Para muitos, Portugal é um dos principais favoritos ao título da Copa do Mundo de 2026. Já para Roberto Martinez, o país ainda é um "candidato". Um espanhol com pés no chão, mas que naturalmente não deixa de sonhar com a conquista inédita a representar o país vizinho.
Em entrevista exclusiva à ESPN, o treinador da seleção portuguesa se considera um "maluco" por futebol. Admite que entende e aceita os críticos, mesmo aqueles que enxergam a necessidade de ver, por exemplo, Cristiano Ronaldo fora do time.
Para Martínez, aliás, Ronaldo é um capítulo a parte neste momento. Um ser humano diferenciado. Dono de um compromisso ímpar. Um sentimento que vai muito além das quatro linhas, no caso.
Veja a entrevista completa de Martínez à ESPN:
Você tem uma frase, que, pra mim, é muito significativa: "Não chamo o futebol de trabalho, chamo de paixão". Quando é que o futebol para você é paixão, e quando ele é trabalho? Não dá para dividir paixão e trabalho?
Acho que não. Acho que percebo o futebol como uma forma de viver. Então, o trabalho de treinador não é um trabalho das 9h às 17h. O treinador não consegue desligar. O trabalho de treinador é uma paixão, e precisa ser isso. Acredito que a longevidade do treinador, a longevidade de uma carreira profissional no futebol é pela paixão. Falo com treinadores novos, e, quando eles começam a tentar preparar os dias de folga, os dias de férias ou quando começar o trabalho, quando terminar... Não vai ter sucesso, porque acho que o trabalho do treinador só é uma forma de viver, uma paixão, e é 24 horas por dia.
Essa entrevista é uma paixão também? Ou é trabalho?
Acho que a entrevista é trabalho. Porque a ideia de falar com os veículos de comunicação é trabalho. Mas, depois, o conteúdo faz parte da paixão. O futebol é criar equipes competitivas, lutar por sonhos. Acho que o que acontece no vestiário, no futebol, é o que acontece na vida. Todos nós temos desafios, todos nós temos momentos difíceis, todos nós precisamos de um colega para tentar melhorar a competitividade, criar ambientes competitivos. Então, tudo aquilo que acontece – as emoções, os sentimentos dentro do vestiário – é o que acontece na vida. Então, eu acho que a mensagem, o conteúdo das entrevistas, fazem parte da paixão.
A gente divide então o futebol em trabalho e paixão. Certo. Mas quando o futebol é um fardo? Quando você fica farto do futebol?
Não existe [esse momento]. Sou um maluco do futebol. Também para desligar gosto de ver outros jogos. Acompanho jogos na televisão para poder desligar do meu trabalho. Não consigo dizer que há momentos [no futebol] que sejam trabalho. Não, não é isso.
Uma pergunta muito simples para trazer para a atualidade e para o seu mundo: você acredita que a seleção brasileira, um dia, possa ser dirigida por um técnico argentino?
Acho que há pessoas, profissionais, que são perfeitas para determinado trabalho. Não acredito que a nacionalidade seja uma vantagem ou uma limitação para fazer um trabalho. Então, por que não? Nasci na Espanha, mas vivi 21 anos na Inglaterra e, depois, sete anos na Bélgica. Acho que a nacionalidade não é uma vantagem e não te limita para ser bom no seu trabalho.
Há a rivalidade cultural e futebolística entre Brasil e Argentina e há a rivalidade cultural, geográfica, política, entre outros pontos, entre Portugal e Espanha. Já foi dormir pensando: "Eu, um espanhol, sou treinador de Portugal”? Foi sempre um sonho, um pesadelo, algo mexia contigo?
(Risos) É sonho. Porque não é a nacionalidade, é a oportunidade de partilhar um objetivo comum. Que, para mim, agora, é tentar ajudar a seleção portuguesa a ganhar uma Copa do Mundo. É um objetivo comum. Então, onde é o início e o ponto de partida? Não é a nacionalidade. É o compromisso para trabalhar por um objetivo. E estou cheio de orgulho de ter essa oportunidade e responsabilidade também.
Nunca foi um obstáculo, mas, no seu entorno, em algum momento você percebeu que isso pudesse ser um problema ou um obstáculo a superar?
