A mais recente fala contra a “invasão” de estrangeiros no futebol brasileiro partiu de Dorival Júnior, técnico muito vitorioso nos últimos anos e que teve a chance (não aproveitada) de dirigir a seleção pentacampeã do mundo. Segundo ele, é preciso reduzir o número de atletas gringos nos times do nosso país, caso contrário no futuro a seleção irá pagar um preço alto devido à falta de oportunidade para jogadores nacionais.
Essa é uma discussão que aconteceu há muito tempo na Europa, e desde então a Europa domina o mundo com seus clubes e com suas seleções também (o título da Argentina no Qatar em 2022 quebrou uma longa série de títulos das seleções do Velho Continente, novamente favoritas para o título mundial neste ano).
A Inglaterra, que para muitos não é uma potência da bola em termos de seleção, está cada vez mais forte e competitiva, produzindo talento local mesmo tendo a liga nacional mais globalizada e valorizada do planeta (o Brasil não consegue produzir um Kane faz tempo). Os ingleses mostraram o caminho para a Bundesliga, que cresceu bem atraindo também dezenas de profissionais estrangeiros. E a tradicional Alemanha continua competitiva como seleção.
LALIGA convive há muito tempo com diversos estrangeiros (em especial o Real Madrid), e a Espanha é a seleção mais vitoriosa deste século. A França, que esteve nas finais das duas últimas Copas do Mundo, abriga uma infinidade de gringos e ainda assim forma grandes jogadores em massa. E a Itália, que tem sofrido recentemente para se classificar para Copas, teve durante muito tempo o campeonato nacional mais badalado do mundo e, nessa época em que era o Eldorado da bola atraindo os melhores jogadores do planeta, chegava forte nos Mundiais e os vencia por vezes.
Silvio Berlusconi, inclusive, profetizou que os clubes passariam a ser mais importantes do que as seleções e contribuiu para a globalização no futebol e para a criação da Champions League (ele queria uma Superliga mesmo).
“A Itália pagou um preço altíssimo em duas Copas do Mundo, tendo dificuldade muito grande nesta terceira”, alega Dorival, sem citar os outros países da Europa que têm se classificado com tranquilidade, ainda mais com a Copa sendo inchada para 48 países. Mesmo se não tiver nenhum jogador brasileiro no Campeonato Brasileiro, o Brasil vai se classificar para todas as Copas do Mundo devido ao elevado o número de vagas (ainda mais aqui na América do Sul, onde poucos não avançam).
“Acho que está na hora de intervirmos em relação ao número de estrangeiros em cada equipe brasileira. Nós estamos penalizando uma geração e, futuramente, pagaremos um preço muito alto”, falou Dorival após o Corinthians vencer o Athletico por 1 a 0 no Brasileirão com gol do argentino Garro e com participação do holandês Memphis Depay, dois dos melhores jogadores do elenco corintiano. O Corinthians, que tem lançado bons garotos ultimamente, não é obrigado a contratar estrangeiros nem a escalá-los.
Na Espanha, o Athletic Bilbao só oferece oportunidades a jogadores bascos e, mesmo assim, nunca foi rebaixado. Uma potência do México é o Chivas, que também dá preferência total aos jogadores locais por tradição. Se o Dorival acha que é ruim ter muitos gringos, que ele monte suas equipes com atletas locais e pronto. O Athletico tem todo o direito de investir em vários jogadores bons e baratos dos nossos países vizinhos, reproduzindo de certa forma o jogo rápido, intenso e de imposição física de alguns deles. Não é o único clube do país que tem em seu elenco mais atletas estrangeiros do que o limite de nove jogadores gringos utilizados por equipe em cada jogo do Brasileiro. E está tudo certo. Eu sou contra o limite, sempre fui, desde quando era três por time, depois cinco, depois sete, agora nove.
O futebol globalizou e é preciso, para o bem do produto, reunir os melhores profissionais possíveis (jogadores, técnicos, preparadores, auxiliares, jornalistas etc.) do mercado, não importando o passaporte.
