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Ela encarou a surdez e o preconceito no futebol; agora, quer quebrar tabus como mascote da Portuguesa

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Quem é a funcionária que dá vida a mascote da Portuguesa e enfrentou a surdez e o preconceito (9:26)

Maria Elisa Mugnaini, 57, trabalha há 20 anos na Lusa e desde agosto ajudou a reviver no clube a simpática mascote Severa | Assista ao SportsCenter pela ESPN no Star+ (9:26)

Maria Elisa Mugnaini é funcionária da Portuguesa há 20 anos. Há pouco mais de quatro meses, ela passou a dar vida a mascote Severa.


Há 20 anos, o nome de Maria Elisa Mugnaini ecoa quase tão forte nos corredores do Canindé quanto o de Djalma Santos, Ivair, Enéas e Dener, alguns dos ídolos eternos da Portuguesa.

Ela é uma das funcionárias mais antigas da casa, trabalhou em diferentes gestões e funções. Conhece todos os atalhos internos. Ao mesmo tempo, virou torcedora símbolo da Lusa.

“Entrei aqui em 18 de setembro de 2001. Me apresentei no portão, e não sabia o que fazer. Aí me falaram: ‘Pega a vassoura e vai varrendo’”, disse Maria Elisa, 57, à reportagem.

Assim começou a história dela no clube. Desde então, ela já foi recepcionista e telefonista do departamento de futebol amador, auxiliar no departamento administrativo, social e do comércio e secretaria, atendendo sócios, conselheiros e até jornalistas em dias de jogos no Canindé.

“Se você for precisar de alguém na Portuguesa, escolha a Elisa porque ela é a maior representante da Portuguesa.”, disse Ivair, 76, cujo apelido Príncipe foi dado por Pelé quando jogava.

Há pouco mais de quatro meses, ela ganhou uma função extra e um novo rosto. Foi a escolhida pelo departamento de marketing para reviver a Severa, a histórica mascote da Portuguesa, esquecida desde 1994.

“A Severa significa um pouco a independência da mulher. Ela vem quebrar o tabu da mulher exemplar, que foi feita para ficar em casa, cuidando de maridos e filhos. Não! A Severa veio para mostrar a igualdade, e eu tenho bastante coisa dela”, disse Maria Elisa.

Desafio, preconceito e conquista

Quem conversa com Maria Elisa hoje talvez não desconfie, mas ela já foi deficiente auditiva e com surdez praticamente completa em ambos os ouvidos.

“Eu não nasci surda. Eu tive otosclerose, que é a calcificação dos ossos internos do ouvido. Comecei a perceber esse problema com 22, 23 anos. Era um zumbido, um barulho, aquela pressão que parecia que fechava os ouvidos… Foi uma perda gradativa de audição. Como você começa a tomar consciência disso? Pela reação das pessoas ao repetirem várias vezes a fala, ao reclamarem do volume da TV. Mesmo assim demorei dez anos para criar coragem e encarar o tratamento”.

Maria Elisa disse que a deficiência nunca a atrapalhou. Antes da Portuguesa, ela era responsável pela organização de bufês em eventos e também cuidava de crianças.

“Quando eu fui trabalhar como telefonista no departamento de futebol amador, já sabiam do meu problema de surdez, mas eu usava um aparelho e conseguia atender as ligações. Geralmente eram garotos querendo uma chance para treinar e era tão triste dizer que não tinha vaga”, disse.

Desse período, ela guarda lembranças de lidar também com o preconceito.

“Uma vez eu escutei a frase: ‘Eu não tenho paciência com gente surda’. Foi na Portuguesa. Até hoje isso dá um nó aqui. Na hora eu fiquei muito mal, mas depois passou”, disse Maria Elisa.

Naquela época, ela já sentia que o pior tinha ficado para trás. Além de usar um aparelho auditivo no ouvido esquerdo, ela já havia recuperado o ouvido direito em uma difícil e inesquecível cirurgia.

