Manchester City e Bayern de Munique são duas das grandes potências do futebol europeu e os maiores vencedores em seus respectivos países nos últimos anos. Por isso, é inegável que o embate entre eles nesta terça-feira (11), às 16h (de Brasília), em Manchester, é o grande destaque da abertura das quartas de final da Champions League.
O confronto tem diversos pontos a serem explorados: João Cancelo e Leroy Sané contra o City pela primeira vez, Erling Haaland revivendo os duelos que travou ainda pelo Borussia Dortmund e, claro, o reencontro de Pep Guardiola, equipe que dirigiu com sucesso entre 2013 e 2016, até sair para assumir justamente o City.
Mas, antes mesmo de trabalhar na Alemanha, o técnico espanhol já foi indiretamente personagem de uma história que virou piada nos vestiários de Munique. Isso aconteceu em abril de 2009, na temporada dominada pelo Barcelona de Guardiola e que teve o Bayern como uma de suas vítimas na Liga dos Campeões.
Quem conta a passagem é Zé Roberto, ex-meia de Portuguesa, Real Madrid, Flamengo, Santos, Grêmio, Palmeiras e seleção brasileira. Em entrevista ao podcast Denilson Show, do hoje comentarista da TV Bandeirantes, o ex-jogador lembrou a segunda passagem pelo Bayern e a vez em que o Barça esmagou a tática alemã.
Na temporada 2008/09, o Bayern estava invicto na Champions e havia classificado às quartas de final após meter 12 a 1 no agregado contra o Sporting, na fase anterior. Eis que o sorteio colocou o time de Munique contra o Barça, que já mostrava seus sinais de sucesso nas mãos de um iniciante Guardiola.
Os jogadores do Bayern, ao saberem quem enfrentariam no mata-mata, não esconderam o desânimo. Até que Jurgen Klinsmann, ex-atacante e comandante do clube naquele ano, decidiu levantar o moral de seu elenco e soltou a promessa que o deixaria marcado para sempre.
"A gente estava no almoço. Saiu o sorteio, Bayern x Barcelona. Os jogadores todo mundo aqui ó [abaixa a cabeça]. O Klinsmann bateu palma, levantou e falou assim, sem sacanagem: 'Pessoal, fiquem tranquilos que eu tenho a tática para fazer a pressão no Barcelona lá dentro do Camp Nou, porque esse Barcelona é um time de m***'. Só que todo mundo achou que ele estava brincando (risos)", lembrou Zé Roberto.
A preparação para parar o Barça
"Aí chegou na semana do primeiro jogo. Na segunda-feira, ele separou os coletes, time A e time B, e montou o time titular. 'Desde o primeiro momento, juiz apitou, a gente vai pressionar o Barcelona lá dentro, eles não vão sair de jeito nenhum'. Fez segunda, terça, na quarta de manhã antes do jogo. O que aconteceu? Time B tocava duas vezes na bola, a gente roubava", continuou o brasileiro.
"A gente treinou esses três dias, funcionou, o time B não respirou. A tática nossa é essa. Primeiro minuto as linhas sobem, a gente encurta o campo e eles não saem. Klinsmann terminou de falar, passou as instruções individuais de cada um, quem ia acompanhar o Messi. Finalizou a preleção, antes de a gente sair, o Oliver Kahn, que era o capitão, levantou a mão lá atrás e falou: 'Mister, você tem certeza?' (risos). Ele falou: 'Oli, tenho certeza'", seguiu Zé Roberto.
Mas a prática não seguiu em nada a teoria na cabeça de Klinsmann...
Com 12 minutos de jogo, Lionel Messi e Samuel Eto'o já haviam colocado 2 a 0 no placar a favor do Barcelona no Camp Nou. A vantagem dobrou até o intervalo, com outro gol de Messi, aos 38, e mais um de Henry, aos 43. Final: 4 a 0 para o Barcelona, que também "goleou" em chutes a gol (17 a 3), escanteios (12 a 1) e só teve números menores que o Bayern em faltas cometidas (22 a 13 para os alemães).
Quem vestia a camisa do Bayern, caso de Zé Roberto, sabe o sufoco que significou aquela noite na história do clube.
"Começou o jogo, bola com os caras, eles ficaram cinco minutos com a posse de bola. Parecia bobinho. Final do jogo: 4 a 0 para eles (risos). Fora o totó, o 'ameaço' e os dois pênaltis que não deram no Messi... No final do jogo, todo mundo de cabeça baixa, ele meteu aqui: 'Pessoal, me perdoem porque hoje minha tática não funcionou'. Na minha cabeça, eu doido para falar: também, se tivesse escutado o Kahn...", finalizou o brasileiro.
Após a vitória por 4 a 0 no jogo de ida, o Barcelona foi até Munique e empatou em 1 a 1 com o Bayern para seguir adiante na Champions, que ganharia após superar o Chelsea na semifinal, com direito a uma arbitragem bastante contestável, e o Manchester United na decisão. Os alemães só chegariam à final do torneio na temporada seguinte, em 2009/10, quando perderam a taça para a Inter de Milão.
E Klinsmann?
O ex-atacante foi demitido pelo Bayern dias após a eliminação na Champions e ficou mais de um ano parado até aceitar o trabalho de consultor do Toronto, time do Canadá que disputa a Major League Soccer (MLS) dos Estados Unidos.
Voltou a ser técnico na seleção dos Estados Unidos, entre 2011 e 2016, teve rápida passagem pelo Hertha Berlin entre 2019 e 2020 e hoje comanda a equipe nacional da Coreia do Sul.
Seja onde for, dá para garantir sem medo de errar: jamais deu uma bola fora como aquela contra o Barça.
