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Por que Tottenham demitiu Mourinho um dia após o anúncio da Superliga

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Mourinho, demitido do Tottenham, mostra porção de repórteres em sua casa: 'Essa é minha vida' (0:07)

Treinador brincou em suas redes sociais: 'Até meu amigo Gary está me perturbando' (0:07)

Enquanto o contrato do treinador português terminou repentinamente na última segunda-feira com a notícia de sua demissão, a verdade é que a parceria de Tottenham com José Mourinho foi uma relação transacional desde o primeiro dia.

Os Spurs são administrados diariamente pelo presidente Daniel Levy, um dos administradores mais astuciosos e perspicazes do futebol. Mourinho pode ter enganado alguns, reativando sua conta no Instagram e geralmente com falas mais suaves em entrevistas coletivas, porém, nos bastidores, continua mesma figura combativa e confrontativa que sempre foi.

Consequentemente os dois homens estavam em rota de colisão desde o momento em que apertaram as mãos para a apresentação de Mourinho em novembro de 2019, embora isso não signifique que não fizesse sentido.

O Tottenham precisava de um treinador com status e personalidade para sair da sombra de Mauricio Pochettino, alguém com um histórico de fazer a única coisa que o argentino não havia conseguido durante seus cinco anos e meio no comando: ganhar troféus.

Por sua vez, Mourinho precisava de um clube já posicionado a uma distância próxima de grandes conquistas para reconstruir sua reputação, especificamente para contestar a acusação de que a elite do futebol o havia deixado para trás como o campeão do passado.

Levy é econômico em suas negociações, uma metodologia reforçada por ter um estádio de 1 bilhão de libras (R$ 7 bilhões) a ser pago. Ele prefere comprar jogadores jovens que desenvolvem ou possuem um valor de revenda. A gestão de Mourinho exige grandes gastos em jogadores formados, sua autoridade é estabelecida através da montagem clínica de jogadores talentosos que ele espera que possuam a força mental para se concentrar apenas na busca a vitória a todo custo.

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O impressionante estádio de Tottenham é a prova de que Levy também quer o melhor, mas ele é - e sempre será - o oposto filosófico de Mourinho. A questão sempre foi se este "casamento improvável" poderia ter sucesso a curto prazo antes do inevitável, e caro, divórcio.

No meio, estava um elenco montado, talvez irreversivelmente, com a cara de Pochettino. Mourinho procurou aumentar o empenho dos jogadores, como evidenciado no documentário da Amazon, para o qual o treinador de 58 anos se tornou uma estrela. Ele era literalmente o "garoto propaganda" que os fãs sempre diziam que ele estava em todos os lugares, exceto em campo.

Depois do estilo mais inclusivo e empático de Pochettino, uma "mão de ferro" talvez fosse o que o grupo precisava para chegar aos títulos. Antes de Mourinho, o Tottenham havia sido vice da Liga dos Campeões e também vice da Premier League, mas extremamente consistente durante todo o campeonato. Eles eram geralmente reconhecidos por superarem as expectativas, jogando um futebol invejado por muitos.

Mourinho alegou que seus 11 meses sem treinar, após ser demitido do Manchester United em dezembro de 2018, mudaram ele, ganhando perspectivas diferentes enquanto trabalhava na mídia e reconhecendo que o jogo havia evoluído. No entanto, não demorou muito para que Mourinho começasse a criticar publicamente os jogadores que cometiam erros individuais. Os erros defensivos prejudicaram o desempenho, e uma longa lista de lesões deixaram a temporada 2019/20 terminar em decepção.

Mourinho resumiu seu humor perfeitamente após perder o primeiro jogo da Liga dos Campeões para o RB Leipzig, em fevereiro de 2020.

"Se eu pudesse avançar imediatamente para primeiro de julho, eu faria", disse o Special One.

A pandemia ofereceu uma chance inesperada de recomeçar. Os Spurs estiveram à frente da tentativa de apoiar o NHS (sistema nacional de saúde da Inglaterra) e as instituições locais com Mourinho. É provável que nenhum clube se beneficiou mais com a pausa em termos de recuperação de jogadores lesionados - apenas o Manchester City e o Manchester United conquistaram mais pontos (ambos 21) durante o processo de retomada do que o Tottenham - para terminar em 6º lugar e se classificar para a Europa League.

