<
>

De carrasco do Flamengo a destaque do São Paulo: por que MLS passou a apostar em jovens contrações

play
Dos craques em fim de carreira a promessas sul-americanas: brasileiro diretor do Dallas detalha mudança no perfil de contratações da MLS (3:32)

André Zanotta concedeu entrevista exclusiva ao ESPN.com.br (3:32)

No último final de semana, a Major League Soccer (MLS) deu início a sua 26ª temporada. Ao longo de todos os anos, o campeonato de futebol norte-americano, que também conta com times do Canadá, passou por diversas mudanças estruturais que a tornam cada vez mais atratativa a jogadores e a novos investimentos.

Uma delas é o modelo de contratação dos clubes. Se no passado a MLS se caracterizou por trazer craques experientes para promover e dar visibilidade ao torneio, como Beckham, Ibrahimovic e Kaká, atualmente a competição foca em investir em jovens promessas sul-americanas.

Em um papo exclusivo com o ESPN.com.br, André Zanotta,diretor executivo do FC Dallas, um dos clubes de destaque da MLS, explicou a mudança de postura dos clubes e os incentivos dados pela liga para os novos moldes de investimentos.

"É importante, antes de entrar na resposta em sim, contextualizar onde a MLS está inserida. Ela tem uma série de regras específicas semelhantes aos esportes americanos (NFL, NHL, MLB). Desde as mais conhecidas, como o draft, as trocas, dificilmente você vê compra e vendas, você vê trocas. A MLS passou a criar mecanismos de incentivo aos clubes a trazer jogadores mais jovens. Desde 2008, quando o Beckham foi contratado, ela criou a regra do 'DP' (jogador especial/designated player). Cada equipe pode ter três. Nos últimos anos, não faz muito tempo, a MLS criou o Youth DP. Então, nós vivemos em um mundo de 'salary cap' (teto salarial), que é quanto cada clube pode gastar com o elenco. Esses três DP's são jogadores que podem estar fora do teto. Quando você vê um Ibrahimovic, um Kaká, um Pirlo, entre outros tantos que passaram aqui, eles são DP's que estão fora do teto salarial e que contam com o salário máximo que a liga estabelece. E o Youth DP passa a contar, caso você traga um jogador que o custo está acima desse teto, ele vai contar metade do que constaria um DP do seu 'cap'", começou por afirmar.

play
0:23

Aprendeu com Messi? Higuaín aplica caneta humilhante durante treino do Inter Miami

'El Pipita' rolou a bola entre as pernas do companheiro de time, com muito estilo, durante o coletivo

"Vale muito à pena você ter um jogador desse nível. O Youth DP é abaixo de 23 anos, então ele contaria metade no 'cap'. Foi assim que veio o Ezequiel Barco para o Atlanta, que fez um investimento alto no Independiente. Ele conta muito pouco no 'cap' para incentivar. A MLS continua criando mecanismo para atrair e fazer com que os clubes possam ir atrás de jogadores novos, para que a liga seja vista como uma liga de desenvolvimento. O caso principal que se tem aqui é o Miguel Almirón, que o Atlanta foi no Lanús e revendeu ele para o Newcastle United por um valor muito alto, o maior da história da MLS. Isso tem feito com que muitos clubes façam isso", continuou o dirigente.

"A liga está muito mais atrativa, a infraestrutura dos estádios e dos CT's. Ela não deixa de atrair grandes estrelas, aqui tem o Higuaín, Nani, Matuidi, Chicharito. São jogadores que tiveram carreiras vitoriosas na Europa, vieram para cá e impulsionam a liga, além do desenvolvimento de jovens. Além disso, tudo isso cria um ambiente favorável para que jogadores se sintam atraídos. Estão fazendo a MLS uma liga de escolha. E entender que a MLS pode ser um trampolim para uma ida à Europa. Estamos mostrando que a MLS está nesse caminho. O dólar muito valorizado na América do Sul também facilitar, faz com que fique mais facilitada a possibilidade de fazer negócios", finalizou.

Várias identidades e muito desenvolvimento

Em fevereiro, o FC Cincinnati mostrou a nova postura dos clubes da MLS. Veio até o Brasil e tirou Brenner do São Paulo por aproximadamente R$ 97 milhões (11,8 milhões de euros). Mas, o atacante não foi o primeiro.

Em março de 2017, o Atlanta United, na época treinado por Tata Martino, foi até a Argentina e contratou o paraguaio Miguel Almirón, do Lanús, que se destacava pela equipe granate.

