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Daniel Alves é o pior negócio da história do São Paulo? Veja opiniões, tamanho da dívida e resumo da passagem

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Daniel Alves coloca instrumento na cabeça e ironiza polêmica com torcedores do São Paulo: 'Proibido ser feliz' (0:14)

Com braço lesionado e desfalcando time na Libertadores, jogador havia postado vídeo tocando instrumento de percussão (0:14)

Depois de pouco mais de dois anos, Daniel Alves está fora do São Paulo. Clube e jogador acertaram as bases da rescisão do contrato que iria até o fim de 2022. Assim, o atleta se despede do Morumbi, onde chegou com status de ídolo e se declarando como "mais um torcedor", pela porta dos fundos.

Caberá ao São Paulo agora, segundo apuração do repórter Eduardo Affonso, da ESPN, arcar com os R$ 30 milhões de dívida com o jogador. O valor, referente ao passivo de 2020 e mais metade do que ele teria direito a receber até o fim do contrato, será pago de forma parcelada a partir do ano que vem.

Com menos protagonismo em campo do que se esperava, salário astronômico e muitas polêmicas, em especial na reta final da passagem, seria Daniel Alves uma das piores, se não a pior, contratação da história do São Paulo? O ESPN.com.br ouviu comentaristas sobre o assunto. Veja as opiniões abaixo:

"Olhando agora, com a perspectiva do que já passou, o salário dele era impagável dentro da realidade financeira do São Paulo e da capacidade de geração de receita que o clube tinha. Na época, ter de ir atrás de R$ 1 milhão por mês para cobrir a proposta era inviável. O São Paulo estava com praticamente todos os espaços de patrocínios na camisa fechados. Além disso, os clubes não têm conseguido gerar receita com mídia digital que pudesse pagar essa conta. Houve provavelmente uma euforia dos dirigentes na hora de fechar o acordo e o clube assumiu um risco muito grande, que agora é um enorme problema. Acredito que, pela expectativa gerada na apresentação do Daniel Alves, sem dúvida ele foi uma das piores contratações da história do São Paulo. Ela ficará lembrada por muitos anos, já que o passivo financeiro ficou e o desempenho esportivo ficou abaixo do esperado. Para piorar, o São Paulo tem um excelente histórico de contratações de jogadores mais veteranos, desde Leônidas da Silva. Dani Alves talvez seja o primeiro caso desastroso, e isso sem dúvida ficará marcado" - disse Erich Beting, jornalista especializado em negócios do esporte e dono do blog "Máquina do Esporte", no ESPN.com.br.

"Eu acho que ele é um jogador superestimado, na história do futbeol brasileiro a gente consegue listar pelo menos uns 10 laterais melhores do que ele. Eu acho que a contratação foi um fiasco, esperava-se muito mais dele. Eu achei que ele fosse produzir muito mais do que produziu, o que deixa escancarado que ele é um jogador comum. Veja o que o Hulk faz no Atlético-MG, o que o Gabriel faz no Flamengo, o Gustavo Gómez mal jogou no Milan. Esses caras vêm da Europa para cá e se tornam muito acima da média. Nem isso o Daniel Alves conseguiu, porque ele não é tudo isso que as pessoas falam" - opinou Fábio Sormani, comentarista do grupo Disney.

"Seria um absoluto exagero falar que foi uma das piores contratações da história. O Daniel jogou, jogou bem, foi importante, não é culpa dele se a diretoria assumiu compromissos que não foi capaz de honrar. Não precisa nem ir muito longe nos últimos anos. Pablo, Éverton, a compra do Maicon, a compra do goleiro Jean, que depois se mostrou um erro pelas questões extra-campo. Quem fala em pior contratação está sendo um pouco passional" - afirmou Leonardo Bertozzi, comentarista do grupo Disney.

"Daniel Alves chega ao São Paulo no elenco que não competia, parecia um time acomodado diante dos fracassos. Ele foi essencial para melhorar esse ambiente enquanto esteve lá. Ajudou por exemplo jogadores como Brenner, vendido por US$ 15 milhões, a mudarem de comportamento. O São Paulo mesmo sem ganhar um campeonato, avançou em competições que renderam ao São Paulo dinheiro. O São Paulo não teria sido 4º colocado do Brasileiro sem ele, nem passado pelo Fortaleza e Flamengo na Copa do Brasil. Financeiramente, a contratação dele se pagou, não estou nem falando só do rendimento em campo. Dizer que a contratação dele foi a pior da história sob esse ponto de vista, é desconhecer não só o atual elenco, como a história do São Paulo. Definitivamente, ele foi bem dentro de campo e financieramente não foi, de forma alguma, a pior contratação da história do São Paulo" - analisou Vitor Birner, comentarista do grupo Disney.