Acredito muito que, no futebol, nós, treinadores, precisamos ganhar. Então, não é a nacionalidade, não é o estilo. É tentar ganhar jogos e crescer como equipe, e o trabalho do dia a dia. Acredito muito naquilo que acontece no gramado, no vestiário. Estou muito satisfeito com tudo isso. O compromisso da comissão técnica, com o compromisso da equipe de apoio e dos jogadores. Acho que jogar pela seleção é muito especial. É um momento marcante na carreira do jogador, é um orgulho para os jogadores. Então, é nisso que eu foco meu trabalho. O resto faz parte do debate, do barulho à volta da seleção. Mas não condiciono isso ao meu trabalho.
Mister Roberto Martínez, campeão do mundo por Portugal. Já imaginou? Automaticamente, a gente pode considerar você o maior espanhol da história de Portugal?
(Risos). Acredito muito nos sonhos. Os objetivos começam em sonhos. E isso, acho que é um bom sonho. Então, por que não?
Você tem em mãos uma geração espetacular, de grandes jogadores portugueses. E, durante muito tempo, seis, sete anos, quase oito, teve nas suas mãos uma geração da Bélgica que encantou muita gente. Consegue traçar um paralelo daquela sua geração da Bélgica com essa geração de Portugal?
É uma conversa interessante. Porque o aspecto de talento individual é muito semelhante. Há jogadores que têm a capacidade de ganhar jogos em momentos de qualidade, momentos-chave de lances do jogo. Mas o aspecto coletivo é muito diferente, porque as seleções, culturalmente, sempre representam o país. Isso faz com que o vestiário seja muito, muito diferente. A Bélgica tem três idiomas oficiais, há muita variedade cultural. Portugal é um idioma, culturalmente é muito mais fechado. Então, há muitas diferenças em nível de ambiente, mas o aspecto individual, de qualidade de jogadores que conseguem ganhar um jogo, e o desafio de tentar ter os 11 equilibrados é semelhante.
Você concorda ou discorda, e como você lida quando muita gente fala que Portugal vence, mas quase sempre não convence? E como você rebate esse tipo de afirmação?
Gosto da paixão em volta da nossa seleção. E a paixão é opinião, é debate, faz parte da nossa seleção. Posso controlar o compromisso, a atitude, o trabalho dos jogadores, o que acontece em campo, o que acontece no vestiário. E, com isso, fico muito, muito satisfeito. Nós trabalhamos para o aspecto objetivo; o objetivo é ganhar, marcar gols. Fico satisfeito de ver os números dessa seleção, uma equipe que marca gols e tem a maior porcentagem de gols por jogo, maior porcentagem de pontos por jogo. É isso que é a conversa objetiva. Depois, subjetivamente, faz parte. Tenho respeito por todas as opiniões, mas acho que esse Portugal convence. Os números dizem isso: uma equipe que corre riscos, que gosta de ter a bola, que gosta de atacar. E isso faz com que seja uma equipe que tem muito reconhecimento fora de Portugal, o que também é importante. Mas acredito que todas as críticas, todas as opiniões, são saudáveis. Porque são opiniões da paixão que as pessoas têm pela seleção.
De 0 a 10, em que nível está a seleção portuguesa hoje às vésperas de um Mundial? E o que falta para ela ficar melhor estruturada?
O que falta é o que nós vamos fazer durante os três primeiros jogos da Copa do Mundo. Porque, agora, estamos apurados, mas só temos três jogos. E é isso que precisamos controlar bem, os três períodos de 90 minutos que nós temos. Porque acredito muito que uma equipe fazer um bom torneio, ganhar o Mundial, envolve o que acontece durante esses três jogos. A equipe cresceu muito com os desafios do passado, com o que aconteceu na fase de preparação para a Eurocopa, durante a Eurocopa e, depois, o aspecto de ganhar a Liga das Nações da UEFA em seu formato mais exigente. Acho que é uma caminhada que faz parte da preparação da nossa equipe para o Mundial. Mas a preparação certa vai ser durante os três primeiros jogos do Mundial.
O que mais te orgulha neste momento da sua equipe? E o que te incomoda? Há algo?
