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Ex-Fluminense conheceu líderes de facções e até reencontrou agressor para levar futebol a presos: 'Está cheio de craques no presídio'

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'Você estava no meio do campo e escorregava no sapo': ex-Fluminense conta com detalhes as maiores dificuldades passadas na Série C em 1999 (3:29)

Roberto Brum conversou com o ESPN.com.br com exclusividade (3:29)

Roberto Brum, atualmente com 45 anos, se dedica a projetos sociais desde que pendurou as chuteiras e falou em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br


O sonho de encontrar no futebol um caminho para uma vida melhor une milhões de brasileiros. São poucos, no entanto, os que conseguem concretizá-lo e vencer no esporte.

Roberto Brum, hoje com 45 anos, é uma dessas exceções. De passagens marcantes por clubes como Fluminense, Coritiba e Santos, ele pendurou as chuteiras depois de uma carreira de sucesso. Mas não conseguiu abandonar aquela ideia de usar o futebol para transformar vidas.

Em entrevista ao ESPN.com.br, o ex-jogador, que coleciona pérolas como atleta, contou com detalhes uma das muitas iniciativas que participou desde que encerrou a carreira: a de organizar trabalhos sociais dentro de presídios no Rio de Janeiro.

Não foi simples, é verdade. Brum destacou que, de início, não conquistou a simpatia dos líderes de facções de cada pavilhão. O destino, porém, fez com que ele fosse reconhecido por um dos detentos. A partir daí, a integração foi mais fácil, segundo o ex-jogador, que se surpreendeu com o talento que encontrou atrás das grades.

Está cheio de craques nos presídios, cheio de jogador bom de bola lá. Vou te falar, é impactante”, contou.


As dificuldades e um reencontro inusitado

"Antes de implementar o projeto no presídio, a gente tem que ir lá falar com os ‘frentes’. E quem são os ‘frentes’? São vários pavilhões, e nós sabemos que, normalmente, eles são separados por facções. Não misturam para não ter briga entre eles, e eu tive que me submeter, nesse último torneio, a ir lá negociar com cada ‘frente’ do presídio, com cada pessoa que responde por cada facção."

“Eu cheguei numa facção, muito famosa aqui do Rio, e eu observei que eu estendia a mão para cumprimentar os presos, e eles não apertavam. Aí o servidor que estava me acompanhando falou: 'eles acham que você é policial e não apertam a sua mão'. Só que um preso me reconheceu, e gritou 'Brum, Brum, Brum'. O cara veio na minha direção, e chegou assim: 'Brum, eu era da Força Jovem'”, começou Brum, antes de relembrar o episódio que fez com que o detento o reconhecesse".

“Teve um episódio, quando eu jogava no Coritiba. A gente estava no ônibus, e um jogador do nosso time começou a discutir com um torcedor do Vasco na época, da Força Jovem. Eles discutiram, e o jogador do meu time ficou provocando, falou 'É Flamengo', mostrou uma camisa do Flamengo, algo assim, e isso gerou uma revolta nesse torcedor. Ele chamou os outros integrantes da torcida, a polícia já tinha ido embora de São Januário, eles invadiram o nosso ônibus e começamos a brigar, trocar socos e chutes com os torcedores que invadiram o nosso ônibus.”

“Eu lembro que, na época, o nosso presidente, o Giovani Gionédis, teve até o seu óculos quebrado com um soco no rosto. O Gélson, por exemplo, até hoje tem marcas no pescoço das agressões, e esse rapaz, que coincidentemente estava preso, foi um dos invasores”.

Um dos envolvidos na confusão no ônibus com os torcedores do Vasco e os jogadores do Coritiba foi Marco Brito. E mal sabia o ex-atacante, que teve passagens por Fluminense e pelo próprio clube cruz-maltino, que reencontraria um dos agressores em um projeto social.