Relembre abaixo a conturbada passagem de Daniel Alves pelo São Paulo:

O sonho de criança

Mesmo quando ainda era um jogador de elite na Europa, Daniel Alves afirmou em algumas ocasiões que era torcedor do São Paulo na infância e que gostaria algum dia de defender o clube. O dia chegou em 6 de agosto de 2019, quando ele foi contratado e apresentado diante de 44 mil torcedores no Morumbi, com a presença de ídolos como Raí (diretor de futebol na época e um dos responsáveis pelo negócio), Kaká, Luis Fabiano e Hernanes.

Naquele dia, após se ajoelhar e beijar o símbolo do clube na lateral do estádio, o jogador afirmou: "Sabe que hoje estou realizando um sonho de criança, sonhei muito por esse momento. Esse momento chegou, e só tenho a dizer ao São Paulo que hoje eles não estão contratando um jogador, mas um torcedor do São Paulo".

Euforia na estreia e ilusão de parcerias

No dia 18 de agosto de 2019, na sua estreia pelo clube em pleno Morumbi, Daniel Alves marcou o gol da vitória sobre o Ceará pelo Campeonato Brasileiro. Ao lado de Juanfran, outro reforço trazido do exterior, o camisa 10 atuou solto no meio-campo e deu indícios de que a relação poderia render frutos.

Menos de um mês após sua chegada, a torcida se espantou com o valor de salário prometido ao atleta, que giraria na casa de R$ 1,5 milhão mensais.

"O nosso projeto não é para conseguir todos os parceiros nos primeiros seis meses de contrato. Isso pode acontecer ao longo do tempo, com a performance dele, com a ida à seleção. Às vezes a Copa do Mundo, esse mercado vai estar mais aquecido. Do mesmo jeito que nosso projeto esportivo é longo, esse projeto de arrumar parceiro também é longo. Temos equipes internas e externas trabalhando nisso e temos certeza de que as oportunidades vão aparecer em breve", disse Alexandre Pássaro, gerente de futebol do São Paulo, à época.

O próprio Daniel Alves avaliou seus vencimentos como "baratos". "Sou um jogador barato para o São Paulo. Pela minha qualidade e por tudo o que eu consegui no futebol. Já falei na minha apresentação", analisou, em setembro de 2019.

Indicação de Diniz e 'fiel escudeiro' do técnico

Menos de dois meses no São Paulo e Daniel Alves já viu o seu técnico, Cuca, ir embora. A sucessão de treinador passou literalmente pelas suas mãos (e de outros jogadores experientes do grupo), dando a entender a influência do camisa 10 dentro do clube.

“Sabe porque eu saí, boleirão? Porque eu fui efetivado no cargo, aí quatro horas depois disso, o Daniel Alves foi lá pedir o Fernando Diniz. Eles (diretoria) me chamaram e falaram que estavam em dúvida. Falei: 'Ué, se estão em dúvida, vão atrás do Diniz que estou indo embora, tchau'. Foi isso”, disse Vágner Mancini, que era coordenador técnico do clube na época e assumiria como interino no lugar de Cuca.

Com Diniz, Daniel Alves virou o 'dono' do time em campo. Camisa 10, faixa e ainda atuando na posição onde ele mais queria, no meio-campo, além de quase nunca ser substituído, a não ser em casos de lesões.

A relação entre os dois era tão próxima que, na festa do título do Paulistão de 2021, única taça conquistada pelo camisa 10 no São Paulo, Daniel Alves agradeceu a Diniz, demitido quatro meses antes.

"Eu sou suspeito para falar porque o cara virou um irmão meu, mas metade disso aqui o Diniz tem muito, porque o trabalho que ele fez e a potencialização que ele gerou nos jogadores aqui dentro é muito grande. Eu costumo dizer que a vitória às vezes não é um título, é você pegar as pessoas embaixo e colocar elas em cima. Esse é o grande mérito dele e desde aqui eu agradeço: te amo pra cara**. Você é f**!", disse o lateral.