Muito bem. Acho que tenho muito mais para dizer sobre o bem do que sobre o mal. Em relação ao bem, há uma atitude e um sentimento. A atitude é o compromisso. Acho que é fácil de falar de compromisso dos jogadores pelas suas seleções fora da Europa, porque é um aspecto diferente. Acho que, na Europa, é difícil jogar pela seleção, e os nossos jogadores portugueses são exemplares. O compromisso é total, e isso é um aspecto que é meu ponto de partida para tudo aquilo que nós queremos trabalhar taticamente, tecnicamente e em relação a aspectos de desempenho. O sentimento é um sentimento de orgulho; os jogadores, a comissão técnica, a equipe de apoio, todas as pessoas em volta da seleção têm orgulho de representar a camisa. A atitude de compromisso e o sentimento de orgulho são um começo muito importante para nós. O que eu não gosto é aquilo que fazemos em março. A seleção precisa de mais tempo para relembrar os conceitos, ou aquilo que nós somos como equipe de futebol. Estou falando de março de 2024, março de 2025. São estágios em que nossa equipe precisa de mais tempo para recuperar aquilo que é feito durante novembro, outubro e setembro. Ainda agora, o período entre novembro e março é um aspecto difícil nas seleções. Não gosto de como nós começamos os períodos de março. Mas há pouco de mal para falar.
Você se assume claramente como "favorito" no Mundial?
Favorito é uma boa palavra. Favorito, não. Candidato, sim. Porque, na Europa, só há quatro seleções que estiveram em todas as competições importantes desde o ano 2000: Alemanha, Espanha, França e Portugal. Então, estamos no patamar certo para aceitar a responsabilidade, a exigência, a expectativa dos torcedores. Isso é ser candidato. E acredito muito em nossa atitude, em nossos valores como equipe. Favorito? Favorito, não. Acho que, para ser favorita, a seleção precisa já ter sido campeã mundial, porque há um aspecto psicológico nisso. Vai ser o meu terceiro Mundial, e acredito muito que o aspecto psicológico é muito importante para ser competitivo durante o Mundial. E só há oito seleções, durante 92 anos de Mundiais, que ganharam a competição. E acho que são esses exemplos, de gerações antigas, que preparam psicologicamente o vestiário para poder ganhar o Mundial com a palavra "favorito".
Então há favoritos, certo?
Acho que há. Acho que seleções como a Argentina, como o Brasil, que estão em um bom momento, são candidatas, mas têm o passado, a história que fazem a candidata ser favorita. Alemanha, Espanha, França, são seleções que são candidatas pelo momento em que estão. O ranking mundial mostra o nível de jogadores e o que as equipes estão fazendo, mas têm a mais-valia do passado, da história dentro dos Mundiais, de gerações antigas.
Destaque especial para algum favorito?
Agora, não. Não acredito que há uma seleção que seja mais favorita que outra antes do torneio. Porque agora temos quase 20 semanas [antes do início da Copa do Mundo], durante as quais lesões e outros aspectos podem mudar. E há o período da fase de grupos. Acredito muito que as equipes crescem dentro dos torneios. É um Mundial muito complexo, com muita logística, condições climáticas, condições de altitude. Acho que há um aspecto muito exigente dentro da preparação no Mundial, e acho que os três primeiros jogos são essenciais para diferenciar, dentre as seleções candidatas e favoritas, qual seleção é a mais favorita.
Já falamos do bem e do mal da seleção portuguesa. Agora, Roberto Martínez por Roberto Martínez: qual é a sua maior virtude e seu maior defeito?
A maior virtude, acho eu, é que consigo acreditar muito em jogadores e nas pessoas atrás dos jogadores para dar tudo pelo objetivo comum da equipe. Consigo ser racional nesses momentos. E o mais difícil é também o mesmo: acreditar muito em pessoas que depois não mostram o mesmo compromisso, o mesmo foco para dar tudo aquilo que a equipe precisa.
Pode me dar um exemplo prático do acreditar e ter resultado positivo?
Falando de aspectos semelhantes, o Mundial de 2018 e o desempenho que a equipe belga teve contra o Brasil, por exemplo. Foi uma preparação muito exigente do ponto de vista tático. Preparar um jogo em 72 horas, dentro do Mundial, exigiu muito, mas era um risco que precisávamos correr. Acho que é um bom exemplo do que é acreditar muito em uma equipe de futebol, em um grupo de pessoas. De poder executar, com a maior exigência, jogar com um adversário como o Brasil... E o resultado foi uma execução fantástica e um jogo histórico.
Agora então vamos falar do Cristiano Ronaldo: qual é a maior qualidade e o pior defeito dele?
