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'Revolta do Marmitex' quase vira W.O. no interior de São Paulo, causa demissão de jogadores e deixa clima pesado no vestiário

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Demitido por 'motim', atacante Leandro Love explica a 'revolta do marmitex' no vestiário do Rio Preto antes de jogo

Jogador foi contratado para ser um dos pilares do time nesta temporada na Série A3 do Paulistão

Dois veteranos jogadores do Rio Preto se revoltaram na semana passada na “mesa” de jantar e foram demitidos pelo clube dias depois. O motivo que causou a ira foi o cardápio, marmitex, e o local para a refeição, o vestiário do estádio Anísio Haddad, em São José do Rio Preto, onde em menos de quatro horas o elenco estaria em campo pela Série A3 do Campeonato Paulista.

A história foi em 27 de abril, data de retorno das partidas do terceiro nível estadual. As equipes ficaram mais de 40 dias sem jogar por causa da fase roxa do Plano SP de combate à pandemia do novo coronavírus, que paralisou todas as competições esportivas no Estado.

Quatro horas antes do confronto com o Bandeirante, da cidade de Birigui, ainda pela quarta rodada da competição, uma situação no mínimo inusitada criou um tremendo desconforto no vestiário da equipe.

A partida estava marcada para as 22h. O elenco se apresentou no estádio Anísio Haddad às 18h para o jantar. Assim que chegaram, os jogadores foram surpreendidos com “marmitex” (marmita pronta, geralmente comprada).

Não bastasse isso, eles foram avisados que não poderiam se alimentar no refeitório para evitar aglomeração, obedecendo uma determinação dos fiscais da Federação Paulista e as normas sanitárias de prevenção dos contágios de COVID-19

A recomendação da direção, segundo depoimentos de Leandro Love e Nino Santos, foi que os jogadores se alimentassem ali mesmo no vestiário, onde existem vasos sanitários, chuveiros, enfim, um local inapropriado para qualquer tipo de refeição.

Leandro Love e Nino Santos foram justamente os jogadores demitidos pela diretoria depois por terem "tentado provocar um motim". Ironicamente, eles foram revelados pelo clube há 15 anos e tinham retornado nessa temporada como os pilares da equipe.

Da base à revolta

Leandro Rodrigues da Silva, 35, surgiu na base do Rio Preto em 2004. Ganhou o apelido Love por usar, em 2006, tranças verdes que lembravam o atacante Vagner Love, ex-Palmeiras.

Ainda jovem, ele foi vendido para o Vissel Kobe, Japão, e, em mais de 15 anos de carreira profissional, passou por times como Rio Branco-SP, Portuguesa, Red Bull Brasil, Criciúma e até no Melbourne FC, na Austrália.

Somando todas as experiências, ele afirma que jamais passou por uma humilhação tão grande quanto a atual.

Ao lado do zagueiro Nino Santos, 36, que também foi revelado pelo clube em 2004 e rodou o Brasil, liderou o movimento de repúdio à diretoria. Outros jogadores e comissão técnica apoiaram.

Eles responsabilizaram o presidente do clube, o ex-político José Eduardo Rodrigues, por ter mandado entregar as marmitas aos jogadores profissionais antes da partida contra o Bandeirante.

Nino e Love resolveram protestar e não entraram em campo contra o adversário de Birigui (empate sem gols). No dia seguinte, ambos foram demitidos por justa causa. O clube informou, em nota, que o motivo foi "abandono" do trabalho e "motim".

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2:16

Zagueiro Nino Santos explica 'revolta com marmitex' no jantar e demissão no Rio Preto: 'Nunca sofri uma humilhação tão grande'

Episódio ocorreu em 27 de abril horas antes de o Rio Preto encarar o Bandeirante-SP, em São José do Rio Preto

A insatisfação dos dois líderes do elenco do Rio Preto não vem de hoje.

“Nós tivemos um surto de COVID-19 na equipe. Pra você ter uma ideia, provavelmente eu peguei e passei para o meu pai, que faleceu", disse o zagueiro Nino.

"Enquanto outros times mantiveram seus treinos, nós ficamos um mês parados em casa. Quando foi liberada a nossa volta, treinamos dois períodos no sábado, um período no domingo e outro na segunda, mas quando chegou na terça, dia 27, eu não acreditei quando vi o marmitex para todos os jogadores profissionais jantarem. Isso há poucas horas do jogo”, continuou.

A diretoria do clube respondeu o ocorrido com uma nota nas redes sociais. O comunicado tem um tom pesado e classifica os jogadores demitidos como “bandidos da bola” e “aproveitadores”, alegando que eles teriam agido com “má fé” contra o clube.

No texto também foi dito que Love se safou de levar uma "surra dos próprios colegas” e faz acusações contra ele (veja a íntegra abaixo).

