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Arteta não está sozinho: por que ter sido auxiliar de Guardiola e outros grandes técnicos não basta?

Mikel Arteta está quase dois anos em seu cargo de técnico do Arsenal, e não é de modo algum o primeiro "próximo grande" a descobrir que a vida na linha lateral não é tão simples quanto parece quando se é um assistente técnico ambicioso esperando por uma chance de se tornar aquele que toma as decisões.

Arteta entra no clássico de domingo no norte de Londres contra o Tottenham no Emirates, com os Gunners saindo de seu pior início de temporada em 128 anos de competição da liga, mas clima continua bem ruim.

A partida entre Arsenal e Tottenham, neste domingo (26), às 12h30 (de Brasília) é atração com transmissão pela ESPN no Star+. Ainda não é assinante? Clique aqui para ver mais informações.

Vitórias seguidas por 1 a 0 contra Norwich e Burnley aliviaram a tensão após três derrotas consecutivas contra Brentford, Manchester City e Chelsea, mas para Arteta, sua cobrança por ser um dos mais brilhantes jovens talentos após três anos como assistente de Pep Guardiola no City, certamente aumentou depois de seus 92 jogos como técnico no Emirates. (Seu 93º jogo foi na quarta-feira contra o AFC Wimbledon, pelaa Copa da Liga Inglesa).

"Todo o crédito que eu tinha construído como assistente de Sir Alex Ferguson no Manchester United evaporou após um jogo como técnico", disse o ex-técnico do Middlesbrough e da Inglaterra Steve McClaren à ESPN. "Perdemos por 4-0 em casa para o Arsenal, e tudo voou pela janela. Assim que você se torna treinador, tudo muda".

McClaren, que foi o número 2 de Ferguson durante a temporada da tríplice coroa do United em 1998-99, é uma raridade entre os assistentes técnicos fazer a transição de assistente para treinador com sucesso. Aos 60 anos, agora trabalhando ao lado de Wayne Rooney como diretor técnico no Derby County, levou o Middlesbrough à conquista da Copa da Liga Inglesa em 2004, conquistou um título do Campeonato Holandês com o FC Twente e treinou a seleção inglesa, mas mesmo agora, ele é considerado um fracasso por muitos simplesmente por causa dos padrões impossíveis estabelecidos por Ferguson no United.

Muitos outros, desde McClaren, descobriram que a vida como treinador era muito difícil depois de deixar seu papel de assistente de confiança para treinadores mais famosos. Paul Clement, que trabalhou ao lado de Carlo Ancelotti no Real Madrid e Paris Saint-Germain, foi demitido pelo Derby após apenas oito meses em sua primeira atuação como técnico e desde então tem durado menos de um ano no comando de Swansea, Reading e Cercle Brugge.

Brian Kidd, o antecessor de McClaren no United, foi demitido após 11 meses no comando do Blackburn Rovers, depois de ter sido rebaixado da Premier League. Desde então, Ferguson disse que temia que a personalidade de Kidd não fosse adequada às difíceis decisões de ser treinador, dizendo em sua autobiografia, "Managing My Life" (Treinando Minha Vida), que "eu teria sérias dúvidas se Brian alguma vez tivesse assumido o comando do United. Suspeito que a constante demanda por decisões difíceis, muitas vezes impopulares, teria colocado uma tensão intolerável em seu humor".

Carlos Queiroz é outro que descobriu que o cargo de treinador de um clube era algo muito diferente de assistir um treinador lendário, com o português sendo demitido após apenas 10 meses no comando do Real Madrid depois de deixar seu papel de assistente de Ferguson no Old Trafford.

