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Jeito de Tite, professor de Carille e 'criador' de Hernanes: a história de Ruy Scarpino, um campeão vítima da COVID-19

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A história do técnico Ruy Scarpino, um campeão vítima da COVID-19 no Brasil (12:55)

'Professor' de Fábio Carille, o treinador fez história em clubes de menor expressão, trabalhando mais de 20 anos e em 26 equipes diferentes (12:55)

Apesar da trajetória recente, Fábio Carille já soma títulos que deixam muitos treinadores renomados de boca aberta. É tricampeão paulista e campeão brasileiro pelo Corinthians em pouco mais de quatro anos na profissão. Para muitos, ele foi aprendiz de Mano Menezes e Tite, ambos com quem trabalhou no clube alvinegro. Mas, para o próprio, o primeiro professor foi outro: Ruy Santos Scarpino.

O capixaba de Vitória foi quem ajudou Carille a passar o bastão como jogador para a comissão técnica do Barueri, em 2007. Também faziam parte da equipe Cacau (auxiliar), Reverson Pimentel (preparador de goleiros), Claudiney Muza (diretor) e Paulo Jamelli (supervisor).

“No final do Paulista de 2007, eu já tinha decidido parar. Estava com 33 anos, dor no púbis. Não tinha como segurar mais três anos. Aí recebi o convite do presidente do Barueri, Walter [Jorquera Sanches], para que eu fizesse parte da comissão”, disse Carille à reportagem.

“Foi o meu primeiro trabalho em comissão e foi muito bom. O forte do Scarpino era o trabalho de campo, o treino, a preparação. Tinha times muito bem montados. Era muito organizado, muito apegado aos detalhes. Em certas coisas, muito parecido com o Tite”, completou.

Scarpino já conhecia Carille desde 1996, quando foram companheiros de time no XV de Jaú. O primeiro como goleiro; o segundo como zagueiro/lateral esquerdo. O reencontro foi positivo para o treinador que faria história no Corinthians anos depois.

Um pouco mais velho na profissão, Scarpino ficou famoso entre os clubes de menor expressão. Jamais treinou um dos grandes do país. Em 2007, deixou o Barueri antes de Carille. Saiu após 14 rodadas, com 21 pontos e a oitava colocação na Série B.

O legado e a gratidão de Carille continuam fortes. "Sem dúvida, foi uma pessoa muito boa, que transmitia muitra tranquilidade. O fato de já nos conhecermos foi muito bom para trabalharmos juntos", disse o treinador, hoje no Al-Ittihad, da Arábia Saudita.

Mentor de Hernanes

Um ano antes do trabalho no Barueri, Scarpino acabou sendo o mentor de outro conhecido personagem do futebol: o meia Hernanes, do São Paulo. Quinze anos mais novo, o jogador foi emprestado ao Santo André para pegar experiência e mostrar que tinha potencial.

O percurso foi difícil, pois, aos 20 anos, o pernambucano demorou para encaixar e ficou muitos jogos sem ser relacionado. Tudo mudou após uma conversa com o treinador, que propôs transformar Hernanes em um meia mais avançado, basicamente um segundo atacante.

“Eu não estava nem sendo relacionado e, quando isso aconteceu, pensei logo em arrumar outro time. […] No segundo turno da Série B, o treinador me colocou para jogar como segundo atacante e deu muito certo”, disse Hernanes à ESPN no ano passado.

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Hernanes foi emprestado ao Santo André antes voltar ao São Paulo para brilhar; relembre

O capitão tricolor passou pelo time do ABC em 2006; neste domingo, 14 anos depois, ele voltará a jogar no Bruno José Daniel

Quase no São Paulo

Por falar em São Paulo, uma história pouco conhecida na trajetória de Ruy Scarpino é que ele teve a chance de trabalhar no clube do Morumbi três anos após encerrar a carreira como goleiro pelo Moto Club. Mas não como técnico.