Acho que nós precisamos aceitar que todas as pessoas do mundo conhecem o Cristiano Ronaldo e têm uma opinião [sobre ele]. Mas o Cristiano Ronaldo, quando chegou na seleção, há 21 anos, não é o mesmo Cristiano de agora. Agora, é um jogador muito mais de posição, de ponta de lança. É um jogador que, para nós, é um finalizador. É o melhor marcador [de gols] da história. Então, ter um jogador que, agora, está com 25 gols nos últimos 30 jogos da seleção, é um presente. É o agora, não estamos falando do que o jogador fez há 10 anos. Então, para mim, é muito importante o compromisso dele. É o único jogador do mundo que tem mais de 220 internacionalizações. Então, com a experiência do Cristiano Ronaldo, ter o compromisso que ele tem... Ele é um exemplo. E é um jogador que contagia o vestiário. Em campo, é um finalizador, que atrai marcadores durante o jogo e abre espaço; e, para nós, esse é um aspecto muito importante, também com toda a experiência que ele consegue transmitir aos jogadores. Defeito? Acho que o defeito de um jogador, em geral, é quando não há compromisso, quando há falta de atitude. Então, um jogador sem compromisso, sem atitude, não é chamado para a seleção.
Mesmo aos 40 anos, mesmo jogando na Arábia Saudita, por que o Ronaldo é tão imprescindível para a seleção?
Acho que é o foco que ele tem para melhorar. Ainda agora, acho que ele está mostrando que a idade é um número. Para ele, todos os dias são oportunidades de melhorar e conseguir acrescentar aquilo que ele consegue trazer à seleção. Nós, da comissão técnica, avaliamos todos os jogadores, todos os dias. Então, nossa avaliação de nosso capitão é a mesma que fazemos com outros jogadores. E ele consegue estar em um nível que faz com que mereça ser chamado. E a seleção é melhor quando o Cristiano está em campo.
Frequentemente, você escuta que Portugal é melhor sem o Cristiano, mas os números claramente jogam a favor dele. Te peço, agora, uma resposta para além dos números. Por que Portugal joga melhor com ele?
Estamos falando do jogador mais experiente do mundo. O jogador mais experiente dentro do futebol mundial. Então, para nós, precisamos utilizar isso. Só pode ser positivo um jogador novo chegar ao vestiário e poder aprender do jogador mais experiente que existe. Depois, há o aspecto dos movimentos dentro da área. É um jogador muito inteligente, abre espaços, rompe a linha defensiva, abre espaços para outros jogadores. E é um jogador de área. É esse o aspecto em que precisamos utilizar as valências do Cristiano. Mas todos os aspectos dele, de compromisso, do que significa jogar pela seleção – são muito importantes. É o melhor marcador [de gols], é o melhor jogador de área que nós temos em Portugal.
Existe algum exemplo prático em que você olha pro Cristiano e fala: "Esse jogador não é real, é impossível um ser humano fazer o que ele faz"?
Acho que a resiliência dele é difícil de encontrar. Não em nível de jogador de futebol, mas em nível humano. É muito difícil que uma pessoa que, depois de ter muito, muito sucesso, no dia seguinte, quando acorda, tenha a mesma fome. Acho que isso faz com que o Cristiano seja único. Não é o aspecto esportivo, é o aspecto humano, é ele conseguir, todos os dias, ter a mesma fome, depois de ter sucesso.
Se você sentir necessidade, especialmente no Mundial, de encarar que a seleção, naquele momento, pode ser melhor sem o Ronaldo, você se vê preparado para tomar essa atitude? E como você enxerga o Ronaldo aceitando ou não essa eventual atitude?
Faz parte do meu trabalho. Estou há três anos já nessa posição. O mais importante é que a seleção ganhe, que a seleção esteja mais forte que o adversário. Isso é minha responsabilidade e também da comissão técnica. Tomar decisões difíceis faz parte do nosso trabalho. Acho que não cheguei hoje à seleção de Portugal. Acho que é uma pergunta muito válida para quem acabou de chegar na seleção, mas temos a experiência dos últimos três anos e o que é importante para mim é a atitude dos jogadores e criar um ambiente de alto desempenho, mas muito competitivo. E é isso que nós temos. Para o capitão e para os outros jogadores, é o que nós fizemos nos últimos três anos.
Diogo Jota: qual é a primeira imagem que você pensa quando pensa ou falar sobre ele?
Primeiro, a tragédia de perder o Diogo Jota e seu irmão André. É uma tragédia muito, muito difícil. O Diogo Jota é um estímulo, uma força, um aspecto de união dentro do vestiário. E de foco. Queremos fazer o que o Diogo Jota acreditava, que era: "Podemos atingir tudo aquilo por que lutamos". E é uma força que faz parte daquilo que construímos. A equipe que nós construímos é com o Diogo Jota e vai continuar a ser.
