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Camisa, calção e meia: a história dos uniformes do Brasil em todas as Copas do Mundo

A história do Brasil em Copas contada pelos uniformes nos Mundiais Dalton Cara/ESPN.com.br

Todos os jogos, títulos, vitórias, derrotas, festas e choros contados pelos uniformes do Brasil em todos os Mundiais.


Há várias maneiras de se contar a história do Brasil nas Copas do Mundo. Pelos títulos, vitórias, derrotas, vexames. Pelos gols e pelos artilheiros. Pelos heróis e vilões. E pelas camisas. Os mantos sagrados permeiam todo o caminho brasileiros nos Mundiais. Uniformes malditos, aqueles de derrotas marcantes, se unem aos eternos, de conquistas ímpares. Combinações que não existiam, mas acabaram surgindo pela necessidade. Outras que entraram em campo apenas uma vez, para nunca mais aparecerem.

A seleção brasileira já sabe que roupa vai usar na Copa do Mundo do Qatar, pelo menos na fase de grupos. A Fifa já anunciou as combinações para os três primeiros jogos.

A história entre em campo contra a Sérvia, dia 24, e também diante da Suíça, dia 28, rivais da estreia e da segunda rodada, respectivamente: a eterna combinação de camisa amarela, calção azul e meias brancas. É o estilo mais vitorioso do Brasil na história dos Mundiais.

Já contra Camarões, no último compromisso da fase de grupos, dia 2 de dezembro, o time do técnico Tite estará trajado de camisa azul, calção branco e meiões azuis. Combinação pouco usual, mas também com valor histórico.

Veja, abaixo, a trajetória do Brasil nas Copas por meio dos uniformes, uma história que une cores, combinações e, claro, muita superstição.

A estreia

Copas: 1930 e 1934
Camisa branca
Calção azul
Meias pretas

Retrospecto
Vitórias: 1
Empates: 0
Derrotas: 2

Foi em 14 de julho de 1930 que o Brasil estreou na história das Copas do Mundo. O resultado não foi dos melhores, derrota por 2 a 1 para a Iugoslávia. Foi com essa roupa que Preguinho, filho do escritor Coelho Netto e um dos grandes nomes do Fluminense, marcou o primeiro gol brasileiro em Mundiais. Mas o traje, usado também na primeira vitória, 4 a 0 sobre Bolívia, também em 1930, acabou aposentado depois da derrota por 3 a 1 para a Espanha, placar que eliminou o Brasil na Copa do 1934. A roupa da estreia durou apenas 4 anos e três jogos.


100% azul

Copas: 1938, 1994 e 2018
Camisa azul
Calção azul
Meias azuis

Retrospecto
Vitórias: 3
Empates: 0
Derrotas: 0

Três vitórias em 80 anos. E pensar que o uniforme inteiro azul surgiu de uma derrota na moedinha. No sorteio, o Brasil perdeu para a Polônia e foi obrigado a usar uma cor alternativa e sem distintivo. Leônidas fez um gol de meia - diz a lenda -, e Ernest Willimowski se tornou o recordista de gols contra a seleção brasileira, com três. Em 1994, a camisa voltou contra a Suécia. Quem são se lembra do dancinha do goleiro Thomas Ravelli? E do gol de cabeça do baixinho Romário em meio aos gigantes suecos? Em 2018, 2 a 0 no sufoco contra a Costa Rica, com gols de Philippe Coutinho e Neymar já nos acréscimos. Um uniforme para a história.


Uma única Copa

Copa: 1938
Camisa branca
Calção azul
Meias azuis

Retrospecto
Vitórias: 2
Empates: 1
Derrotas: 1

Foi em 1938 que camisa azul, calção e mais brancas entrou em campo. Foi também em 1938 que a indumentária se aposentou. Com o empate na estreia com a Tchecoslováquia, houve um replay para definir quem avançaria. O repeteco foi disputado apenas 48h depois, com vitória brasileira por 2 a 1. Derrota para a Itália na semifinal, vitória sobre a Suécia na disputa do bronze, e o Brasil, pela primeira vez, aparecia no pódio da Copa. E Leônidas se tornaria o 1º brasileiro artilheiro de um Mundial, com 7 gols em 5 jogos.


