OPINIÃO: Tratamento de participante, uma novidade para o Brasil em Copas

É possível que os jogadores e a comissão técnica da Seleção Brasileira não estejam minimamente incomodados, talvez até encontrem motivos para acreditar que é melhor assim. Mas é difícil lembrar de uma Copa do Mundo em que o Brasil, já na altura da rodada final da fase de grupos, tenha recebido o tratamento de um mero participante, como agora. O motivo não resvala na soberba dos favoritos ou, muito menos, na noção de que é perigoso provocar uma camisa pesada. O Mundial produz suas próprias manchetes, divulga suas próprias histórias. O Brasil gera e recebe menos interesse, embora tenha, sob o prisma da hierarquia, o melhor treinador da Copa, além de jogadores globalmente famosos.

Não é uma “nova era” ou um sinal dos tempos, no sentido de que o melhor que o futebol brasileiro pode reunir tenha deixado de atrair atenção e admiração. Provavelmente é resultado direto do que a Seleção mostrou em dois jogos; um roteiro de impressões negativas, necessidade urgente de ajustes e um número muito maior de interrogações do que se poderia imaginar. Essas sensações, somadas ao que a concorrência tem feito, encolheram o espaço normalmente reservado ao distintivo das cinco estrelas. A Copa está muito boa, mas muito boa mesmo, para que os protagonistas que se apresentaram até o momento dividam o palco com quem tem, por ora, apenas a própria tradição como argumento.

Como exemplo, bastaria pensar no que a ‘rodada dos goleadores’ – os dias em que a programação de jogos conspirou para oferecer Messi, Mbappé e Haaland juntos, num intervalo de poucas horas – já causou em termos de assombro e repercussão. Há uma corrida pela artilharia histórica dos Mundiais desde os primeiros dias, o que, em si, já é um fenômeno midiático suficiente. Um fenômeno que sugere perguntas como forma de se alimentar. Quem pode acompanhá-los? Cristiano Ronaldo responderá com gols? E Yamal? É cada vez maior o contingente de fãs que se relacionam com o mais coletivo dos esportes por intermédio de suas figuras, e quando se procuram as figuras do Brasil, elas estão tentando solucionar problemas.

O caso de Vinicius Jr. é simbólico. Não se sabe onde a Seleção estaria sem suas duas atuações, mas a leitura geral é quase a de um astro que não fez mais do que sua obrigação, enquanto se aguarda por um possível retorno de Neymar em condições muito distantes das ideais. Quanto a Ancelotti, alguém com nome e trajetória para ser percebido como um expoente do Brasil, a relação, ainda curta, não se sustenta. E o futebol, opaco, impõe um trabalho de reconstrução em plena fase de grupos, o que não estimula e nem inspira, ao contrário. O olhar direcionado à Seleção Brasileira, quando não é de suspeição, prefere esperar por mais informações para formar opinião.

Novamente, o vestiário brasileiro, diante de uma lista de tarefas longa demais para se preocupar com imagem, não deve estar preocupado. A história é pródiga em casos de equipes de baixa cotação que terminaram sorrindo. O futebol, em que cada jogo é uma rota para um novo destino, está sempre com a mão estendida.

*Este conteúdo não representa, necessariamente, a opinião da ESPN.