A direção daquela época convidou Scarpino para ser treinador de goleiros do time, trabalhando diretamente com Rogério Ceni. Mas ele não aceitou. Optou por ser técnico, um sonho antigo. O cargo ficou com Haroldo Lamounier, que o exerceu de 2003 a 2017.

"Ele não quis abrir mão de ser técnico, apesar de estar no começo da carreira. Não era uma coisa que ele se ressentia, mas sempre comentava: 'Nossa, se eu tivesse aceitado o convite, eu estaria no São Paulo até hoje', disse Bruno Scarpino, filho do treinador.

Campeão paulista

Bruno é o filho mais velho de Scarpino. Aos 35 anos, ele também é uma enciclopédia sobre a carreira do pai. Sabe onde ele jogou como goleiro, com passagens por Ferroviária, Portuguesa, XV de Jaú, entre outros, e os melhores momentos como treinador.

Um dos pontos altos foi no pelo Ituano. No início dos anos 2000, graças ao investimento de um empresário local, o time contava com nomes como Basílio, Fernando Gaúcho, Lelo, Lúcio, Vinícius Bergantim, André Leone, Élson e os jovens Pierre e Richarlyson.

Com Scarpino, o Ituano liderou o Campeonato Paulista de 2002, uma rara edição sem os quatro grandes, mas teve uma queda entre o fim do primeiro turno (liderado pelo Santo André) e começo do segundo. Após 16 rodadas, foi demitido, e Ademir Fonseca assumiu.

“Teve algo nos bastidores que não sabemos, mas, quando o Ituano foi campeão, eles pararam caminhão de bombeiro na rua de casa e pediram para o meu pai subir. Reconheceram ele como campeão e deram até a medalha”, disse Bruno Scarpino.

O outro título importante foi a Série C do Brasileiro de 2003. O treinador foi recontratado pelo Ituano no início daquele ano para evitar a queda no Paulistão. E conseguiu. Comandou o time no chamado “Torneio da Morte”, que rebaixou Botafogo-SP e Inter de Limeira. Depois, preparou a equipe para a disputa do torneio nacional e também da Copa do Estado de São Paulo.

O curioso é que ambas as disputas tiveram como rival o Santo André. Na Série C, o Galo de Itu levou a melhor e foi o primeiro colocado no quadrangular final, que tinha ainda Botafogo-PB e Campinense-PB. Já na copa estadual perdeu a taça para o clube do ABC.

Amazonas FC e a COVID-19

Em agosto do ano passado, somando a experiência de comandar 25 clubes diferentes em 20 anos de carreira, Scarpino recebeu o primeiro convite de uma equipe da região Norte do Brasil: o Amazonas FC.

O jovem clube tinha uma diretoria decidida a investir para ser campeã. Assim, o treinado foi contratado em agosto, apresentado aos jornalistas no dia 17, mas, como o calendário regional estava paralisado, ele retornou para Itu, de onde trabalhou no planejamento e na formação do elenco até dezembro. Somente em janeiro ele foi para a cidade para iniciar a pré-temporada.

“Foi um convite que deixou todos nós preocupados pela questão da pandemia, de não conhecermos ninguém lá. Mas meu pai estava animado com os objetivos do clube, com a proposta da direção. Ao chegar, ele foi submetido a uma bateria de exames e descobriu que já tinha pegado COVID-19. Isso fez ele relaxar, achando que não pegaria novamente”, disse Ana Paula, filha do treinador.

Mas Manaus passava por um caos sem precedentes. A aparição de uma nova cepa do novo coronavírus em janeiro deixou hospitais superlotados, sem vagas em leitos de UTIs e oxigênio para os pacientes. O número de mortes saltou, e a cidade virou manchete mundial.

“Em 50 dias de 2021 morreu mais gente de COVID-19 em Manaus do que em 2020. Em janeiro, chegou a ter 223 enterros por dia só na cidade. Em fevereiro, foram 150 mortes nos primeiros quinze dias, disse o jornalista manauara Adan Garantizado.