Roupa maldita?

Copa: 1950
Camisa branca
Calção branco
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 4
Empates: 0
Derrotas: 1

Foram 4 vitórias, 19 gols a favor, 2 contra. Uma campanha irretocável. Aí veio o 16 de julho de 1950, veio o Uruguai, a derrota, a história. O Maracanazo foi, por 64 anos, o momento mais doloroso do futebol brasileiro. No jogo marcante e eterno, o Brasil entrou em campo inteiro de branco, como fizera em outras 4 partidas do Mundial. Muito provavelmente pelo resultado, o uniforme nunca mais foi usado em Copas e se tornou uma espécie de "roupa maldita" na história da seleção. O Maracanazo doeu tanto que mudou até a camisa do Brasil.


Vaias em São Paulo

Copa: 1950
Camisa branca
Calção azul
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 0
Empates: 1
Derrotas: 0

A primeira Copa do Mundo no Brasil, em 1950, reservou o Pacaembu para um único jogo da seleção em São Paulo, contra a Suíça. Não, não foi uma boa experiência. O meio-campo de jogadores cariocas, formado por Eli, Danilo e Bigode, foi trocado pelo técnico Flávio Costa por um trio paulista, Bauer, Rui e Noronha. Desentrosamento à parte, a retranca do rival deu resultado. O Brasil chegou a abrir 2 a 1, mas os rivais empataram no fim. Assim, a seleção deixava o Pacaembu sob vaias, em sua única aparição paulista no Mundial.


Um clássico

Copas: 1954, 58, 62, 66, 70, 74, 78, 82, 86, 90, 94, 98, 02, 06, 10, 14 e 18
Camisa amarela
Calção azul
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 44
Empates: 12
Derrotas: 8

O Maracanazo criou um trauma tão grande que até a roupa precisava ser esquecida. Nascia, na estreia na Copa do Mundo de 1954, contra o México, a combinação que virou um verdadeiro manto para a seleção: camisa amarela, calção azul, meia branca. Dos cinco títulos, três vieram com essas cores, usadas nas decisões de 1962, 1970 e 1994. No total, essa roupa foi usada em 64 dos 109 jogos do Brasil em Mundiais, 58,71%. A seleção soma 73 vitórias em Copas, sendo 44 com esse uniforme, 60,27%. Uma herança bela e eterna do Maracanazo.


Invicto

Copas: 1958, 1974 e 1978
Camisa azul
Calção branco
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 3
Empates: 0
Derrotas: 0

Uma vitória na final, contra a Suécia, em 1958, eternizando a combinação camisa azul, calção branco e meias brancas como aquela que levantou o primeiro título brasileiro na história das Copas. Foram mais duas vitórias: outra sobre o principal rival, a Argentina, em 1974, e quatro anos depois, sobre a Polônia, em jogo que levou a seleção à disputa de terceiro lugar. Três jogos, 100% de aproveitamento. Não dá para reclamar. Curiosamente, o uniforme não é usado pelo Brasil em Copas há 40 anos, uma espécie de descanso para o manto da primeira taça.


A roupa de 2014

Copas: 1962, 1974, 1978, 1986, 2006 e 2014
Camisa amarela
Calção branco
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 5
Empates: 3
Derrotas: 2

Foram 10 jogos na história com essa combinação, 4 deles na Copa de 2014. Não, não é a roupa do 7 a 1, mas, das 7 partidas do Brasil em "seu" Mundial, 4 foram de camisa amarela, calção branco e meias brancas. Dá para dizer, sem erro, que essa se tornou a roupa da seleção na Copa em sua casa. As emoções foram distintas: da goleada sobre Camarões à vitória sofrida sobre o Chile nos pênaltis, do aperto diante da Colômbia à saideira desanimada na disputa do terceiro lugar contra a Holanda. Um uniforme para ser esquecido.


