Vivendo grave crise em campo e presente na zona do rebaixamento do Brasileirão, o Botafogo também convive com polêmicas e confusões fora das quatro linhas. A novidade agora é a manifestação do grupo Eagle Football Holdings, que recentemente teve a administração assumida pela consultoria inglesa Cork Gully, em recurso contra a SAF do Glorioso, comandada pelo empresário norte-americano John Textor.
A ação foi aberta em um pedido de execução da SAF botafoguense contra a Eagle, em agosto do ano passado, de uma dívida de R$ 139.845.596,42 cobrada pela equipe brasileira da holding que controla também equipes como Lyon, da França, e RWDM Brussels, da Bélgica.
A Eagle contesta a execução, dizendo que ela seria inválida, por ter sido assinada, em todas as pontas, pelo próprio Textor - como representante do Botafogo, do clube belga e avalizador da própria holding na época.
O pedido é para que a dívida não seja reconhecida pela Justiça, mas a companhia também questiona as cifras. A argumentação é que o valor real da dívida é de R$ 127.490.763,84 e o clube alvinegro estaria cobrando R$ 12.354.832,58 a mais (esse cálculo, inclusive, é chamado de "erro crasso" nos autos).
Na ação, à qual a ESPN teve acesso, a Eagle ainda faz fortes acusações, dizendo que Textor tomou o controle da SAF do Botafogo na "mão grande" e descrevendo a situação atual como "estarrecedora".
A holding ainda afirma que as dívidas atuais foram "orquestradas" pelo próprio empresário americano em "uma série de transações ardilosas" do tipo "Zé com Zé" - ou seja, na qual ele emprestou dinheiro a ele mesmo.
"Por meio dos presentes embargos, a embargante, acionista controladora da SAF Botafogo, demonstrará que a execução em curso - estranhamente movida pela companhia contra sua própria controladora, para instrumentalizar, em claro desvio de finalidade, uma disputa societária havida entre elas - já nasce inquinada por uma profusão de vícios patentes e irremediáveis", escreveram os advogados da Eagle.
"A pretensão executiva movida pela SAF Botafogo é um retrato ostensivo e inaceitável do exato tipo de abuso que o direito brasileiro se propõe a repelir: a cobrança de título burlesco, engendrado no contexto de uma série de transações ardilosas, do tipo 'Zé com Zé', orquestradas por um único gestor antes de seu afastamento da Eagle Bidco, o Sr. John Charles Textor, que sempre ocupou todas as várias pontas da operação objeto desta lide e, agora, sem qualquer constrangimento, instrumentaliza a SAF Botafogo como ferramenta pessoal de pressão e coação em tentativa vexatória e lamentável de asfixiar a Embargante, verdadeira acionista controladora da companhia", seguiram.
"Não há dúvidas, neste caso, de que o Sr. Textor - que continua a usar e abusar do cargo de administrador da SAF Botafogo - jamais poderia ter interferido diretamente na negociação, celebração e consumação de empréstimos distantes das condições de mercado com outras entidades do grupo Eagle, agindo e operando a estrutura como se fosse um cofre pessoal a ser utilizado por ele na eventualidade de qualquer problema que pudesse surgir no futuro - como, no caso concreto, a disputa societária entre embargante e embargada, respectivamente, controladora e controlada", argumentaram.
"Todos os instrumentos que sustentam a pretensão executiva foram celebrados sob a condução direta do Sr. Textor que, à época dos fatos, detinha poder de decisão e influência determinante sobre as entidades envolvidas em cada uma das etapas e frentes da operação. Isso significa que, ao longo de toda a cadeia negocial, a mesma pessoa atuou, direta ou indiretamente, em ambos os polos das relações jurídicas, ora como representante da parte credora, ora como agente vinculado à parte devedora, ora como estruturador dos negócios que culminaram na imputação da incerta dívida à embargante", complementaram.
Os representantes da Eagle ainda dizem que execução pedida pela SAF alvinegra leva "perigo de dano" aos ativos do grupo, como o próprio Botafogo, podendo acarretar "danos de dificílima, quando não impossível, reparação".
"O perigo de dano é igualmente manifesto. Caso não seja atribuído efeito suspensivo aos presentes embargos, a execução poderá prosseguir com a prática de atos constritivos relevantes, inclusive sobre ativos estratégicos da embargante, com potencial impacto direto sobre sua estrutura societária", salientaram.
"Em outras palavras, o prosseguimento da execução poderá acarretar danos de dificílima - quando não impossível - reparação, circunstância que recomenda, com ainda mais razão, a suspensão imediata do processo executivo", concluíram.
A ESPN entrou em contato com John Textor, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. Caso o empresário se posicione, a matéria será atualizada.
Na manifestação inicial do Botafogo SAF no processo, contudo, o empresário defendeu o sistema de caixa único e afirmou não ter feito nada "na surdina", como acusa a Eagle.
"Primeiro, sempre foi do conhecimento de todos, seja no âmbito interno da Eagle Bidco, seja, ainda, no âmbito externo (mídia, mercado, torcedores etc), o sistema de caixa-único (ou cash pooling agreements) mantido entre os clubes integrantes da denominada Eagle. Não havia nada escondido, nada na surdina ou escamoteado", escreveu a SAF.
"Esse formato, naturalmente, visava a beneficiar todos os clubes integrantes do grupo Eagle. Era um modelo colaborativo e integrado, assim como se dava em relação às transferências (de forma definitiva ou via empréstimo) de jogadores. Era uma via de mão dupla, justamente em decorrência da constante transferência (sem custos) de jogadores entre os clubes", acrescentou.
Próximos jogos do Botafogo:
Mirassol (C) - 01/04, 19h30 (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Vasco (F) - 04/04, 21h (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Caracas (C) - 09/04, 19h (de Brasília) - CONMEBOL Sul-Americana - Transmissão no plano premium do Disney+
