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Del Nero e Ricardo Teixeira costuram paz para manter Coronel Nunes no comando da CBF

Em meio à pressão de clubes por liberações de atletas para a seleção olímpica e pela criação de uma liga para organizar o Brasileirão, a CBF tem outros problemas a resolver em sua agenda de pautas. Um deles, considerado o principal por muitos internamente, é a sucessão de Rogério Caboclo. E as peças do tabuleiro político se mexem com intensidade fora do prédio da entidade. Mais especificamente, na casa de antigos cartolas da confederação.

Considerando a situação do presidente afastado praticamente irreversível e apostando em um iminente afastamento definitivo em decisão da Câmara de Julgamento da Comissão de Ética prevista para o próximo mês, nomes de peso do cenário do futebol brasileiro como Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira resolveram alinhar possíveis manobras para manter a influência na CBF.

Mesmo banidos do futebol pela Fifa, os dois ex-presidentes da casa não deixam de pautar decisões na entidade. E agora de forma conjunta. Inimigos históricos nos últimos anos, os dois toparam uma reaproximação e se encontraram nos últimos dias na casa do ex-diretor financeiro da confederação Antônio Osório, o “Zozó”, amigo em comum da dupla.

Preocupados com um possível vácuo de poder, Del Nero e Teixeira entenderam que era hora de se unir para não deixar escapar a influência que ainda têm na CBF. O objetivo principal é bem claro para ambos: manter o presidente em exercício, Coronel Nunes, no comando da confederação até o fim da gestão atual – abril de 2023. O dirigente paraense de 82 anos é amigo íntimo e afilhado político de Del Nero, seguindo todos os seus conselhos no poder.

Dificuldade em emplacar Castellar Neto

Tão logo se confirme o afastamento definitivo de Caboclo, o agora presidente Nunes teria 30 dias para convocar uma nova eleição – onde somente ele e os outros sete vice-presidentes também poderiam concorrer ao cargo. Del Nero e Teixeira, no entanto, temem que um outro vice eleito possa romper com o passado e não mais se deixar pautar pelas ideias dos dirigentes banidos.

Nome de preferência de Del Nero, o vice-presidente Castellar Neto não goza do apoio de seus colegas de função para ocupar a presidência. O restante do colegiado entende que o dirigente mineiro é “muito novo” – tem 38 anos – e estaria furando uma fila. Nomes como Fernando Sarney, Ednaldo Rodrigues, Francisco Noveletto e Gustavo Feijó simbolizam, na interpretação de Del Nero e Teixeira, um risco de “rompimento” e consequente perda de poder dos cartolas afastados.

Poder de Del Nero cresce após saída de Caboclo

O grupo de vice-presidentes não esconde o incômodo recente com a forma escancarada como Del Nero voltou a mandar na CBF. Principal entusiasta da saída de Rogério Caboclo e influente na Comissão de Ética, além de idealizador da criação do órgão, Marco Polo retomou a força política nas duas últimas semanas.

Após alguns breves meses de pouco alinhamento com Caboclo, o que gerou incômodo e sua vontade de articular uma queda do presidente afastado, Del Nero hoje influencia diretamente em alguns dos principais departamentos da entidade. Diretores como Gilnei Botrel (financeiro), homem-forte da atual CBF, Manoel Flores (competições), Reynaldo Buzzoni (registros) e Edu Zebini (mídia e, provisoriamente, secretaria-geral) são intimamente ligados a Marco Polo. Boa parte da diretoria executiva, inclusive, marca presença na já conhecida roda de carteado na cobertura do ex-presidente banido na orla da Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro.

Além desses, o assessor especial de Coronel Nunes, Gilberto Barbosa, o “Giba”, também serve como importante tentáculo de Del Nero dentro da atual CBF. Afastado em 2018 após se envolver em um episódio de agressão a torcedores na Copa do Mundo da Rússia, ele voltou com força total aos corredores da CBF assim que Nunes reassumiu a presidência, no último dia 7.

O poder do cartola banido é escancarado em quase todas as últimas decisões da CBF. Foi Del Nero, por exemplo, que deu autorização para que Coronel Nunes demitisse o secretário-geral da entidade, Walter Feldman, nesta quinta-feira (17). Marco Polo ainda indicou o nome de Edu Zebini para assumir temporariamente a vaga.

No dia 21 de maio, reportagem do ESPN.com.br já evidenciava, em áudios, o poder de Marco Polo na CBF mesmo após o cartola ter sido banido do futebol pela Fifa.

Preocupação com liga

Preocupados com a sucessão na presidência, Marco Polo Del Nero e Ricardo Teixeira se mostram apreensivos também com o movimento dos clubes pela criação de uma liga que assumisse as rédeas do Brasileirão. A dupla não vê com bons olhos a ideia.

Del Nero entende que perderia ainda mais poder, uma vez que áreas estratégicas de competições ficariam com os times, não mais com seus aliados. Teixeira, por sua vez, teme que toda a rentável logística, hoje nas mãos da agência de seu amigo pessoal Wagner Abrahão, escape do seu domínio.

A dupla se preocupa com o discurso dos atuais vice-presidentes. O grupo começa a aceitar a ideia da liga e entende que, com diálogo, é possível arranjar um “meio do caminho” para o desejo dos clubes.

O encontro entre Teixeira e Del Nero na casa de “Zozó” foi o primeiro após muitos anos, mas dificilmente será o último. Entre mensagens, ligações, rodas de carteado e muitas movimentações, a dupla deve sentar novamente em breve para alinhar as próximas jogadas no movimentado tabuleiro político da CBF.

Novamente procurados pela reportagem para comentar o encontro e o momento atual da confederação, ambos não responderam. Nas últimas semanas, Del Nero reforçava estar “fora da administração do futebol, até que meu recurso junto ao CAS (Corte Arbitral do Esporte, na Suíça) seja julgado”.