Único e histórico

Copa: 1970
Camisa amarela
Calção azul
Meias cinzas

Retrospecto
Vitórias: 1
Empates: 0
Derrotas: 0

O Brasil usou meias cinzas apenas uma vez na história das Copas, fazendo que a combinação com camisa amarela e calção azul se tornasse única. Afinal, foi no icônico jogo contra a Inglaterra, em 1970, que esse uniforme foi utilizado. E nunca mais. Assim, foi com essa roupa que Pelé cabeceou firme e viu Gordon Banks realizar aquela que é considerada a defesa mais difícil e bonita de todos os Mundiais. Foi com as meias cinzas que Tostão fez uma jogada absurda e cruzou para Pelé, que ajeitou para Jairzinho fazer um gol inesquecível.


Para esquecer?

Copa: 1974
Camisa azul
Calção azul
Meias brancas

Retrospecto
Vitórias: 0
Empates: 0
Derrotas: 1

Outra combinação que foi usada apenas uma vez, bastando para ser aposentada em Copas. "A Holanda não me preocupa" foi uma das frases do técnico Zagallo antes do duelo contra o Carrossel. O futebol total implementado por Rinus Mitchels, simbolizado pela genialidade de Johan Cruijff, deu a resposta em campo: 2 a 0 e a eliminação do Brasil no Mundial de 1974. "Perdemos para uma grande equipe" foi uma das frases de Zagallo após a derrota. Era o fim do sonho do tetra, e também o fim da linha para a roupa azul e branca.


O penta e duas dores

Copas: 1990, 1998, 2002, 2006 e 2010
Camisa amarela
Calção azul
Meias azuis

Retrospecto
Vitórias: 7
Empates: 0
Derrotas: 2

O uniforme "quase" clássico - com meias azuis ao invés de brancas - tem 7 vitórias em Copas, 1 título, mas dá citar que as 2 derrotas foram das mais marcantes. Começamos pelas más notícias: foi essa combinação que viu Maradona entortar a defesa inteira e dar o gol para Caniggia eliminar o Brasil em 1990, assim como Henry repetiu em 2006. Entre as dores, a glória máxima: a vitória por 2 a 0 sobre a Alemanha, com shows de Rivaldo, Ronaldo e cia, e a conquista do penta em 2002, o último título mundial brasileiro. Um uniforme histórico.


Quatro jogos e muita história

Copas: 1994, 2002 e 2010
Camisa azul
Calção branco
Meias azuis

Retrospecto
Vitórias: 2
Empates: 1
Derrotas: 1

A combinação estreou na primeira fase de 1994, no empate com a Suécia. Depois, só jogos que se tornaram inesquecíveis, começando pelo espetacular 3 a 2 sobre a Holanda, nas quartas de final no caminho para o tetra. Foi com essa roupa que Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho (que gols!) viraram sobre a Inglaterra rumo ao penta em 2002. E veio a Holanda de novo, dessa vez sem alegria: Robinho marcou, Felipe Melo foi expulso, mas Sneijder resolveu dar show e virou, eliminando o Brasil em 2010. Uma roupa de festa, de boas memórias - e um tropeço.


100%

Copa: 2002
Camisa amarela
Calção branco
Meias azuis

Retrospecto
Vitórias: 1
Empates: 0
Derrotas: 0

Mais uma indumentária usada apenas uma vez, com 100% de aproveitamento. No caminho para a conquista do penta, o Brasil, classificado, pegou a Costa Rica, que ainda sonhava com a vaga. Felipão poupou os pendurados Roque Júnior e Ronaldinho, e o jogo virou uma maluquice. Sobrando, a seleção fez 3 a 0, com direito a golaço de Edmilson. A defesa cochilou, os rivais descontaram, 3 a 2. Rivaldo e Júnior marcaram e construíram a goleada, 5 a 2. E foi assim que a combinação entrou em campo apenas uma vez em Mundiais.


*Edição de Ricardo Zanei e Igor Resende, arte de Dalton Cara e Bárbara Resende