A primeira onda do novo coronavírus já havia impactado o Campeonato Amazonense de 2020, cancelado no meio da disputa e remarcado para ocorrer em fevereiro de 2021, com nova fórmula e menos clubes.

Após mais de um mês de preparação, Scarpino comandou o Amazonas FC contra o Nacional (vitória) e o Manaus (derrota). Em 23 de fevereiro, dia do terceiro jogo da primeira fase contra o Penarol, de Itacoatiara, a história mudou.

“Eles viajaram de ônibus, quatro horas na estrada, para jogar, mas ele já não estava bem. Estava rouco, gripado e com dores estomacais. O pessoal do clube queria que ele voltasse para Manaus, fosse ao hospital, mas ele já tinha feito três exames de COVID-19 e os três deram negativo. Ele preferiu ficar com a delegação para aquele momento importante”, disse Ana Paula.

Scarpino ficou, mas não foi ao estádio. Acompanhou a partida do hotel. Viu o Amazonas perder por 3 a 0 e ser eliminado de forma precoce do Estadual. Por estar à frente do clube que mais investiu, ele e a direção decidiram rescindir o contrato de forma amigável.

“De volta a Manaus, ele foi numa farmácia, passou mal e desmaiou. Fizeram o quarto teste de COVID-19 e deu negativo. O presidente do clube disse que não deixaria meu pai ir embora sem passar no hospital. Foi aí que ele foi atrás e descobriu que 25% do pulmão já estava comprometido. Ele foi internado e, ao fazer o teste do nariz, deu positivo para COVID-19”, disse Ana Paula.

A internação no Hospital Samel, um dos melhores do Estado, ocorreu no dia 24 de fevereiro. Dois dias depois, no sábado, a filha mais nova do treinador chegou à cidade com ajuda da direção do Amazonas e teve tempo de ver o pai.

“Nós conversamos, ele dizia que estava bem para não causar preocupação, mas já estava com os sintomas desenvolvidos. Ele entrou com 25% do pulmão comprometido. Na segunda, já estava com 90%. Foi quando o intubaram. Na terça, já tinha afetado o rim e ele teria de fazer hemodiálise. Na madrugada de terça para quarta, às 3h, ele teve uma parada cardíaca e óbito”, disse Ana Paula.

Ruy Santos Scarpino estava com 59 anos e tinha muitos planos para o futuro no futebol como treinador, mas foi mais uma vítima da COVID-19 no Brasil entre as 259 mil registradas do início da pandemia até aquela triste quarta-feira.

O dor ainda é bem forte para os filhos do treinador e Goreti, esposa do treinador. E evoca até um alerta em forma de desabafo.

“Pessoal teimando em jogar, em ter futebol, mas se acontece alguma coisa como fica a família? Hoje meu pai foi. Como está a gente? Quem é responsável se acontecer alguma coisa? O pessoal está pensando muito no futebol e está esquecendo da família. Quatro mil mortes por dia é coisa para caramba. É muita gente ficando sem a família. Não dá para brincar”, disse Bruno.

A entrevista com a família ocorreu poucos dias antes do Brasil chegar ao absurdo número de 400 mil mortes, o que aconteceu na quinta-feira (29). Outras personalidades do esporte acabaram vítimas dessa terrível e letal doença.

E por isso aquele 3 de março ainda é uma cicatriz aberta para os familiares de Scarpino, que, mais de dois meses depois, honram a memória do pai generoso, amigo e dedicado à família. E ficaram as lembranças e o carinho.

“Antes dele ir para Manaus, ele veio com a minha mãe para conhecer meu filho, mas ele não quis pegar o neto dele no colo. Estava com máscara, com essa situação de COVID-19, e falou assim. ‘Vou ter a vida inteira para pegar ele no colo’. E ele não teve essa oportunidade… São coisas que acontecem, mas hoje sei que ele está olhando o neto lá de cima”, disse Bruno.