O domínio brasileiro nos torneios interclubes da América do Sul nos últimos anos passa muito pelo poderio econômico e pela “invasão” estrangeira. O nível aumentou, o sarrafo está mais alto, e isso obriga todo mundo a melhorar, seja esse um local ou quem vem de fora.
Faz bem para o nosso futebol ter novas ideias, novas cabeças, novos discursos, novos pontos de vista. O humilde e boa praça Juan Carlos Osorio, respeitável treinador colombiano que ficou muito marcado no Brasil por usar canetas coloridas para fazer suas anotações durante os jogos, citou o Barcelona de Cruyff para explicar o funcionamento do Remo, seu atual clube, o que gerou estranheza em muita gente. Seu conhecimento sobre futebol e sobre a vida influenciou Rogério Ceni a ser técnico.
Houve quem criticasse a fala sincera de Osorio sobre o lateral-esquerdo Sávio, que o demitiu praticamente em coletiva de imprensa. Elogiou a parte técnica do atleta e explicou que não contava mais com ele por questões disciplinares (Sávio já foi punido por estar envolvido em esquema de manipulação de resultados). Não vou entrar aqui no mérito se Osorio está certo ou errado nas suas explanações públicas, mas o fato de ele não ser mais do mesmo já é algo bem positivo, na minha opinião. Ele é de fato um professor, alguém que ensina não só de tática, mas também sobre outras coisas além do futebol.
Agora cito o português Luís Castro, treinador do Grêmio, que abriu sua coletiva após a vitória contra o Atlético-MG dando uma mensagem de conforto para os mineiros que estão sofrendo com as fortes chuvas recentes.
“Antes de iniciar a conferência, quero enviar um grande abraço de solidariedade a todo estado de Minas Gerais pelo infortúnio que tiveram e que rapidamente possam se recompor. Um abraço para o povo mineiro”.
Vimos um estrangeiro que não está alheio ao que está acontecendo no nosso país e que se preocupa com coisas além das quatro linhas. Teve a sensibilidade ainda mais destacada por dirigir hoje um clube gaúcho que sofreu também com chuvas não faz tanto tempo assim. O Grêmio depois também mostrou solidariedade aos mineiros. Abel Ferreira, com seu jeito explosivo e competitivo, também já tocou em alguns momentos em pontos que ajudam as pessoas no Brasil a refletir sobre variados assuntos.
Gosto de ouvir o uruguaio raiz Diego Lugano, hoje meu colega na ESPN, fazendo comentários sobre tudo, assim como o britânico Tim Vickery, jornalista que traz um olhar diferente sobre o nosso futebol e a nossa sociedade. Não quer dizer que concorde sempre com eles, mas me animo ao me deparar com observações diferentes das que estamos acostumados desde sempre.
Há milhões de brasileiros que estão tentando uma vida melhor no exterior, isso nas mais diferentes funções (até técnicos que reclamam de “invasão” gringa já ganharam muito dinheiro trabalhando em outros países). Os estrangeiros também podem experimentar a vida no Brasil, inclusive no futebol.
O fato de sermos uma potência histórica desse esporte tão popular e global não deve servir de impedimento para que bons profissionais de fora cheguem para agregar nos nossos campeonatos e nos nossos clubes. Todo mundo pode contribuir para uma liga ainda mais forte e interessante. Aliás hoje só com mais atrativos o Campeonato Brasileiro poderá superar sua bolha e competir com as principais ligas nacionais europeias em termos de visibilidade mundo afora.
Se a ideia é de fato crescer, faturar mais e melhorar o que temos, precisamos mesmo de muitos estrangeiros. E não é isso que vai matar o nosso talento local. Tem espaço para todo mundo que é bom, independentemente do passaporte. Se um clube gaúcho quiser jogar com 11 atletas argentinos ou uruguaios, que seja feliz com sua decisão. Se o Laranja Mecânica do Paraná quiser atuar com 11 holandeses, está tudo bem. Cada clube escolhe seu caminho e seu elenco de acordo com seus ideais, seus projetos, suas ambições, suas raízes, suas condições financeiras.
John Lennon, um dos meus ídolos, já cantou pelo fim das fronteiras no hino global “Imagine”. Eu transporto a ideia dele para o nosso futebol.