Bom início de 2020 e líder do Brasileirão

Quando o ano de 2020 começou, Daniel Alves acumulou cinco gols nos 11 jogos que o São Paulo fez no início do ano até a pausa da pandemia.

Na volta da pandemia, o camisa 10 também teve bons momentos, especialmente nos confrontos de mata-mata da Copa do Brasil contra Flamengo e Fortaleza, além de ter sido o principal nome no time que chegou a liderar o Brasileirão com 7 pontos de vantagem no segundo turno antes de sofrer uma queda brusca que resultou na demissão de Fernando Diniz.

O episódio do batuque

Conforme 2020 chegou, a relação entre Daniel Alves e São Paulo foi piorando, principalmente pela dívida que começou a ser criada na gestão que o contratou (de Pássaro, Raí e Leco), sendo assumida após a chegada de Julio Casares na presidência. Quando o novo mandatário desembarcou no Morumbi, a dívida com o atleta já estava na casa dos R$ 10 milhões.

Mas ainda em 2020, o verdadeiro racha com a torcida aconteceu em setembro. Na ocasião, Daniel Alves se recuperava de uma cirurgia no braço direito após um choque em campo, o que impossibilitou o atleta de viajar para o Equador para o jogo de "vida ou morte" contra a LDU, na Conmebol Libertadores.

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Daniel Alves coloca instrumento na cabeça e ironiza polêmica com torcedores do São Paulo: 'Proibido ser feliz'

Com braço lesionado e desfalcando time na Libertadores, jogador havia postado vídeo tocando instrumento de percussão

Um dia antes da partida, o jogador apareceu em suas redes sociais em uma roda de samba e tocando instrumentos de percussão com sua mão direita recém-operada. O episódio foi mal visto pela torcida, e o lateral jamais chegou a se desculpar, preferindo a ironia. "Proibido ser feliz", postou.

Em um protesto meses depois na frente do CT, a torcida gritou: Ô, Daniel, quebra meu galho, vai tocar samba lá na casa do c...".

Enquanto isso, o São Paulo tomou de 4 a 2 da LDU e foi eliminado na fase de grupos da Libertadores, em mais um resultado inesperado (meses antes, a equipe havia perdido para o Mirassol nas quartas de final do Paulistão).

O sonho olímpico

O episódio foi o rompimento definitivo da torcida com o atleta. Com o São Paulo na zona de rebaixamento e com duelos decisivos de mata-mata na Copa do Brasil e Libertadores, Daniel Alves preferiu defender a seleção olímpica em Tóquio.

Após a conquistada da medalha de ouro, veio uma cutucada no clube. "O São Paulo falhou muito comigo, e era um momento que eu tinha de escolher pelo São Paulo e por defender meu país, e sempre vou representar meu país e por tabela representar o time. As pessoas falam porque não conhecem minha dedicação, entrega e respeito com o São Paulo, sendo que o São Paulo muitas vezes falhou comigo, e eu não falho com o São Paulo".

O rompimento definitivo

Depois de ser convocado para a seleção nas eliminatórias para a Copa do Mundo, na janela de setembro, Daniel Alves afirmou que só voltaria a se apresentar caso a dívida, que já chegava na casa dos R$ 18 milhões, fosse sanada.

A partir desse momento, o jogador e o clube passaram a trabalhar numa rescisão, que foi acertada na última quinta-feira. Ficou acordado que o São Paulo ainda terá que pagar R$ 30 milhões de forma parcelada ao jogador.

"Ao que tudo indica, essa era a solução possível para o momento. O clube já tem uma dívida astronômica com o atleta e precisa tentar equacionar esse passado. O maior problema é entender o quanto do orçamento mensal precisará ficar comprometido a partir de agora para pagar um jogador que estará atuando em outro clube! É um cenário tenebroso e que mostra o quanto o São Paulo se perdeu em más gestões na última década. O ideal seria o clube tentar antecipar ao máximo o pagamento da dívida para poder reequilibrar o fluxo de caixa, mas o desempenho em campo não tem ajudado a trazer mais dinheiro com boas posições em campeonatos", opinou Erich Beting.