“Ele (preso) falou: 'Brum, eu entrei naquele ônibus, o Marco Brito [atacante] me deu um soco na cara'. E eu falei 'meu Deus, o Marco Brito vai vir jogar contra eles aqui' [risos]. Eu levo jogadores para jogar contra os presos, e ele era um dos meus convidados, e eu falei 'vai ter o reencontro, o cara vai descontar o soco que o Marco Brito deu nele' [risos]. Aí eu falei: 'mas vocês, maior covardia, entraram lá, puxaram arma' - porque teve um que puxou uma arma e falou 'só apanha' - aí nós ficamos meio que só apanhando.”

“O jogador de futebol pode não ser lutador, mas ele faz exercício e aguenta o soco, mas pelo menos a gente pode se defender. Mas, nessa ocasião, tiraram esse direito nosso. Aí eu saí do estádio, tirei a camisa do Coritiba, fui até uma guarita da polícia e ali eu pedi socorro aos policiais. Enquanto eles chegavam, esses torcedores viram que o policiamento tinha chegado e saíram do ônibus, e assim a paz retornou. Foi um episódio muito interessante, uma resenha, aí depois eu falei para o Marco Brito: 'Marquinho, tem um preso que está te esperando lá no jogo que vamos fazer' [risos], e ele falou 'eu não vou de jeito nenhum', mas ele foi, ficou de boa lá, o preso levou na esportiva.”

“Aí fizemos o futebol, juntei um jogador do Vasco, Flamengo, Botafogo, Fluminense, que são os ídolos das pessoas que estavam lá cumprindo a sua pena, e ali eles fizeram uma seleção entre os pavilhões, teve um torneio em cada pavilhão, escolheram os dois melhores atletas de cada pavilhão, ou facção, vamos dizer assim, e aí fizeram um time contra os jogadores de futebol”, explicou Brum.

Frutos do projeto: das celas aos gramados

A realidade não é das mais fáceis. A maioria dos presos é formada por jovens que, sem as devidas oportunidades, entram no mundo do crime. Para Brum, o trabalho feito envolvendo o futebol, que um dia o ajudou a ter uma carreira, pode ajudar a mudar a realidade dos detentos.

O projeto de ressocialização de Roberto Brum teve efeito não somente dentro do presídio, como também fora dele. O ex-volante revelou que um dos selecionados para formar a seleção dos pavilhões, após cumprir a pena, passou a treinar no São Gonçalo.

“Nesse jogo, nós escolhemos os dois melhores, e aí quando eles acabaram de cumprir a pena deles, a gente fez um trabalho, um dos meninos até foi para um clube da minha cidade, São Gonçalo. Teve uma dificuldade de adaptação porque ainda estava com uma tornozeleira eletrônica no pé, mas a maioria dos meninos lá são jovens, 18,19, 20 anos, a maioria [presa] por tráfico de drogas”.

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Germán Cano, do Fluminense, mostra número da camisa e ordena: 'Faz o L'

Via @fluminensefc I FOTO: LUCAS MERÇON / FLUMINENSE F.C. I Jogador se mostrou muito empolgado nas novas cores

“Assim, é uma tristeza, você vê, a demanda é muito grande para o Estado, e nós, como cidadãos, se a sociedade não fizer algo, é difícil ficar tudo para o Estado, nós temos que fazer a nossa parte. Eu sei que o que eu faço é pouco, e a glória nem é minha, é de Deus, porque é o Senhor que me dá essa ousadia, essa coragem, para poder entrar num presídio, eu não vou no meu nome, eu vou por causa de Jesus, ele abre as portas para mim, e os presos sentem que é sincero, que eu não estou ali com uma proposta política, de interesse pessoal, eu estou ali só por amor, de dar uma oportunidade para eles, porque eu também vim de uma realidade humilde e sei que tem poucas opções para quem mora perto ou dentro de uma comunidade.”

O esporte, eu costumo brincar, Jesus faz milagre, mas a bola também. O povo ama futebol, e o brasileiro então. É uma linguagem universal, você chega ali, todo mundo ama futebol.”

“Engraçado que, quando terminou a pelada contra os presos, os servidores, os policias, falaram 'pô, Brum, você não vai marcar um futebol contra os policiais?' [risos]. Carcereiro, os caras todos querendo jogar também contra a gente, você vê como o futebol é maravilhoso", finalizou.