Com Mourinho parabenizando publicamente o "Sr. Levy" - o "Mister" - ao final de uma janela de transferências na qual chegaram Pierre-Emile Hojbjerg, Sergio Reguilón, Matt Doherty, Joe Rodon e Joe Hart, além das chegadas de Carlos Vinicius e Gareth Bale. O Tottenham esteve no topo da tabela em novembro - quase um ano depois que Mourinho assumiu o comando - com uma vitória de 2 a 0 sobre o Manchester City, enquanto Harry Kane e Heung-Min Son levavam sua parceria a novos patamares.

No entanto, eles estavam se saindo muito acima do esperado em números de gols e assistências, sugerindo que não aquilo poderia durar e as tensões começaram a surgir por trás dos panos.

Bale teve tempo para entrar em forma após ter sido congelado no Real Madrid, mas apesar de ter alcançado um nível alto em treinamento, o galês permaneceu como substituto nas partidas contra City, Chelsea e Arsenal, tudo no espaço de duas semanas. Mourinho já estava expressando preocupações sobre a concessão de oportunidades, insistindo que os jogadores não estavam cumprindo suas instruções jogando com uma mentalidade defensiva ao invés de pressionar os adversários no ataque.

Fontes descreveram esta narrativa apresentada por Mourinho como uma importante área de discussão. Também houve frustrações com os treinamentos de Mourinho, contrastando o volume das ações ofensivas realizadas sob Pochettino com a ênfase na defesa e na forma de equipe favorecida por seu sucessor.

Os jogadores mais jovens do clube também sentiram que o caminho para o time principal era muito mais difícil com Mourinho. Pochettino demonstrava grande interesse na formação da academia e, embora os membros da equipe de desenvolvimento frequentemente treinassem com os mais velhos, Mourinho raramente oferecia mais do que palavras de incentivo.

Em campo, o estilo de futebol do Tottenham tornou-se reativo. Uma equipe construída sobre princípios de ataque parecia apanhada em uma batalha existencial consigo mesma, reprimindo instintos de ir ao ataque por causa dos ideais conservadores de seu treinador. Isso rapidamente se tornou algo aparentemente beneficiado pela ausência de torcedores. Não havia ninguém para dar a "trilha sonora" furiosa enquanto assistiam à falta de ambição de sua equipe em casa. Afinal, o lema dos Spurs é "Ousar é fazer", não "Ousar é defender".

O futuro de Kane também se tornou tema de especulação crescente. Fontes disseram à ESPN que, embora o capitão da Inglaterra não amasse nada mais do que a ideia de ganhar títulos pelo Tottenham, existe um palpite de que sua ambição de disputar maiores títulos do esporte podem levá-lo a buscar novos ares.

Os Spurs havia vencido apenas uma de suas últimas seis partidas antes do anúncio de segunda-feira, mas o momento da partida de Mourinho é uma surpresa no contexto de que ela acontece seis dias antes de uma final da Copa da Liga Inglesa contra o Manchester City.

O homem trazido para ganhar troféus foi demitido na semana em que ele poderia entregar um. Por que não dar ao homem que ganhou 12 das 15 grandes finais de sua carreira em toda a Europa a chance de conquistar outra vitória sobre Pep Guardiola?

A ESPN informou em 19 de fevereiro que Levy queria esperar até o final da temporada para então decidir o futuro de Mourinho, consciente dos problemas dentro do time, mas principalmente para saber em qual competição europeia o Tottenham estaria.

Com o anúncio do envolvimento do Tottenham na Superliga, talvez ele tenha sua resposta. Certamente o pagamento, no valor de cerca de 20 milhões de libras (R$ 155 milhões), segundo fontes, seria muito mais aceitável para um clube que contraiu um empréstimo do Banco da Inglaterra no ano passado para cobrir seus custos operacionais durante a pandemia do coronavírus.

Mourinho foi demitido menos de 12 horas após a criação da Superliga ter sido confirmada em um comunicado dos 12 clubes envolvidos. É tentador dizer que ele serviu ao seu propósito, mantendo o perfil mais abrangente do clube enquanto procuravam figurar entre os grandes clubes da Europa. Porém, a contratação de Mourinho era para ser sobre levantar troféus.

O documentário da Amazon se intitulava apropriadamente "Tudo ou Nada". No final, não era "nada", e isso é uma grande decepção para todos.