O clube norte-americano, ainda, tem as duas contratações mais caras da história da MLS. Pity Martínez, na temporada 2018-19, que veio do River Plate por R$ 56 milhões (13,2 milhões de euros na época). A segunda foi Ezequiel Barco, que deixou o Independiente, em 2018, por 12,8 milhões de euros.

Para Zanotta, o Atlanta United teve muita visibilidade pelos nomes que contratou e os valores envolvidos nas negociações. No entanto, o dirigente não vê um clube em específico com o pioneirismo nas contratações de jovens promessas sul-americanas.

"Eu acho que o Atlanta teve a visibilidade pelos números envolvidos na transferência do Miguel Almirón. Mas, alguns clubes já haviam feito isso. O prórpio Dallas, se não me engano em 2015, comprou o Carlos Gruezo, volante que era do Stuttgart. Tinha 20 anos. Depois, no ano que já estava aqui, vendemos ele de volta à Bundesliga por um valor quatro vezes superior do que compramos. Cada clube aqui, assim como em vários lugares, tem sua identidade própria ou está desevolvendo".

Criação das categorias de base

Além do alto poder de investimento em contratações, os principais clubes de futebol do mundo também tem como objetivo revelar grandes atletas. Não só pelo futuro lucro em vendas, como também em ter jogadores formados em casa para serem grandes ativos técnicos.

Zanotta contou um pouco do processo evolutivo das categorias de base nos clubes norte-americanos e destacou o Dallas como uma das referências no quesito na MLS.

"O Dallas foi fundado em 1996. Participou da fundação da MLS, está desde o início. A base do Dallas só foi instituída em 2008, 12 anos depois da inauguração do clube. Porque, justamente, percebeu-se, ao contrário do futebol americano, baseball e basquete, para o futebol, esporte global, é necessário passar por uma formação e ter um nível competitivo com outras ligas. Como acontece com o mundo inteiro. Hoje, todos os clubes da MLS têm categorias de base".

"O Dallas tem acreditado nesse processo por sermos eleitos ano após ano a melhor base aqui nos EUA. Formando atletas para as seleções de base e a principal. Depois, jogadores que jogam, a gente tem uma das mais baixas médias de idade. Nos últimos anos vendemos o Bryan Reynolds para a Roma, Reggie Cannon para o Boavista, o Carlos Gruezo para o Augsburg, o Chris Richards para o Bayern de Munique. A gente acredita muito no processo de desenvolver o jogador, colocar ele aqui e buscar o retorno esportivo e financeiro. Claro, não é uma fórmula simples. Temos uma equipe forte para brigar pelo título, mas a ideia é desenvolver o atleta, que ele jogue no time principal, tenha um retorno esportivo primeiro e depois o financeiro".

'Disputa' de atletas com as universidades e o draft

Os Estados Unidos trazem uma especificidade. Ao final do High School, que corresponde ao ensino médio brasileiro, os jogadores têm duas opções, segundo revela o dirigente brasileiro: assinar um contrato profissional com o clube ou rumar para uma universidade. E cada escolha traz uma renúncia.

"O processo de formação dos jogadores vem da categoria de base até o momento que se formam na High School (ensino médio). Uma vez formados na High School, o jogador, muitos dos nossos principais talentos, recebem bolsas em grandes universidades, que são caras. Então, uma bolsa representa bastante para uma família. Um jogador se assina contrato profissional, ele deixa de ser elegível para universidade, porque não aceitam profissionais. Aqui, muitas vezes aqui, que é extremamente diferente para mim do Brasil, quando um jogador termina o High School, eu disputo. Ele fica entre assinar o profissional ou o dos estudos. Se assinar o contrato, vai ter o caminho profissionalizado. Se opta pela universidade, ele pode voltar lá na frente pelo draft", explicou.

"O jogador que é formado na minha base, eu tenho preferência no draft. O que se nota aqui? Cada vez menos, o jogador que vem do College tem impactado no jogo e nos times. Tem algumas exceções. Por que? Porque os clubes da MLS estão investindo mais em jogadores de qualidade. Se um jogador fica no College, o nível de treinamento é diferente do nível profissional. Quando vem do draft, tem que se readaptar em tudo. Isso leva um tempo. Esse é o processo de jogadores que vêm ao contrário dos que são formados e optam pela profissionalização", finalizou.