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Como o Manchester United levou chapéu 'inacreditável' e perdeu Lucas Moura, hoje no Tottenham

O empresário Wagner Ribeiro contou detalhes de como o Manchester United levou um chapéu increditável e perdeu Lucas Moura, hoje no Tottenham


Atualmente no Tottenham, Lucas Moura chegou a estar muito perto de ser contratado pelo Manchester United há pouco menos de uma década. As equipes se enfrentarão pela Premier League, neste sábado (30), às 13h30 (de Brasília), com transmissão ao vivo do Star+.

Em 2012, quando era uma grande revelação do São Paulo, o atacante chegou a viver uma "novela" de meses com os Red Devils antes de assinar com o PSG, clube que defendeu antes de chegar aos Spurs.

Para contar os capítulos da negociação que não teve um final feliz para o United, o ESPN.com.br conversou com o empresário Wagner Ribeiro, que à época agenciava Lucas Moura.

Veja o depoimento de Wagner Ribeiro abaixo:

COMO RIBEIRO E LUCAS SE CONHECERAM

Eu conheci o Lucas quando ele ainda estava na base do São Paulo. O pai dele veio atrás de mim. Eu fui vê-lo jogar em Porto Feliz e sempre achei muito habilidoso, mesmo sendo pequeno. Eu ele o pai dele fomos comer um filé à parmegiana e fechamos um acordo. Nós criamos uma amizade muito bacana com a família depois disso.

Logo depois que o Lucas voltou campeão do Sul-Americano sub-20 de 2011 com o Neymar, teve um episódio curioso...

O Leco me chamou para renovar contrato com um salário maior e o Lucas ficou com 30% dos próprios direitos econômicos. Aí em seguida teve um jogo entre São Paulo e Portuguesa pelo Paulistão, e o Lucas foi titular. Só que toda vez que ele encostava na bola, o (técnico Emerson) Leão gritava 'toca, toca, toca'.

O Lucas não jogou bem e falou para mim depois: 'O Leão pedia para eu tocar, mas minha característica é de partir para cima no um contra um contra as defesas, arrancar em velocidade... Aí eu escrevi no meu Twitter: 'Lucas Moura é uma Ferrari muito mal dirigida'.

No dia seguinte, a rádio Jovem Pan me ligou e eu expliquei no ar: ‘O Lucas tem potencial muito grande, mas não está sendo bem explorado’. Logo depois, veio a rádio Bandeirantes e me pôs no ar junto com o Leão para criar um conflito. Eu disse: 'Não quero esse tipo de confronto, porque essa pessoa que está ai já fez sacanagem com o Ilsinho no Palmeiras e com o Lulinha no Corinthians’. Pedi desculpas e saí da linha. Queriam que nos confrontássemos.

Esse assunto dominou a semana inteira no São Paulo, até que teve um jogo contra o Santos no domingo. O Lucas jogou demais, fez um gol e deu assistência com vitória do São Paulo.

Acabou o jogo, e na coletiva do Leão perguntaram para ele por que o Lucas tinha jogado bem. O Leão respondeu: 'Por que eu entrei na auto-escola'. (risos). Isso fico marcado.

ENTRE MADRI E MANCHESTER

Em 2012, eu levei os pais do Lucas ao Santiago Bernabéu para conhecer o Florentino Pérez, que é meu amigo. Conversamos bastante e o técnico era o José Mourinho, que ficou duas horas junto com o assessor dele falando com a gente.

Esse assessor adorava o Lucas, e ele me disse: ‘Nós vamos contratar o Lucas e vamos pagar o que o São Paulo quiser’. O Florentino disse: 'O que o Mourinho quiser, nós faremos’.

O Mourinho, então, foi ver o Lucas jogar pessoalmente [N.R.: 26 de maio de 2012, amistoso Brasil 3 x 1 Dinamarca], mas nesse dia o Lucas não jogou bem. E o Mourinho continuou interessado, mas não estava convicto...

Só que, no meio de tudo isso, recebi também uma proposta do Manchester United!

Logo que o United mandou a proposta, eu liguei para o José Angel Sánchez, diretor do Real, e disse: 'Tenho uma proposta do United, mas queria levá-lo ao Real Madrid. Só que vocês precisam me confirmar, porque senão o São Paulo vai querer fechar com o United'.

