no caminho certo, mas os resultados é que são os parâmetros para o certo e para o errado, é difícil a gente manter um trabalho”, completou.
'Perda de paz' na reta final do trabalho
Apesar de doída, a saída não era totalmente inesperada. Durante a entrevista, Magrão apontou que sentia sinais ao seu redor de que o ciclo estava chegando ao fim.
"É óbvio que a gente, até pela relação que eu tenho com o Alessandro, que a gente vai sentindo. As pessoas que estão ao seu redor, elas vão te dando sinais que as coisas estão mudando, você vai sentindo esses sinais. As coisas foram acontecendo de uma forma que começou a ficar, não digo insustentável, mas começou assim, a perder um pouco da paz que eu precisava ter para poder seguir", relatou.
"Se for mais a fundo, eu comprei algumas brigas políticas no início do ano, na eleição. Muita coisa ali fez o ambiente do Inter começar a ficar pesado. Você começa a ponderar o quão importante é estar com a tua família e vai sentindo aos poucos que as coisas começam a não andar. De tudo isso que eu passei no Internacional, foi uma experiência muito válida, muito produtiva", acrescentou.
Apesar disso, o dirigente vê que todo o trabalho valeu a pena, exaltando seu período no clube e relatando o carinho que recebeu no momento de sua despedida.
“Uma coisa muito importante foi a relação com os jogadores, se eu te mostrar as mensagens dos jogadores na minha saída, dos funcionários, agradecendo, isso me fez chorar. Me fez chegar para minha esposa e falar: ‘Valeu a pena’. Eu não entrei no Inter diretor, sendo muito sincero, mas eu diretor de futebol, eu saí forte do Inter. O Inter ajudou a minha carreira, talvez, a alavancá-la, ou dar um novo norte nela, que agora, eu sei que é isso que eu quero, que é ser diretor esportivo”, apontou.
Eu vi funcionários, amigos e irmãos chorando, a hora que eu saí, a gente se abraçou, um clima de velório, e isso para mim foi muito doloroso, porque muitos ali me tinham como um cara que estava sempre brigando por eles. Uma coisa que eu falo, posso ter cometido algum erro, mas foi tentando acertar, sempre com lealdade, então me vi e me senti muito bem nessa função”, revelou.
Méritos na recuperação, mesmo de longe
Desde a saída de Magrão, o Internacional disputou 11 jogos, tendo somente uma derrota, e atualmente acumula uma sequência de nove partidas sem ser derrotado. E o ex-volante garante que o planejamento feito antes de sua despedida também é um dos motivos para a recuperação.
“Eu tenho certeza que o que está acontecendo ali é tudo fruto de um planejamento que já foi feito lá atrás. Todos os jogadores que estão, é o mesmo time, não mudou ninguém, as últimas contratações eu estive presente. Eu nunca quis ser esse escudo, eu quis sempre tirar a parte ‘ex-jogador do clube’, nunca quis ser esse cara, eu quis sempre deixar bem claro, até nas entrevistas, o quanto eu me capacitava todos os dias para ser um diretor e não ser mais um ex-jogador de futebol", avaliou.
Futuro fora do Brasil sendo avaliado
Dois meses após sua demissão, Magrão aproveitou o período para descansar com sua família. Ainda assim, seus próximos passos já são avaliados. E ir para os Estados Unidos vem sendo uma possibilidade bem vista.
“Não tem nada ainda certo, eu tirei esse período de dois, três meses, justamente para descansar um pouco. Óbvio que as minhas oportunidades lá são maiores pelo tempo que eu fiquei, pelos contatos que eu tenho, mas deixei bem claro para a minha família que a partir do momento que eu fui para o Internacional, que eu tive essa nova ambição na carreira de ser diretor, que a gente ia esperar as oportunidades e os desafios que fossem por vir”, admitiu.
“Nesse momento descansando eu estou estudando, voltei a toda com o inglês fazendo aula diária, voltei a retomar meu curso de gestão esportiva, falando com o pessoal da Universidade do Futebol. Estou tentando não só descansar, mas me capacitar mais ainda para o próximo desafio que possa vir”, adicionou.
Magrão concedeu entrevista exclusiva ao ESPN.com.br
Analisando as possibilidades dentro dos Estados Unidos, Magrão vê condições melhores de trabalho na MLS, que possui uma organização que facilita os trabalhos do dirigente. Além disso, o ex-jogador vê que o Brasileirão tem muito que aprender com os norte-americanos.
“Eu acho que a segurança em relação aos pagamentos, em relação à organização. A gente tem a matéria-prima, que são os jogadores, mas ainda perde um pouco na organização, fora do campo, que eles têm muito forte lá. Então, se a gente for falar como funcionam os pagamentos da MLS, por exemplo, em uma contratação, quem paga as transferências é a MLS direto, ela é o órgão que gere todos os clubes que estão ali dentro do campeonato”, avaliou.
“No Brasil, a gente vê ainda que precisa um pouco mais de profissionalismo nas metas, nos projetos, que isso os Estados Unidos têm. No Brasil, eu digo que a gente é muito imediatista. Lá, um jogador de futebol tem tempo para adaptação, tem os salários em dia, e aqui no Brasil acho que a gente vai ter 10, 12, 15 clubes com essa ideia de ter tudo em dia, de estar tudo organizado”, acresceu.
“E lá, todos os clubes não podem falhar nunca, senão perdem a franquia e o direito de ter o clube. Isso eu acho que é um atrativo a mais para os jogadores. Fora o Lionel Messi, fora a qualidade de vida e segurança que você pode dar para o teu filho, para a tua família, morando nos Estados Unidos. Além disso, acho que tem um atrativo legal, que é a Copa do Mundo em 2026”, finalizou.