Apesar de toda a confusão, a história da marmitex voltou a se repetir no Rio Preto. Na última terça mesmo, pouco antes do jogo contra o Primavera, novamente no estádio Anísio Haddad, o jantar servido aos jogadores profissionais foi marmitex.

Em campo, o time venceu por 3 a 1 e está na 11ª colocação da Série A3. Tem um ponto a menos o São José, primeiro time na zona de classificação para disputar o acesso, e três a mais que o Batatais, primeiro entre os dois que caem na zona de rebaixamento.

Íntegra da nota do Rio Preto

“Ao tomarmos conhecimento de distribuição de vídeos infamantes e distorcidos da realidade por parte de duas pessoas Nino e Love demitidos por justa causa do Rio Preto E.C. esclarecemos .

Bandidos da bola tentam manchar o nome do clube.

O Rio Preto E.C. lamenta muito essa situação criada por esses dois supostos atletas, Nino e Love, no dia do jogo contra o Bandeirantes.

Ambos compareceram ao clube e, quando a comida foi servida, houve uma exigência por parte do Sr. Love de que se abrisse o refeitório. Os fiscais da federação, em nome e em cumprimento ao protocolo sanitário, proibiram a aglomeração. Portanto não autorizaram a abertura do refeitório. Sugeriu-se a eles todos que comessem no Cantinho do Jacaré, onde nós temos mesas dispostas ao ar livre, de cimento, com bancos, com tranquilidade, uma lua cheia, o céu estrelado, uma noite muito bonita, 18h30, a comida da melhor marmitaria de Rio Preto, que sempre serviu o Rio Preto EC nos últimos dois anos. E eles chegaram já mal intencionados, causando um desconforto para todos e, aos gritos, dizendo que jogador não pode comer marmita, que jogador tinha que comer dentro do refeitório (como também acho), só que a federação, pelo protocolo sanitário, não permite aglomerações. Então, eles teriam que comer ao ar livre e em situação de distanciamento.

Aí ambos, Love e Nino, abandonaram o clube, agrediram verbalmente vários funcionários, agrediram a história do clube, e foi uma situação armada. Eles já vieram com esse propósito, já vieram mal intencionados. A verdade é essa. Então numa atitude premeditada, abandonaram o clube 15 minutos antes (já estavam inscritos para o jogo). Provocaram um problema mais grave ainda ao tentar que vários jogadores fossem embora também, para que o Rio Preto desse W.O. e não tivesse o número suficiente de atletas para fazer o jogo frente ao Bandeirante.

Então, com grande pesar que a gente revela isso, foram ambos demitidos por justa causa. São péssimos elementos, tiveram péssimo comportamento. Principalmente o Sr. Love, que provocou toda essa armação. Aliás ele já não estava querendo treinar, fazendo corpo mole e é um jogador que foi protegido pela diretoria. Teve um apartamento só pra ele residir com todo o conforto, todas as regalias possíveis e inclusive o único jogador do elenco que recebeu antecipado o último mês que vai vencer em maio dia 15 (e nem venceu ainda). Ele recebeu em fevereiro.

Então, infelizmente, eu acreditava muito no artilheiro, mais senti no dia a dia que fui enganado mais uma vez por um “profissional da bola“, ou melhor, “bandidos da bola”, que inclusive agora se comenta no clube que empresaria(va) jogadores, que integra grupos de apostas. Então, uma pessoa que não tem o perfil realmente para integrar o plantel do Rio Preto EC. E olha que ele passou apurado porque, quando tentou o motim para levar jogadores com ele para que o Rio Preto não tivesse o número de jogadores para entrar em campo, teve jogador que queria agredi-lo, bater nele, então ele realmente se safou de uma boa surra dos próprios colegas. Tanto que não foi acompanhado por ninguém, e mais cara de pau ainda é ter comido a marmita é dito “Aqui eu não fico mais porque isso é várzea“.

Então, realmente é um mal elemento amigo de inimigos do clube que veio para desagregar, para desunir, para tumultuar o Rio Preto EC. E demitido por abandono de emprego, por justa causa, perante 30, 40 pessoas (testemunhas), fez um escândalo adrede preparado, no Rio Preto não tem lugar para gente desse tipo, e registra-se onde quisessem, uns comeram nos alojamentos, outros no vestiário, outros no Cantinho do Jacaré ao ar livre. Os malandros da bola que usaram o “fato” como pretexto comeram, encheram a barriga e após tentarem um motim fracassado foram embora abandonando o clube que lhes deu total condições de trabalho.

Traíras, ex-jogadores sem compromisso. O Rio Preto E.C. foi tapeado por estes aproveitadores.

Direção do Rio Preto Esporte Clube”

Nota da edição: o comunicado do Rio Preto foi publicado na noite de 3 de maio de 2021 no Facebook.