“Eu fiz a cirurgia pelo SUS [Sistema Único de Saúde] e esperei por seis meses até ser chamada. Mas durante a espera eu tive Síndrome do Pânico e foi muito complicado”, disse.

Maria Elisa relembrou que não conseguia ficar sem a companhia da mãe e que nos dias mais difíceis as crises faziam o coração acelerar e tinha a sensação de que estava à beira da morte.

“Eu não sabia que era a Síndrome do Pânico. Um dia de crise o clínico me encaminhou para um psiquiatra. Aí eu soube que estava com essa doença e que teria de tomar calmante e fazer acompanhamento. Pra mim, era coisa de louca. Na porta do posto de saúde, eu falei: ‘Louca é a mãe desse médico’. Rasguei a receita e falei assim: ‘Se tem um Deus lá em cima, eu não tenho mais nada a partir de agora’. Desse dia para cá eu nunca mais tive uma crise”, disse.

Ao entrar na sala de cirurgia após seis meses de espera, ela revelou outro baque. Foi informada que devido à complexidade do procedimento havia o risco de perder a audição total e para sempre.

“Eu pensei em desistir, mas encarei. A operação foi no Hospital Beneficência Portuguesa. É uma cirurgia muito delicada, com a colocação de um implante dentro do canal do ouvido. A recuperação também é muito delicada. Tive de ficar com a cabeça deitada para o lado esquerdo, sem mexer, por uma semana. Eu me alimentava, tomava banho e dormia nessa posição. Nesse período fiquei sem ouvir nada e eu já tinha jogado a toalha. Pra mim, eu estava surda”, disse.

Ela não ficou surda, e se emociona ao relembrar como descobriu que podia ouvir de novo.

Eu estava na minha cozinha, normal, e comecei a escutar uma conversa. Falei: ‘Mãe, quem está aí?’. Ela falou: ‘Ninguém’. Mas eu falei que estava conversando a voz do Gonçalo conversando com a Graça, nossos vizinhos. Ela falou: ‘Imagina, a Graça não está aqui nem o Gonçalo’. Aí ela lembrou que Graça era a vizinha e ela morava em um sobrado. A altura que nós estávamos era a parte de cima do sobrado, e eles estavam na cozinha dela, embaixo. Eu não acreditei. Fui perto do muro e vi que era mesmo. Aí foi quando destampou de uma vez a audição. Foi a hora do choro”, disse.

Esperança e reconhecimento

Hoje, Maria Elisa está na mesma fila de espera, mas para operar o ouvido esquerdo, o qual não sabe nem mais ao certo o grau de surdez. “Acho que é quase 100%”.

Para amenizar a deficiência auditiva, ela usa um aparelho que ganhou de presente. Aliás, todos os aparelhos que já teve foram fruto da sensibilidade daqueles que trabalham ou trabalharam com ela.

“Este último foi um empresário que, ao saber da minha história e perceber que meu antigo aparelho já estava ruim, conversou com os outros funcionários e acabou me comprando um novo”, disse.

Essa animação que demonstra ao contar todas as conquistas que obteve ela também carrega para os dias de jogo quando está fantasiada como Severa. Em pouco tempo, caiu nas graças dos torcedores, tantos jovens, que jamais tinham ouvido falar da mascote, como dos veteranos.

“O próximo passo será criar uma conta nas redes sociais para a Severa”, disse.

É por isso que Maria Elisa se tornou mais do que uma funcionária da Portuguesa. Hoje, ela é respeitada e admirada lá dentro. Muitos veem nela um exemplo de resiliência e amor.

“A Elisa sempre foi aquilo que a Portuguesa sempre quis ter pela honestidade dela, pelo que eu vi a Elisa fazer pelos garotos que vinham treinar aqui na Portuguesa. A Elisa é hors-concour. Eu amo a Elisa, gosto do trabalho dela e ela tem de ser valorizada aqui na Portuguesa”, disse Ivair.