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OPINIÃO: Convertido num time sem alma, resta ao Flamengo se reencontrar quando menos se espera

Jorge Sampaoli, técnico do Flamengo Thiago Ribeiro/ Agif/Gazeta Press

O jogo terminou com um lance que, de certa maneira, resume o que foi a tarde rubro-negra em sua metade da decisão da Copa do Brasil. Everton Ribeiro, até ele, cobrou um escanteio tão desorientado que a bola saiu da grande área. Foi apenas um entre tantos sinais desalentadores oferecidos pelo elenco mais capaz do Brasil - como o técnico que deixou o gramado antes do final do primeiro tempo e, avisado, não voltou; ou a completa desconexão entre ele e seus jogadores durante uma paralisação para orientações - no encontro que deixou o Flamengo a um empate de perder tudo, literalmente, que disputou no ano.

A pergunta que se impõe é: como? Como é possível converter o Flamengo no que há de mais próximo de um time de futebol sem alma, com zumbis cambaleando pelo gramado sem saber para onde ir? Como é possível reduzir a mais ameaçadora reunião de jogadores de ataque do futebol sul-americano a UMA finalização certa? A temporada 2023 do Flamengo é uma façanha futebolística no sentido oposto, como se o objetivo fosse mostrar ao mundo o que fazer para, a partir de um clube saneado financeiramente e de posse do maior potencial de receita do continente, colocar em campo um produto final que se arrasta e perde, independentemente da relevância da ocasião, das circunstâncias e do nível do adversário. Al-Hilal, Palmeiras, Independiente Del Valle, Fluminense, Olimpia, São Paulo.

Como? No último caso, Dorival Júnior teve influência decisiva ao escolher uma escalação coerente, e, em vez de chegar ao Maracanã com o plano de “ver quem joga mais bola”, perguntou ao Flamengo “como você responderia se nós jogássemos assim?”. O “assim” corresponde à ocupação de espaços distribuída com inteligência e ao controle da bola que não só explorou a permissividade defensiva que caracteriza o Flamengo de Sampaoli, como também permitiu ao conjunto visitante se sentir cômodo no templo lotado, algo que soa como uma proposta ousada até mesmo em pensamento, mas que se revelou um dos pilares do placar mínimo. A atuação do São Paulo expôs o que acontece quando um time de futebol resulta em menos do que a soma de suas peças, geralmente um indiciamento do trabalho de seu treinador, mas, como se sabe, aqui se trata de um drama muito mais profundo.

O drama é a incompatibilidade entre o futebol que Sampaoli propõe e o jogo que os futebolistas que compõem o elenco do Flamengo, em especial os mais talentosos, carregam dentro de si. É a repetição do erro cometido com Vítor Pereira, agravada por uma gestão de pessoas que seria elogiada se fosse qualificada como defeituosa. O resultado é uma equipe que não atua como seu técnico deseja e nem como seus jogadores são capazes de fazer, num casamento às avessas que deixa a todos com a pior imagem possível; o treinador é um farsante e os jogadores são crianças mimadas. Quem os reuniu, no entanto, segue usufruindo do maior orçamento da América do Sul para tomar decisões que mais se assemelham a um jogo de roleta.

O calendário de 2023 do Flamengo ainda reserva uma partida decisiva, no próximo domingo (24). Meios para sair do Morumbi com o título não faltam ao atual defensor do troféu. Se acontecer, não terá sido fruto de qualquer coisa além da mobilização dos jogadores, suficientemente dotados a ponto de construir uma atuação formidável quando menos se espera. Responsabilizar apenas o treinador é típico de quem contrata e dispensa no piloto automático e celebra a renda milionária numa tarde em que o time pareceu essas pessoas que são tão pobres que só têm dinheiro.