Lionel Messi, hoje uma lenda colocada por muitos na mesma prateleira de Pelé e atual campeão da Copa do Mundo, já foi um garoto pelo qual dois países brigaram. Argentina e Espanha disputaram o jovem no início do século, quando ele foi contratado pelo Barcelona com apenas 13 anos de idade, em dezembro de 2000, e logo de cara mostrou ser diferente, muito acima da média. E é justamente sobre este confronto travado nos bastidores da bola que o documentário ‘Messi, a Fita Esquecida’, disponível no plano premium do Disney+ a partir desta terça-feira (9), se debruça.
A partir de uma fita VHS (mas, calma, esta ainda não é a principal) com uma entrevista do ainda Leo, não Messi, a obra com pouco mais de 20 minutos reconta a história com riqueza de detalhes e traz entrevistas riquíssimas com pessoas envolvidas diretamente na situação, tanto de um lado como de outro.
“Te chamam Leo, não?”, pergunta o repórter, e um tímido adolescente responde que “sim” mais com o movimento de cabeça do que com a voz, que praticamente não sai.
O objetivo da briga era um só: ter o jovem à disposição da seleção nacional, a da Argentina ou a da Espanha. “As seleções de base da Argentina não conhecem o Leo, e aqui a seleção espanhola quer convocá-lo, mas ele é argentino”, afirmou Horacio Gaggioli, representante do jovem de 2001 a 2005, ao pedir ao jornalista da Barça TV, Jaume Marcet, uma fita com lances do prodígio para que pudesse mostrar às pessoas que comandavam o futebol portenho à época.
Era isto mesmo. A Argentina, ou melhor, ninguém da Associação de Futebol Argentino (AFA) conhecia o garoto. Não tinham ideia de quem ele era. Já na Espanha, a partir do que ele fazia no Barcelona, já era mais do que visto, era admirado. E desejado. “Nunca vi nada como Messi”, afirmou ao documentário Marcet, que trabalhou na TV oficial do clube catalão por 23 anos, de 2000 a 2023, sempre focado na base.
E sem o país sul-americano convocar o jovem, qual a estratégia da Espanha para tê-lo? “A estratégia era convencê-lo por meio de seu treinador e seus companheiros, porque os presidentes das duas federações eram amigos íntimos, vocês têm que convencê-lo”, detalhou à obra Ginés Meléndez, diretor de seleções juvenis da Espanha de 2001 a 2023.
Em algum momento da entrevista, Meléndez confessa, brincando: “Precisávamos sequestrá-lo para jogar pela Espanha.”
A tal fita perdida... e o cozinheiro
O pedido de Gaggioli foi feito em 2003 a partir de uma ideia do pai de Leo, Jorge Messi, que estava sendo pressionado por pessoas da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF) para que aceitasse a oferta para que o filho se naturalizasse espanhol e defendesse a seleção europeia.
Em uma passagem da seleção principal da Argentina por Barcelona, Gaggioli foi até o hotel em que estava o grupo, pediu e conseguiu conversar por algum tempo com Claudio Vivas, que era assistente-técnico de Marcelo Bielsa, o técnico, e lhe entregou a fita VHS, que foi levada à Argentina apenas dois meses depois e entregue nas mãos de Hugo Tocalli, diretor-técnico do time sub-17 albiceleste de 2001 a 2005.
“Tinham só cinco ou seis jogadas de Messi, pus a fita e...” A expressão de Tocalli a seguir, no documentário, fala por si só. Mas o Mundial sub-17 naquele 2003, disputado na Finlândia, estava muito próximo, e o técnico não quis ser injusto com os jovens com os quais já vinha trabalhando. Leo seguiu fora. Quis o destino que a Espanha eliminasse a Argentina por 3 a 2 naquele campeonato, na semifinal, com dois gols de Cesc Fábregas.
Naquela mesma noite, em um jantar com as duas delegações no mesmo local, o cozinheiro do grupo espanhol sai da cozinha, vai até Tocalli e lhe diz: “se tivesse trazido o garoto que joga no Barcelona, você seria campeão com esta equipe que tem”. A reação do comandante foi de muita surpresa, até o cozinheiro sabia quem era o jovem de Rosário.
“Foi como se tivessem me cravado um punhal, não consegui dormir naquela noite!”, explicou Tocalli na obra. E quando imaginou que ao menos se sairia bem na resposta, sofreu outro baque: “Parei, o olhei e falei, ‘sim, Messi’. E ele me disse: “Como você o conhece e não o trouxe?”
É aí, agosto de 2004, que tudo, de fato, começa a mudar. Tocalli age, mas achar Leo ou alguém de sua família – ou qualquer pessoa aleatória naquela época - era uma missão complicadíssima. Até lista telefônica teve que ser usada. E uma engenharia absurda teve que ser feita, com direito a amistoso às pressas, súmula Fifa, árbitro local e várias outros pequenos detalhes, todos explicados no documentário, para que Mecci, assim mesmo, com cc, fosse finalmente convocado pela primeira vez, e por fax, para jogar pela Argentina.
Mecci com cc, por quê? Esta e outras várias minúcias de uma das mais fantásticas histórias do futebol só assistindo a ‘Messi, a Fita Esquecida’.