O Sánchez falou: ‘Ainda estamos em estudo, mas não sabemos ainda. O dinheiro não é problema, mas só vamos bater o martelo quando o Mourinho der OK’.

Aí o São Paulo e o United ficaram me pressionando, pressionando, pressionando...

Foi quando aceitamos o Manchester. O Lucas estava vendido ao Manchester United. Isso era um fato. Por 36 milhões de euros!

Era muita grana!!!

PSG ATRAVESSA

Estava tudo certo entre São Paulo e United. O Gustavo Vieira, filho do Sócrates, que na época era funcionário do São Paulo, pegou o avião e foi para Manchester, pois ele ia fazer a parte jurídica da negociação. Enquanto isso, o Lucas estava na seleção brasileira que estava disputando a Olimpíada de Londres.

Só que, no dia anterior à viagem do Gustavo, já com o bilhete comprado, aconteceu algo inacreditável!

O Leonardo, que era diretor do Paris Saint-Germain, me ligou. Ele perguntou da situação do Lucas e eu respondi: ‘Léo, vou ser bem sincero... Estamos indo daqui a pouco para a Inglaterra para assinar com o Manchester United’.

Na hora, ele perguntou: ‘Vocês já fecharam?’ Respondi: ‘Não, mas a negociação está líquida e certa. O São Paulo aceitou a proposta de 36 milhões de euros’.

Ele falou: 'Eu pago mais. O PSG tem um projeto fantástico e está contratando grandes jogadores’.

Logo em seguida, liguei para o Lucas, contei da proposta do PSG e ele me disse: 'Eu topo!' Falei com pai dele e ele aceitou também.

Então, comprei outro bilhete para Paris e falei para o Gustavo Vieira ir para lá também. Ele perguntou se eu estava louco. Disse que não, que seria um negócio ainda melhor para o São Paulo.

O Gustavo ligou para o Juvenal, que disse: ‘Esse empresário é maluco' (risos). Fui para Paris e no dia seguinte chegou o Gustavo.

De repente, o Andrés Sanches, que na época trabalhava na CBF, me ligou dizendo que os representantes do Manchester United estavam indo ao hotel da seleção brasileira pegar a assinatura do Lucas.

Eu falei: ‘Andrés, não deixa! O Lucas não vai assinar nada. Eu estou em Paris! Estou fechando com o PSG!'. Ele disse: ‘Você é maluco? Está todo mundo dizendo que ele é do United, inclusive o próprio Lucas!’

Eu respondi: ‘Pois é, mas mudou tudo!’

O Manchester foi lá para assinar, mas não assinou...

'COMPRE UMA FERRARI'

Então, sentamos com o PSG, vendemos o Lucas por 43 milhões de euros e acertamos o salário. O Juvenal bateu o martelo e fomos para Manchester ver o Lucas na Olimpíada. [N.R.: dos 43 milhões de euros, 32,2 milhões de euros (à época, R$ 81 milhões) ficaram com o São Paulo, e 10,8 milhões de euros (à época, R$ 27 milhões) ficaram com Lucas e seus representantes].

Aí que veio o problema...

O Andrés não tinha liberado o United, como ia fazer para liberar os médicos do PSG para fazer os exames protocolares? Eu disse: ‘Você libera, porque o negócio já está certo’. E ele liberou (risos).

No dia 31 de dezembro, minha família e a do Lucas passaram o Réveillon dentro do avião indo para Doha, onde seria a apresentação dele. Estavam o Lavezzi e o Pastore nesse mesmo voo.

A apresentação foi em um lugar maravilhoso, uma festa linda. Conheci todos os jogadores. O Lucas jogou amistoso contra o time do Nilmar e começou a história dele na Europa.

Curioso que, depois disso, fomos para Paris para ajudá-lo a procurar casa e tudo mais. Ele foi comprar um carro e falei: 'Compre uma Ferrari (risos)'. Ele disse: ‘Não, a Ferrari é muito cara'. Demos risada e ele comprou uma Porsche menor.

Em pouco tempo ele conhecia ótimos restaurantes de Paris sem precisar de GPS, porque eles ficavam no caminho entre a casa dele e o CT.

Eu renovei o contrato dele com o PSG há dois anos e o pai ele passou a cuidar da carreira dele depois disso. Não tenho problema nenhum com Lucas e o pai dele, temos uma boa relação.


Reportagem originalmente publicada em 27 de maio de 2019