Existem muitos mais. Rui Faria e Aitor Karanka - ambos importantes assistentes de José Mourinho - não tiveram sucesso como treinadores, enquanto Ray Harford ficou apenas um ano no comando do Blackburn após substituir seu chefe, Kenny Dalglish, após o sucesso do clube no título da Premier League em 1995. Bob Paisley provou ser uma exceção, levando o Liverpool a um sucesso sem precedentes, depois de ter se apresentado para substituir Bill Shankly em 1974, mas a era moderna provou ser muito mais difícil para os assistentes trilhar o caminho para se tornar treinadores e muitos, desde o primeiro dia, simplesmente não estão preparados para o cargo.

"O papel de liderança é a razão pela qual tantos assistentes não conseguem ter sucesso como treinadores", disse Patrick Manhire, Chefe de Pesquisa Executiva em Esportes, à ESPN. "Muitos não conseguem deixar de ser um especialista funcional [treinador] para ter a responsabilidade de liderar e capacitar uma equipe talentosa para cumprir seu papel.

"Quando aconselhamos uma equipe a contratar um treinador chefe, gerente geral ou diretor esportivo, há quatro tópicos fundamentais que são cruciais para qualquer indicação bem-sucedida. Um: Eles são orientáveis e preparados para ter ideias a partir do seu time ou dos proprietários? Dois: Eles são autocríticos e abertos a mudanças em termos de sua abordagem? Três: Eles são abertos a receber feedbacks e preparados para ficar desconfortáveis em prol da evolução do time? Quatro: Eles sabem o que são e o que não são? Basicamente, eles são capazes de dar à equipe, especialistas em suas áreas, a autonomia para entregar bons resultados?

"E ao mesmo tempo, eles têm que ser capazes de criar relações que permitam a eles administrar as relações com o proprietário, a mídia, os principais jogadores e o restante da equipe. É fundamental fazer a gestão tanto para cima como para baixo".

Fontes do City disseram à ESPN que Arteta foi considerado uma perda significativa quando ele deixou seu lugar ao lado de Guardiola para substituir Unai Emery no Arsenal em dezembro de 2019. O antigo meio-campista do Arsenal era querido pelos jogadores, tinha a confiança de Guardiola e, de acordo com uma fonte, "um bom assistente que tinha sua opinião respeitada". Houve até mesmo uma visão generalizada, embora não confirmada publicamente pela diretoria do City, de que Arteta era considerado o herdeiro de Guardiola como treinador no Etihad.

Mas, no passado, aqueles que percorreram o caminho de assistente para treinador insistem que é sempre um choque para o sistema assumir o cargo de técnico principal.

"Em meu primeiro dia como treinador no Derby, me sentei na minha mesa, percebi quantas decisões eu tinha que tomar e pensei comigo mesmo: 'Rapaz, o que... o que... foi que eu fiz?!" Phil Brown, o ex-assistente técnico do Bolton, disse à ESPN. "Eu era assistente há quase 10 anos no Blackpool e Bolton e tive uma formação muito valiosa como treinador trabalhando com Colin Todd e Sam Allardyce, mas realmente não há nada que possa prepará-lo para os desafios únicos de ser o treinador".

"Como assistente técnico, é muito simples, de fato: você é apenas treina. Mas como treinador, você tem que perceber rapidamente que caso aconteça qualquer problema, é na sua porta que vão bater e você tem que tomar uma decisão em relação aos jogadores, seleção do time, lidar com os proprietários e também lidar com a necessidade de falar com diferentes pessoas em diferentes departamentos sobre contratação, por que você precisa deste jogador, por que você precisa mandar outro jogador embora. E quando você perde, os torcedores só culpam o treinador.

"Quando assumi o comando do Hull City, recebi alguns conselhos inestimáveis de Sir Alex Ferguson. Ele disse que se você tomar 7 das 10 decisões certas, você vai ficar bem. Você não pode acertar todas elas, mas às vezes um novo treinador precisa ouvir isso. Ele também disse para escolher minhas batalhas. Existem lutas e desafios em todos os cantos na vida de um treinador, mas você tem que relevar alguns deles".

Arteta parece estar sempre preso em uma ou outra batalha desde que chegou ao Arsenal. Aos 39 anos, ele sofreu críticas severas dos torcedores, teve que lidar com mudanças no topo da administração do clube e também teve que lutar para conseguir se desfazer de jogadores indesejados e substituí-los com a qualidade necessária devido às restrições financeiras gigantescas impostas pela pandemia da COVID-19.

Depois os resultados, o último argumento de segurança no trabalho de qualquer treinador. A conquista da Copa da Inglaterra em 2020 parece ter sido há muito tempo, com o Arsenal jogado abaixo do meio da tabela na Premier League depois de não se classificar para nenhuma competição europeia na última temporada, pela primeira vez neste século. Fontes disseram à ESPN que o Arsenal está fechado com a Arteta e preparado para apoiá-lo no longo prazo, apesar da revolta geradas pelos maus resultados, e McClaren insiste que a paciência é crucial para que ele sobreviva.

"Perdi meus primeiros quatro jogos no Middlesbrough", disse McClaren. "Sofremos 11 gols e marcamos apenas uma vez. O time não fazia sentido e eu não sabia o que fazer, de acordo com as manchetes, mas uma coisa que todos os treinadores precisam é de tempo para impor suas ideias e construir um elenco de jogadores capazes de entregar os resultados esperados.

"Levei três anos para me livrar de todos os jogadores que eu não queria e substituí-los por profissionais de ponta como Gareth Southgate, Ugo Ehiogu e Mark Schwarzer. A realidade é que, para implantar uma nova cultura, você precisa de jogadores e funcionários que se comprometam com ela. Você pode ver que Mikel está tentando fazer isso no Arsenal, e tudo o que ouço ao longo dos jogos é que os donos estão totalmente confiantes no trabalho dele e preparados para apoiá-lo durante o que sem dúvida será um período difícil. Mas eles vão colher os frutos quando esse período passar.

"Ele tem uma boa equipe técnica e, ao que parece, bons proprietários. Ambos são absolutamente fundamentais. Quando eu estava no Middlesbrough, o proprietário, Steve Gibson, me chamou e aos meus assistentes para a sala de diretoria após uma derrota em casa, na qual os torcedores estavam jogando os ingressos em campo. Preparei minha equipe técnica para o pior, mas quando chegamos, Steve tinha colocado cinco cervejas no bar e disse: 'Bebam um drinque, aproveitem o fim de semana e voltem para o jogo na segunda-feira'".

O tipo de paciência e compreensão demonstrada por Gibson - conhecido como um dos proprietários mais sensatos do futebol - é uma raridade no esporte moderno, mas as tendências esportivas estão destacando a importância da estabilidade nos cargos principais.

O Chelsea, como sempre, provou ser uma exceção a essa regra, com a grande instabilidade dos treinadores tendo pouco resultado negativo na quantidade de títulos que seguem chegando ao Stamford Bridge - Tuchel é o 12º treinador desde 2008, com o clube ganhando quatro títulos da Premier League, duas Champions Leagues e duas Europa Leagues, entre outros - mas em geral, paciência equivale a estabilidade e sucesso. "Nos últimos 10 anos nos esportes dos Estados Unidos, é perceptível que o sucesso, independente da forma que seja calculado, leva tempo", disse Manhire.

"Na Major League Soccer, a média é de 2,6 anos após a mudança de corpo técnico, incluindo o GM, enquanto que na NBA é de 3,6 anos". Na NFL, é de 3,7 anos. A mudança constante é como beber água por uma mangueira de incêndio e raramente leva a bons resultados. Mas você também tem que escolher o treinador certo para que tudo que as coisas deem um bom resultado".

Quanto à Arteta, ele ainda está lutando para implementar suas ideias e acelerar a evolução de sua equipe para que ela seja boa o suficiente para entregar o que se espera. É apenas uma questão de tempo, e se está do seu lado ou, em última análise, contra ele.